RESENHAS

Entre a Cruz e a Encruzilhada - Formação do Campo Umbandista em São Paulo
Lísias Nogueira Negrão
EdUSP

Por Rita Amaral

 

Desde seu surgimento, a umbanda sempre foi um fenômeno sociológico brasileiro. Com a alma e a cara do Brasil, antropofágica, no sentido que deu ao termo Oswald de Andrade, a umbanda foi capaz de absorver, digerir e transformar em si própria, sob uma estrutura burocratizada (e por incrível que pareça, carnavalizada), os mais diferentes sistemas religiosos. E absorveu ainda estruturas e categorias sociais do militarismo, da medicina da malandragem, da política de favores, das populações marginais e marginalizadas. A vida e as crenças dos pobres brasileiros, mas também os padrões culturais dominantes. À umbanda aderem hoje todas as classes sociais brasileiras, com os estilos de vida que a elas eqüivalem, e essa presença deixa marcas na religião em que exus, pretos-velhos, caboclos e baianos atendem aos problemas que atormentam qualquer ser humano, rico ou pobre. Vem sendo exportada para países da Europa e América do Norte e alcançando sucesso lá; talvez pela extraordinária capacidade de se amoldar e absorver os diferentes contextos em que se insere. Ela vem se internacionalizando. Está na Internet. A umbanda está no mundo. Mas, se tem esse caráter universalizante, traduzindo-se para fiéis com diferente expectativas e vindos de diferentes religiões, algumas delas sendo mesmo suas matrizes, como o candomblé, o catolicismo e o kardecismo, ela não se confunde em absoluto com estas, pois o resultado de conviver com todas e não optar por nenhuma, de viver o que Roberto Da Matta chamou de "o dilema brasileiro", o "escolher não escolher", lhe dá feições únicas.

Apesar de andar meio "fora de moda" como objeto de estudo (e nem ao menos foi estudada boa parte do panteão e das práticas umbandistas), a umbanda continua sendo a opção religiosa de um imenso número de brasileiros e só isto já justificaria o interesse por compreender melhor de que modo esta religião (a que se pode aderir sem deixar de ser católico, budista, judeu ou qualquer coisa), se organiza e se mantém, num campo religioso que vem se tornando cada vez mais concorrente, pois a bricolagem que ela realizou há tempos, hoje encontra possibilidades, no nível dos indivíduos, bastante amplas. Juntando fragmentos de todas as tendências do mesmo modo como o fez a umbanda no passado, reinterpretando e introduzindo elementos numa cosmologia particularizada, as pessoas criam, mais que uma religião brasileira, uma "religião pessoal". Por que, então, a umbanda vem se mantendo como uma das religiões favoritas dos brasileiros no final do século 20?

No livro de Lísias Negrão, "Entre a Cruz e a Encruzilhada" é possível encontrar alguns elementos que ajudam a responder a estas e outras perguntas que possamos fazer sobre a umbanda. Produto de uma vasta pesquisa documental (ela varre minuciosamente o noticiário da imprensa leiga e religiosa durante um período de 60 anos) e de campo (presença de entrevistadores assistindo os cultos, no estilo antropológico), este livro nos mostra o modo pelo qual surge, se organiza e institucionaliza a umbanda, especialmente em São Paulo. Mostra as dificuldades - decorrentes de suas origens negras e pobres - encontradas no processo de legitimação, mas também seu funcionamento estrutural e sua articulação política nas Federações, grandes responsáveis pelo status de religião organizada e pelo diálogo desta com os poderes instituídos. Segundo Lísias, a umbanda se divide atualmente em umbanda federada e umbandas dos terreiros, a primeira uniforme, oficial, de classe média, reconhecida como representante da umbanda em nível nacional e institucional. E as segundas, a umbanda na particularidade dos terreiros, de pobres das periferias, onde cada mãe ou pai-de-santo é seu próprio papa, quem decide como deve ser a "sua" umbanda. Ambas não se excluem, mas a imagem pública da umbanda é sobretudo a imagem produzida pelas Federações: a das Festas de Iemanjá na Praia Grande, das Festa de Ogum no Ibirapuera e outras, além das obras assistenciais, organizadas e patrocinadas pelas federações e pelos líderes umbandistas que ditam as regras de como devem acontecer. O mesmo para as publicações religiosas e outras instâncias históricas de diálogo com a sociedade nacional.

Em sua argumentação de que a umbanda é ainda uma religião em formação (o que pressupõe a existência de um projeto, de um lugar onde a umbanda deseje chegar) Lísias Negrão percorre ainda o panteão da umbanda, os cultos em diferentes terreiros e faz uma sociografia "ligeira" de algumas umbandas paulistanas. Ao discutir a ética da umbanda aponta o caráter racionalizador e moralizador das federações, mais ligadas às classes médias, e que encontra eco nas classes inferiores, que por sua vez "elaboram justificativas moralmente sustentáveis para fugir aos rigores do ideal da caridade"(pg .367). Segundo Lísias, isso não significa que a umbanda seja a-ética ou anti-ética, mas que tem uma ética particular, pragmática, que não opõe valores idealizados às condições concretas, e sim as reconhece e aceita como são. Como é típico das religiões de origem africana.

Da leitura de "Entre a cruz e a encruzilhada" fica, finalmente, a forte impressão de que a umbanda é a "religião brasileira" porque é marcada por dualidades de todos os tipos e que estas, mais do que dilemas aos quais seria preciso dar uma resposta, compõem o lugar privilegiado de onde a umbanda fala aos brasileiros. Elas são as opções e as escolhas. Na umbanda é possível escolher não escolher, comer o bolo e guardar o bolo, ser e não ser. Um espelho da alma brasileira.

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Rita Amaral é doutora em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo.

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