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RESENHAS
Confissões
Darcy Ribeiro
Cia das Letras,
577 páginas
Outras
obras do Autor
Por
Rita Amaral
Os últimos anos de Darcy Ribeiro
foram marcados por retrospectivas, o que se viu tanto em "O Povo
Brasileiro", como em "Diários Índios", obras que reuniram
material que se encontrava engavetado há muito tempo à espera de revisão
e aperfeiçoamento e ao qual a perspectiva da morte deu urgência de publicação.
Contando com estas "Confissões", de natureza mais biográfica,
somam-se cerca de 1500 páginas de conhecimento e avaliações que fazem
pensar no quanto teria sido melhor se tivessem sido publicadas mais
cedo, enquanto a maior parte do material ainda era realmente novo e
Darcy disponível para discussões. O adiamento não parece ter sido por
falta de oportunidade de edição mas, pelo que se deduz em Confissões,
pelas ambições do antropólogo de produzir uma obra que dividisse águas,
o que a procrastinação acabou impedindo que acontecesse. Se em todas
estas publicações, incluindo as "Confissões", fica uma imensa
admiração pelo trabalho e energia do antropólogo e educador, é inegável
uma certa sensação de dejà vu quanto às análises que faz de vários
temas, a maior parte delas já feitas por outros autores, muitas vezes
baseados nos trabalhos do próprio Darcy e talvez por isto ignorados
por ele. Suas "Confissões" dão pistas,entretanto, para entender
ao menos uma das causas deste retardamento: convicções. Consciente da
peculiaridade de nossa cultura, estava determinado a fazer mais do que
apenas refletir e escrever sobre o que via baseando-se em modelos teóricos
alheios a nós e preocupava-se em não se deixar envolver pelo academicismo
de modelo americano ou europeu que vive de si e para si, poucas vezes
preocupado com seu papel transformador da sociedade. Darcy pensava em
construir uma grande teoria antropológica brasileira que nos explicasse
e aos nossos problemas e soluções. Ele critica a academia brasileira
que, a seu ver, insiste em privilegiar a interlocução com teorias e
conceitos estrangeiros, "testando", "verificando"
e "aplicando" estas teorias (como acontece, atualmente, com
o conceito de globalização, adotado e usado indiscriminadamente por
intelectuais de todas as áreas) e menos preocupada em produzir a sua
própria, ainda que fossem teorias de uma "ciência subdesenvolvida",
como queria o sociólogo Guerreiro Ramos, a quem dá o braço a torcer
depois de haver combatido em função desta mesma idéia. Darcy volta a
dizer que as ciências sociais, especialmente a antropologia, devem ser
instrumentos de transformação social e chama de infecunda a ciência
que se mantém distante e imparcial, apenas observando, sem se importar
com as condições de existência dos grupos estudados. Fica claro que,
para Darcy Ribeiro, não se tratava apenas de pensar o mundo, mas de
transformá-lo.
Embora a intenção de Confissões
seja a de ser um livro de Darcy sobre Darcy, visando mesmo comover
o leitor, como declara no prólogo, não se pode deixar de vê-lo como
um livro de história do Brasil, à qual sua vida e idéias estão profundamente
ligadas. Pouca coisa parece desconhecida dos que têm mais de 40 anos
ou que partilharam de algum modo a vida ou os interesses do antropólogo,
educador e político, a não ser os aspectos mais pessoais. A narrativa,
desenvolvida através da representação do tempo nos espaços onde viveu
e funções que exerceu é também narrativa da história do Brasil. Traçada
em ordem cronológica, começa em Montes Claros, 1922, com seu nascimento
e desvela para o leitor, minuciosamente, o lugar, a família, as avós,
tias e primos (muitas vezes citados nominalmente com carinho e humor)
e amigos, numa privilegiada visão da infância mineira no começo do
século, apesar da prematura perda do pai, vista como um dado positivo:
"não tive quem me domesticasse". A seguir, a descoberta
dos amores, do sexo, as dificuldades da adolescência e a vinda para
São Paulo a fim de estudar medicina, curso do qual desistiu devido
à inescapável vocação humanista que o "forçava" a matar
aulas para assistir palestras na Faculdade de Filosofia, decidindo-se
pelas ciências sociais, para desgosto da família. Lembra com emoção
viva do encanto e influência de professores da Escola de Sociologia
e Política, como Herbert Baldus e Roger Bastide e de colegas como
Florestan Fernandes e Oscar Niemeyer (que ilustra o livro). E declara
seu ídolo Cândido Rondon (que ele compara a Gandhi), com quem trabalhou
e aprendeu muito sobre a ação prática no que diz respeitos aos índios.
