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Casa de Chá do Luar de Outono - Literatura, Música, Arte
Livraria Luar de Outono

Nem agora posso ver minha vontade amada
de destituir-me dos inícios revividos

e esquecer o tempo e o espaço do discurso
como um gato que se apaga do caderno;

em ti espio teus ensaios
de silenciar os ossos removentes

e penetro tua testa onde se encrava
o sangue de arranhões das tentativas.

Nem agora posso ver minha leitura
e dela me afastar num salto único

sem ter donde fugir, isenta e clara.
Nem agora os verbos me consolam

e saltam como gatos desgarrados
por cima dessas pedras que me inscrevem.

d'après Jorge de Lima
Invenção de Orfeu I, XXlI

ACAT1.GIF - 5925 Bytes Os gatos jamais me dêem a sensação
à toa
de ter adormecido antes do perigo
onde há carne, e líquido, e suor lento

engolindo a vontade da Palavra.
Que culpa tenho deste sono que se origina
antes de mim,
na dúvida de saber que sorriso fez

os gatos de músculo me atentando
me querendo sem roupas e ao frio
dos telhados

escrevendo as coisas felinas confundidas
e seus pulos imitando sem desenho
“onde a loucura dorme inteira e sem lacunas”.

d’après Jorge de Lima
Invenção de Orfeu I, XXII