Napoleão
Nelly Kaplan
Editora Rocco
Cinema - 88 páginas
Tradução: José Laurenio de Melo
Para escrever Napoleão, Nelly Kaplan usou documentos raros e até então inéditos sobre a obra do cineasta, muitos deles reproduzidos em fac-símile. O livro é mais saboroso para quem viu o filme de Gance, mas, até por tratar-se de uma obra rara e de difícil acesso, a autora faz um breve resumo da versão de 1927, introduzindo o leitor no universo do cineasta. Essa versão, aliás, sequer existe. Algumas seqüências foram perdidas e muitas passagens do roteiro original nunca foram filmadas. Após seu lançamento, o próprio Gance alterou Napoleão pelo menos umas vinte vezes. Tanta inquietação era própria do espírito do cineasta, que morreu em 1981, aos 92 anos.
O livro de Nelly é fascinante por revelar, em detalhes, o estilo de trabalho de Gance. Mostra como ele era minucioso em seus roteiros, descrevendo cada cena detalhadamente. Apresenta sua visão do que deve ser o cinema e os diversos inventos que anteciparam, em algumas décadas, processos de filmagem que se tornariam comuns anos depois. Gance era um cineasta apaixonado pela força da imagem. Em uma nota reproduzida por Nelly em seu livro, o cineasta diz: "Pensar o tempo quase todo somente no prazer do olho." Ela reproduz também outro texto de Gance sobre como ele queria que o público visse Napoleão: "Pela primeira vez o público não deve ser espectador como sempre é quando contempla quadros, mas ator, como é na vida sofrer com os feridos, combater com os soldados, estar no comando com os oficiais."
Para conseguir esse efeito, Nelly conta que Gance usava a câmera como elemento dramático. A descrição da cena do fuzilamento, com a câmera caindo ao chão como se fossem os olhos de uma das vítimas, é um exemplo. Ele também criou alguns efeitos surpreendentes para a época, como o uso de imagens superpostas para cenas de ação frenética e a expansão da imagem, com o uso sincronizado de três câmeras para três projetores exibindo uma cena panorâmica em três telas, uma ao lado da outra. E o som estéreo, que apareceria muitos anos depois nas superproduções hollywoodianas, também foi antecipado por Gance, que deu o nome de perspectiva sonora ao uso de diversos alto-falantes espalhados pelo auditório, emitindo sons em conjunto ou seletivamente, dando ao espectador a sensação de total ubiqüidade. Quando se chega ao fim do livro, conclui-se que Abel Gance é, sem dúvida, como Nelly Kaplan diz, "um dos maiores visionários da Sétima Arte."
Sobre a autora:
Diretora de cinema, roteirista e escritora, Nelly Kaplan nasceu na Argentina, onde estudou Economia na Universidade de Buenos Aires. Após mudar-se para Paris, conheceu Abel Gance em 1954, tendo sido sua íntima colaboradora até 1964, atuando na elaboração de textos teóricos e como diretora da segunda unidade dos últimos filmes do cineasta. O livro lançado pela Rocco foi traduzido da versão em inglês, adaptada e compilada do original francês por Bernard McGuirk para a série BFI, do British Film Institute.
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