Desde seu surgimento, a
umbanda sempre foi um fenômeno sociológico brasileiro. Com a alma
e a cara do Brasil, antropofágica, no sentido que deu ao termo Oswald
de Andrade, a umbanda foi capaz de absorver, digerir e transformar
em si própria, sob uma estrutura burocratizada (e por incrível que
pareça, carnavalizada), os mais diferentes sistemas religiosos. E
absorveu ainda estruturas e categorias sociais do militarismo, da
medicina da malandragem, da política de favores, das populações marginais
e marginalizadas. A vida e as crenças dos pobres brasileiros, mas
também os padrões culturais dominantes. À umbanda aderem hoje todas
as classes sociais brasileiras, com os estilos de vida que a elas
eqüivalem, e essa presença deixa marcas na religião em que exus, pretos-velhos,
caboclos e baianos atendem aos problemas que atormentam qualquer ser
humano, rico ou pobre. Vem sendo exportada para países da Europa e
América do Norte e alcançando sucesso lá; talvez pela extraordinária
capacidade de se amoldar e absorver os diferentes contextos em que
se insere. Ela vem se internacionalizando. Está na Internet. A umbanda
está no mundo. Mas, se tem esse caráter universalizante, traduzindo-se
para fiéis com diferente expectativas e vindos de diferentes religiões,
algumas delas sendo mesmo suas matrizes, como o candomblé, o catolicismo
e o kardecismo, ela não se confunde em absoluto com estas, pois o
resultado de conviver com todas e não optar por nenhuma, de viver
o que Roberto Da Matta chamou de "o dilema brasileiro",
o "escolher não escolher", lhe dá feições únicas.
Apesar de andar meio "fora
de moda" como objeto de estudo (e nem ao menos foi estudada boa
parte do panteão e das práticas umbandistas), a umbanda continua sendo
a opção religiosa de um imenso número de brasileiros e só isto já
justificaria o interesse por compreender melhor de que modo esta religião
(a que se pode aderir sem deixar de ser católico, budista, judeu ou
qualquer coisa), se organiza e se mantém, num campo religioso que
vem se tornando cada vez mais concorrente, pois a bricolagem que ela
realizou há tempos, hoje encontra possibilidades, no nível dos indivíduos,
bastante amplas. Juntando fragmentos de todas as tendências do mesmo
modo como o fez a umbanda no passado, reinterpretando e introduzindo
elementos numa cosmologia particularizada, as pessoas criam, mais
que uma religião brasileira, uma "religião pessoal". Por
que, então, a umbanda vem se mantendo como uma das religiões favoritas
dos brasileiros no final do século 20?
No livro de Lísias Negrão,
"Entre a Cruz e a Encruzilhada" é possível encontrar alguns
elementos que ajudam a responder a estas e outras perguntas que possamos
fazer sobre a umbanda. Produto de uma vasta pesquisa documental (ela
varre minuciosamente o noticiário da imprensa leiga e religiosa durante
um período de 60 anos) e de campo (presença de entrevistadores assistindo
os cultos, no estilo antropológico), este livro nos mostra o modo
pelo qual surge, se organiza e institucionaliza a umbanda, especialmente
em São Paulo. Mostra as dificuldades - decorrentes de suas origens
negras e pobres - encontradas no processo de legitimação, mas também
seu funcionamento estrutural e sua articulação política nas Federações,
grandes responsáveis pelo status de religião organizada e pelo diálogo
desta com os poderes instituídos. Segundo Lísias, a umbanda se divide
atualmente em umbanda federada e umbandas dos terreiros, a primeira
uniforme, oficial, de classe média, reconhecida como representante
da umbanda em nível nacional e institucional. E as segundas, a umbanda
na particularidade dos terreiros, de pobres das periferias, onde cada
mãe ou pai-de-santo é seu próprio papa, quem decide como deve ser
a "sua" umbanda. Ambas não se excluem, mas a imagem pública
da umbanda é sobretudo a imagem produzida pelas Federações: a das
Festas de Iemanjá na Praia Grande, das Festa de Ogum no Ibirapuera
e outras, além das obras assistenciais, organizadas e patrocinadas
pelas federações e pelos líderes umbandistas que ditam as regras de
como devem acontecer. O mesmo para as publicações religiosas e outras
instâncias históricas de diálogo com a sociedade nacional.
Em sua argumentação de que
a umbanda é ainda uma religião em formação (o que pressupõe a existência
de um projeto, de um lugar onde a umbanda deseje chegar) Lísias Negrão
percorre ainda o panteão da umbanda, os cultos em diferentes terreiros
e faz uma sociografia "ligeira" de algumas umbandas paulistanas.
Ao discutir a ética da umbanda aponta o caráter racionalizador e moralizador
das federações, mais ligadas às classes médias, e que encontra eco
nas classes inferiores, que por sua vez "elaboram justificativas
moralmente sustentáveis para fugir aos rigores do ideal da caridade"(pg
.367). Segundo Lísias, isso não significa que a umbanda seja a-ética
ou anti-ética, mas que tem uma ética particular, pragmática, que não
opõe valores idealizados às condições concretas, e sim as reconhece
e aceita como são. Como é típico das religiões de origem africana.
Da leitura de "Entre
a cruz e a encruzilhada" fica, finalmente, a forte impressão
de que a umbanda é a "religião brasileira" porque é marcada
por dualidades de todos os tipos e que estas, mais do que dilemas
aos quais seria preciso dar uma resposta, compõem o lugar privilegiado
de onde a umbanda fala aos brasileiros. Elas são as opções e as escolhas.
Na umbanda é possível escolher não escolher, comer o bolo e
guardar o bolo, ser e não ser. Um espelho da alma brasileira.
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Rita Amaral é doutora em Antropologia
Social pela Universidade de São Paulo.