O DESCOBRIDOR (*)

Vem vindo o Abril, tão belo em sua
barca de ouro!
Vou contando os teus dedos:
um...dois...três...quatro...
Cinco!
Amor, eu quero navegar-te!...toda,
de norte a sul...Enquanto
Sentado à proa
Vestido de arlequim
Abril ponteia bem devagarinho
Com um dedo só - seu bandolim
azul.

Mário Quintana

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O Segredo (*)

Entre pernas guardas:
casa de água
e uma rajada de pássaros.


*


Nome (*)

Dar às coisas outro nome
que não o vosso, amor, não pude.
Nem pude ser mais doce e sim mais
rude
por conta das lamentações mais
ásperas
por causa do agravo que pensei
ser vosso.
Amor era o nome de tudo, estava
em tudo,
era o nome do macho cheirando a
esterco,
a frutos passados e a raízes raras.

De posse da intimidade da água
e da intimidade da terra,
a animais vorazes é a que sabíamos.

Amor é com quem me deito e deixo
montar
minhas coxas em forma de forquilha
e onde
amor abre caminho pelas minhas
águas.

Olga Savary

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Recém-casado (*)

É pelos corpos que nos perdemos
de nós mesmos, para nos ganharmos.
É pelos beijos que nos despedimos
para nos encontrarmos pelos olhos.
É pela pele que escaldamos
o que em nós havia de secreto:
e é o nosso corpo entregue um corpo
estranho
pois pertence só a quem amamos
por quem morosamente devassamos
o alheamento da carne -
o barqueiro, o pastor que a atravessa
num profundo arremesso vagaroso
levantando ondas, ondas, ondas e
ervas
a subir e descer vagas e montes
levando-me com ele à raia clara
onde água a quebrar-se eu me
constele
na sua barca, conduzida à praia.

Lélia Coelho Frota

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mademoiselle furta cor

Por esta fresta te espreito
Por esta fresta te desvendo
Por esta fresta
cravo
sonda contra esponja,
e babo
e te penetro
teso e reto, e por inteiro
o seu corpo se entreabre:
porta e perna, caixa e coxa.
Por esta fenda
tenda
de pele que se franze,
e rasga
eu me adentro
feito de espera e de esperma:
e espremo - te aperto - e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.
Por esta fresta me espreito
Por esta fenda me desvendo

Armando Freitas Filho

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Teu corpo seja brasa

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

Leila Mícollis


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targeta





Um Sorriso (*)

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas

quando
com meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui em baixo?
senão colher com a repentina
mão de delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

Ferreira Gullar

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Mar de Sargaços (*)

no seu maremoto de sargaços negros
na sua garganta minha caravela
começa de novo nos quintais vazios
a plantar canteiros no meio da noite
nos seus alagados e no fim de tudo
a cantar baladas de uma estranha lua
entre peixes mortos onde algum corsário
a tramar batalhas no seu mar profundo
recolhendo gritos nas suas entranhas
vaga submerso a beber escolhos
de outros naufrágios de cristais marinhos

no seu mar profundo no meio da noite
a beber escolhos de uma estranha lua
a tramar batalhas nas suas entranhas
onde algum corsário vaga submerso
a cantar baladas nos seus alagados
recolhendo gritos de outros naufrágios
na sua garganta de cristais marinhos
a plantar canteiros de sargaços negros
nos quintais vazios no seu maremoto
e no fim de tudo entre os peixes mortos
começa de novo minha caravela

Geraldo Carneiro

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(*)Pequena Antologia de Poemas Eróticos
Organização de Olga Savary
Editora Anima, 1984



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