|
|
|
Sandra Falcone
(do livro "Retraços de Mulher") Pudesse eu, de alguma forma, modificar a minha íntima estrutura de mulher... Ah, esta ambigüidade me alucina! Não saber nada, absolutamente nada, apavora, amedronta. Maldito cotidiano psíquico! Deixar-me assim, tomada por todos os mins. Minha vontade. Minha imaginação. Pedaços de mulher. Espelho de sonhos. Ah!, quantas e quantas vezes, ainda, Sherezhade de mim mesma?
(do livro "Retraços de Mulher") És pura tirania doce que vicia nesse teu chegar de sonho! E nesse sonho que sonho sempre quando tu me chegas, sou absurdamente, tua, e tu tão, absolutamente, meu! A timidez ávida do meu corpo que já nasceu teu, é volúpia pura, só no devaneio de se pensar teu. E o teu, no conhecer do meu não resiste. Em delírio, aceita o meu! Na nudez gostosa que tanto desejo, meu corpo, em marulhar no mesmo balanço do teu, te faz meu de tantas formas! Exploro em languidez a tua masculinidade. E tu me tomas, em loucura. E nesse teu e neste meu, o gozo vem, o teu e o meu do mesmo jeito, mas não da mesma forma! Exausta, na cumplicidade dos sonhos meus, sentindo a brisa leve do próprio respirar profundo, ainda assim, sonho, que não é a minha, é a tua...
No silêncio de depois, quando adormeço, meu corpo, a boca, a volúpia do meu desejo, ainda assim ficam em entrega, pois no feitiço das minhas mãos volto a sonhar. Afago-me em carícias minhas que faço tuas e me entrego ainda mais!
Desde menina guardo, na minha sala de memória, numa caixa de saudade, velhas cartas, fotografias e objetos coloridos de encantos e desencantos. Lá estão o bigode áspero do meu pai, o dedal paciente da minha mãe, a trança despenteada da minha irmã, duas bolas-de-gude quebradas que roubei dos meus irmãos; na fita da primeira comunhão a medalhinha de Santo Antônio que minha tia-madrinha e casamenteira me deu; o primeiro cartão postal do vizinho – João, com o cadeado do diário que perdi, quando fiz quinze anos. A carta, marcada com meu batom, amarrada numa outra, cuidadosamente desamassada, que ainda leio; o anel de rubi, que não serve mais no anular, na mesma correntinha, com os dentinhos do meu filho sob a oração do seu sétimo dia e o último poema, que lhe escrevi. Todos os meus coloridos encantos e desencantos estão protegidos do tempo. Num instante, num dia, muito tempo atrás, nesse relógio parado sem corda, que junto deles deixei.
(do livro "Notícias de Mim") Sou organizada, arquivo minhas dores. Já arquivei muitas. Vez por outra, desarquivo uma. Algumas permanecem arquivadas, exclusivamente porque já foram dores, e dores são dores, tenho-lhes o devido respeito. Tenho algumas que nem toco, pavor de estragá-las. Deixo-as como estavam no dia do arquivamento, intactas. Tenho muitas dores arruaceiras, escandalosas, dessas que a gente morre de vergonha quando aparecem. Mas é evidente que tenho outras, completamente diferentes, caladas. Dessas não gosto. Algumas são delicadíssimas, a dor do primeiro amor desfeito é um bom exemplo. Tenho uma dor bem interessante, eu diria até que inusitada, uma dor desafinada. Ora, por que a surpresa? Paixão solitária dá nisso, impossível harmonizar. Confesso, sem constrangimento, tenho uma dor brega. Isso mesmo. E quem não tem pelo menos uma? A minha dor de cotovelo está na terceira gaveta, já esteve mais acessível, mas ainda está lá. Tenho até dor em ordem alfabética.
É bem grande esse meu arquivo, mas organizado. Quer dizer, mais ou menos. É que tenho uma dor Instável. Já tentei faze-la desaparecer, mas é voluntariosa, tem vida própria. Uma vez rasguei-a em pedacinhos. Adiantou? Não! Mal abri a primeira gaveta lá estava ela, multiplicada. Arquiva-se e desarquiva-se quando e como quer. E, mais, mistura-se com as outras. Apareceu de tanto eu abrir e fechar a gaveta. Difícil lidar com ela. Desisti.
(do livro "Notícias de Mim") Sua tristeza não estava no olhar a esmo, nem no exílio do sorriso, ou na voz que atravessava a rua, tampouco na palma da mão que estendia. Estava no chão. Era uma menina de pés tristes.
Não chorou quando nasceu não desperdiçava nada nem lágrimas não era triste nem alegre pra quê? se nem menino chegou a ser? nasceu a assim pronto pra vida e da vida que já sabia tudo já não pedia quase mais nada pra quê? se até da fome que já era tanta nem mais lembrava?
|
|
|
|
|
©1999 Criação: Lumiarte Web Assessoria & Design - Todos os direitos reservados