Sua vida junto a várias nações indígenas, o tanto que com eles aprendeu
e os contratempos criados por sua mania de falar demais, são momentos
saborosos do livro e revelam o modo de agir nada mineiro de Darcy.
Seguindo a cronologia, comenta sua entrada para o partido comunista
e sua ida para Brasília, onde ajudaria a planejar a Universidade que
viria a ser sua mais amada criação. Lembra o governo João Goulart;
os exílios, e sobretudo fala de seus amores. Muitos. Nos melhores
ou piores momentos, Darcy Ribeiro se sustenta de amor e livros, embora
afirme que os segundos lhe eram mais queridos.
Suas confissões são quase
um romance cujo personagem central é ele mesmo com suas paixões e
arrependimentos, exaltando vaidoso suas virtudes e feitos e perdoando
seus defeitos, chegando mesmo a assumir alguns posições bastante "politicamente
incorretas", como por exemplo falar de Berta Ribeiro, sua primeira
mulher, sempre como discípula e tratando-a como tal mesmo quando valoriza
seu trabalho. Ou confessando que não estimulou a carreira de certa
aluna porque ela lhe parecia "bonita demais para ser etnóloga".
Narra ainda vários episódios de amores clandestinos com mulheres comprometidas
das quais chega a citar o nome ou apelido e ainda as várias doenças
venéreas que o levaram à esterilidade, não tendo pois que "domesticar
ninguém". E ainda que deixou fora de suas publicações interessantes
informações a respeito da existência da homossexualidade entre os
índios kadiwew.
Num certo momento do livro,
quando fala de política e educação, sentimos que perdemos nosso romântico
personagem da primeira parte, que se torna figura pública: o antropólogo,
o professor, o burocrata, o ministro, o senador, o candidato, o planejador.
Sua imensa humanidade só se expressa, então, nos amores que de que
ele tanto parece se orgulhar. Vamos recuperar nosso herói quando ele
fala do primeiro câncer. Não porque sentisse medo, pois medrosos não
se tornam Darcys Ribeiros, mas por sua reflexão sobre o morrer e o
viver. Descobrimos um homem que também redescobre a si mesmo e à vida
no corpo doente, questionando-a como essência pela primeira vez. Suas
posições convictas diante do que importa ou não na vida sao talvez
o componente mais forte de sua biografia. A frase "sei apenas
que a vida vale a pena se não dói muito e não exige sacrifícios demais
da vida dos outros" resume seu modo de pensar. Talvez no
segundo câncer Darcy não acreditasse, passado já dos 70 anos de idade,
que isto ainda fosse possível.
Seu retorno ao Brasil a
fim de operar-se do primeiro câncer dá oportunidade a que ele conte
das dificuldades impostas pela ditadura, entre elas a de conseguir
emprego, lidar com as atitudes de alguns amigos e do amor que recebeu
das muitas mulheres que teve, aos quais dedica todo o ultimo capítulo
do livro, numa espécie de revisão de sua coleção de afetos.
Antonio Cândido disse que
o que espantava em Darcy era sua capacidade de viver muitas diferentes
vidas ao mesmo, enquanto que a maioria de nós mal consegue dar conta
de uma. Suas confissões mostram que ele realmente fez isso, assumindo
inteira responsabilidade pelos resultados, nem sempre satisfatórios,
diga-se. Mas confessa que viveu e muito bem., sendo tudo que já se
sabe e também um carente crônico, mulherengo, autoritário, às vezes
prepotente, mas lúcido, humorado e apaixonado, supremamente verdadeiro
e amante de seu povo e seu país. Humano, troppo humano.
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Rita Amaral é doutora em
Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

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