Trilha sonora ao fundo: piano no bordel,
vozes
barganhando uma informação difícil. Agora
silêncio; silêncio eletrônico, produzido no
sintetizador que antes construiu a ameaça das
asas batendo freneticamente.
Apuro técnico.
Os canais que só existem no mapa.
O aspecto moral da experiência.
Primeiro ato da imaginação.
Suborno no bordel.
Eu tenho uma idéia.
Eu não tenho a menor idéia.
Uma frase em cada linha. Um golpe de exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara às três
da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.
Billy the Kid versus Drácula.
Drácula versus Billy the Kid.
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental.
Pensa no seu amor de hoje que sempre dura
menos que o seu amor de ontem.
Gertrude: estas são idéias bem comuns.
Apresenta a jazz-band.
N5o, toca blues com ela.
Esta é a minha vida.
Atravessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.
Não presta atenção em mim.
Olha aqueles três barcos colados imóveis no meio
do grande rio.
*
Estamos em cima da hora.
Daydream.
Quem caça mais o olho um do outro?
Sou eu admito vitória.
Ela que mora conosco então nem se fala.
Caça, caça.
E faz passos pesados subindo a escada correndo.
Outra cena da minha vida.
Um amigo velho vive em táxis.
Dentro de um táxi é que ele me diz que quer
chorar mas não chora.
Não esqueço mais.
E a última, eu já te contei?
É assim.
Estamos parados.
Você lê sem parar, eu ouço uma canção.
Agora estamos em movimento.
Atravessando a grande ponte olhando o grande
rio e os três barcos colados imóveis no meio.
Você anda um pouco na frente.
Penso que sou mais nova do que sou.
Bem nova.
Estamos deitados.
Você acorda correndo.
Sonhei outra vez com a mesma coisa.
Estamos pensando.
Na mesma ordem de coisas.
Não, não na mesma ordem de coisas.
É domingo de manhã (não é dia útil às três da
tarde).
Quando a memória está útil.
Usa.
Agora é a sua vez.
Do you believe in love...?
Então está.
Não insisto mais.
*
O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, ah, tão presa! Esses mosquitos que
não largam! Minhas saudades ensurdecidas por
cigarras! O que faço aqui no campo declamando aos
metros versos longos e sentidos? Ah que estou
sentida e portuguesa, e agora não sou mais veja, não
sou mais severa e ríspida: agora sou profissional.
*
Segunda história rápida sobre a felicidade
descendo a colina ao escurecer meu amor ficou
longe, com seu ar de não ter dúvida, e dizia: meus
pais... não posso mais duvidar dos meus
passinhos, neste sítio você agora fala até mais
baixo, delicada que eu reparo mais que os outros
depois de um tempo fora é como voltar e achar as
crianças crescidas, e sentar na varanda para trocar
pensamentos e memórias de um tempo que passou
mas quando eu fui (aquele dia no aeroporto) ainda
havia ares de mistério agora, é agora, descendo
esta colina, sem nenhum, que eu conto então do
amor distante, e não imito a minha nostalgia, mas a
delicadeza, a sua, assim feliz.
*
SETE CHAVES
Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha
grande história passional, que guardei a sete chaves,
e meu coração bate incompassado entre gaufrettes.
Conta mais essa história, me aconselhas como um
marechal do ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo
fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher
moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que eu tiro versos, desta festa com
arbítrio silencioso e origem que não confesso
como quem apaga seus pecados de seda, seus três
monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.
*
INVERNO EUROPEU
Daqui é mais difícil: país estrangeiro, onde o creme
de leite é desconjunturado e a subjetividade se
parece com um roubo inicial. Recomendo
cautela;Não sou personagem do seu livro e nem
que você queira não me recorta no horizonte teórico
da década passada. Os militantes sensuais passam a
bola: depressão legitima ou charme diante das
mulheres inquietas que só elas? Manifesto: segura a
bola; eu de conviva não digo nada e indiscretíssima
descalço as luvas (no máximo), à direita de quem
entra.
*
NOITE CARIOCA
Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco
na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te
apresento a mulher mais discreta do mundo: essa
que não tem nenhum segredo.
*
MARFIM
A moça desceu os degraus com o robe
monogramado no peito: L.M. sobre o coração.
Vamos iniciar outra Correspondência, ela propõe.
Você já amou alguém verdadeiramente? Os limites
do romance realista. Os caminhos do conhecer. A
imitação da rosa. As aparências desenganam. Estou
desenganada. Não reconheço você, que é tão quieta,
nessa história. Liga amanhã outra vez sem falta.
Não posso interromper o trabalho agora. Gente
falando por todos os lados. Palavra que não mexe
mais no barril de pólvora plantado sobre a torre de
marfim.
*
MOCIDADE INDEPENDENTE
Pela primeira vez infringi a regra de ouro e voei pra
cima sem medir mais as conseqüências. Por que
recusamos ser proféticas? E que dialeto é esse para
a pequena audiência de serão? Voei pra cima: é
agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem
uma graça atravessando o Estado de São Paulo, de
madrugada, por você, e furiosa: é agora, nesta
contramão.
*
EXTERIOR. DIA. Trocando minha pura
indiscrição pela tua história bem datada. Meus
arroubos pela tua conjuntura. MAR, AZUL,
CAVERNAS, CAMPOS e TROVÕES. Me
encosto contra a mureta do bondinho e choro.
Pego um táxi que atravessa vários túneis da
cidade. Canto o motorista. Driblo a minha fé. Os
jornais não convocam para a guerra. Torça,
filho, torça, mesmo
longe, na distância de quem ama
e se sabe um traidor. Tome bitter no velho
pub da esquina, mas pensando em mim entre um
flash e outro de felicidade. Te amo estranha,
esquiva, com outras cenas mixadas ao sabor do
teu amor.
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