Sandra Falcone


 

Advogada e empresária Sandra Falcone é bem um reflexo de nossa era pós-moderna, em que o homem busca realizar-se por inteiro, e não apenas profissionalmente. Sandra escreve poesia, conto, crônica, peça de teatro.
Publicou os livros – "Retraços de Mulher" e "Notícias de Mim".
Sandra acredita no duplo lançamento – livro e cd -, um complementando o outro, um oferecendo a fruição da palavra escrita, o outro o desfrute do poema vivido em vozes. Apostando neste crença e com o propósito de mostrar ao público obras poéticas de qualidade, acompanham seus livros os cds de mesmo título; o primeiro dirigido pelo maestro Fábio Cintra, ditos por atores profissionais e o segundo com as vozes de Miguel Falabella e Elisa Lucinda, além da própria autora.
O lançamento de seus livros e cds foram acompanhados por espetáculos cênicos, o primeiro no Museu da Casa Brasileira, sob a direção artística de Sérgio Ferrarra, com os atores Jarbas Homem de Mello, Adriana Azenha e Alessandra Vertinatti; o segundo, na Agência Central do Personnálite/Itaú, sob a direção artística de Gerson Steves, com a interpretação de Elisa Lucinda.
Criou também o projeto "Poesia Itinerante". O objetivo é percorrer espaços culturais, escolas de segundo grau e universidades, de São Paulo e do interior, incentivando o contato com a poesia de autores novos e consagrados, através de dramatizações de poemas.

 

 



Sherezhade

(do livro "Retraços de Mulher")

Pudesse eu,

de alguma forma,

modificar a minha íntima estrutura de mulher...

Ah, esta ambigüidade me alucina!

Não saber nada,

absolutamente nada,

apavora, amedronta.

Maldito cotidiano psíquico!

Deixar-me assim,

tomada por todos os mins.

Minha vontade. Minha imaginação.

Pedaços de mulher. Espelho de sonhos.

Ah!, quantas e quantas vezes,

ainda,

Sherezhade de mim mesma?

 


Tirania

(do livro "Retraços de Mulher")

És pura tirania

doce que vicia

nesse teu chegar

de sonho!

E nesse sonho

que sonho sempre

quando tu me chegas,

sou absurdamente, tua,

e tu tão, absolutamente, meu!

A timidez ávida do meu corpo

que já nasceu teu,

é volúpia pura,

só no devaneio de se pensar teu.

E o teu,

no conhecer do meu

não resiste.

Em delírio, aceita o meu!

Na nudez gostosa que tanto desejo,

meu corpo,

em marulhar

no mesmo balanço do teu,

te faz meu de tantas formas!

Exploro em languidez

a tua masculinidade.

E tu me tomas, em loucura.

E nesse teu

e neste meu,

o gozo vem,

o teu e o meu do mesmo jeito,

mas não da mesma forma!

Exausta, na cumplicidade

dos sonhos meus,

sentindo a brisa leve

do próprio respirar profundo,

ainda assim, sonho,

que não é a minha,

é a tua...

 

No silêncio de depois,

quando adormeço,

meu corpo, a boca, a volúpia

do meu desejo,

ainda assim ficam em entrega,

pois

no feitiço das minhas mãos

volto a sonhar.

Afago-me em carícias minhas

que faço tuas

e me entrego ainda mais!

 

 



(do livro "Notícias de Mim")

Desde menina

guardo,

na minha sala de memória,

numa caixa de saudade,

velhas cartas, fotografias e

objetos coloridos

de encantos e desencantos.

Lá estão

o bigode áspero do meu pai,

o dedal paciente da minha mãe,

a trança despenteada da minha irmã,

duas bolas-de-gude quebradas

que roubei dos meus irmãos;

na fita da primeira comunhão

a medalhinha de Santo Antônio

que minha tia-madrinha

e casamenteira me deu;

o primeiro cartão postal

do vizinho – João,

com o cadeado do diário que perdi,

quando fiz quinze anos.

A carta, marcada com meu batom,

amarrada numa outra,

cuidadosamente desamassada,

que ainda leio;

o anel de rubi,

que não serve mais no anular,

na mesma correntinha,

com os dentinhos do meu filho

sob a oração do seu sétimo dia

e o último poema, que lhe escrevi.

Todos os meus coloridos

encantos e desencantos

estão protegidos

do tempo.

Num instante, num dia,

muito tempo atrás,

nesse relógio parado

sem corda,

que junto deles

deixei.

 

 


(do livro "Notícias de Mim")

Sou organizada,

arquivo minhas dores.

Já arquivei muitas.

Vez por outra,

desarquivo uma.

Algumas permanecem arquivadas,

exclusivamente porque já foram dores,

e dores são dores,

tenho-lhes o devido respeito.

Tenho algumas que nem toco,

pavor de estragá-las.

Deixo-as como estavam

no dia do arquivamento,

intactas.

Tenho muitas dores arruaceiras,

escandalosas,

dessas que a gente morre de vergonha

quando aparecem.

Mas é evidente que tenho outras,

completamente diferentes,

caladas.

Dessas não gosto.

Algumas são delicadíssimas,

a dor do primeiro amor desfeito

é um bom exemplo.

Tenho uma dor bem interessante,

eu diria até que

inusitada,

uma dor desafinada.

Ora, por que a surpresa?

Paixão solitária dá nisso,

impossível harmonizar.

Confesso, sem constrangimento,

tenho uma dor

brega.

Isso mesmo. E quem não tem

pelo menos uma?

A minha dor de cotovelo

está na terceira gaveta,

já esteve mais acessível,

mas ainda está lá.

Tenho até dor em ordem alfabética.

 

 

É bem grande esse meu arquivo,

mas organizado.

Quer dizer, mais ou menos.

É que tenho uma dor

Instável.

Já tentei faze-la desaparecer,

mas é voluntariosa,

tem vida própria.

Uma vez rasguei-a em pedacinhos.

Adiantou? Não!

Mal abri a primeira gaveta

lá estava ela, multiplicada.

Arquiva-se e desarquiva-se

quando e como quer.

E, mais, mistura-se com as outras.

Apareceu de tanto eu abrir e fechar a gaveta.

Difícil lidar com ela.

Desisti.

 

 




(do livro "Notícias de Mim")

Sua tristeza

não estava no olhar

a esmo,

nem no exílio do sorriso,

ou na voz que atravessava

a rua,

tampouco na palma

da mão que estendia.

Estava

no chão.

Era uma menina

de pés tristes.

 

 



(do livro "Notícias de Mim")

Não chorou

quando nasceu

não desperdiçava nada

nem lágrimas

não era triste

nem alegre

pra quê?

se nem menino

chegou a ser?

nasceu a assim

pronto pra vida

e da vida

que já sabia tudo

já não pedia quase mais nada

pra quê?

se até da fome

que já era tanta

nem mais lembrava?

 

http://www.webzip.com.br/sandrafalcone/sandra.html

 

 

Clique aqui!

 

 

©1999 Criação: Lumiarte Web Assessoria & Design - Todos os direitos reservados