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Lauro Soutello
As escadas do Paraíso sumiram. Restam apenas ruínas, apinhadas em fossa abissal, habitada por peixes sem olhos, que brilham no fundo das ânforas. Para o outro lugar não existem escadas, apenas a revolta e a dor, as etapas nunca vencidas, os sonhos traídos, a renúncia a tudo que importa, ao trabalho e amor. Sobre as velhas ruínas as pedras e os mares se calam. Se a morte é final, é inútil buscá-las. Se é mera passagem, é preciso decifrar o abismo, mas o mapa está dentro das ânforas, cercado por eterno silêncio.
Crônica
Urbana Saiu sem sequer abraçar a mulher e os gêmeos buscando outro trabalho emprego que aguarda o leitor na parte de trás do jornal. Tomou o metrô e desceu a uma estação da empresa achando que antes de ver o futuro patrão poderia tomar uma só com os amigos. Chegou para a janta e ficou sem falar nem tocar nos meninos cansados de tanto escutar a fala sempre embrulhada e as desculpas mofadas. Se amanhã não vier nunca mais (pensou ao guardar a garrafa) não precisa mais ir atrás. E o futuro sonhado na véspera acordou de ressaca outra vez. O ruído dos freios ressoa perto da esquina de casa e a frentista, chamada a depor, conta como o moço avançou sem ouvi-la gritar.
Amor
Básico O corpo se entrega entrega-se todo. A alma se cura se pode. O corpo se deixa levar pela sede to tato do beijo, sussurro, promessa súplica doce de noite sem prumo. O corpo sutil se transforma: a boca molda, amolece conforme a sua própria loucura cada curva e desejo. A alma se une ou se nega se ama ou se perde e se lembra.
Noturno Simplesmente uma caveira / rangendo na porta quebrada / entreaberta / amarrada ao poste do dia a vir / revelando / ao chegar da madrugada / o segredo e o suspiro e o espelho / por trás de outras portas.
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