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Livraria Luar de Outono


Yolanda Morazzo

BARCOS

                 "Nha terra e' quel piquinino
                   E' Sao Vicente e' que di meu"

Nas praias
Da minha infancia
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
E' para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...

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Literatura Portuguesa
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Mulheres na Literatura

Germano de Almeida


Memórias de guerra

Ocorreu-me há tempos investigar como a Segunda Guerra
Mundial tinha sido vivida na ilha da Boa Vista. A ideia não
parecia despropositada, tendo em conta que, assim ao correr
das estórias, embora sem nunca as ter aprofundado, conhecia
três ou quatro episódios que atestavam que, de alguma forma,
tínhamos participado no esforço daquele sangrento conflito. Sem
ir mais longe, havia por exemplo uma morna muito bonita mas
muito crítica, feita por anónimos autores da ilha, que não só
falava dos malefícios da guerra como inclusivamente
responsabilizava quase pessoalmente os alemães pelo começo e
terminava tomando posição clara sobre o assunto "Hitler ca ta
ganhâ guerra!"

Mas não era só isso Tínhamos também o nosso próprio Hitler,
um indivíduo de baptismo Balísio, nascido num dia do aniversário
do "Führer" e que conquistou essa alcunha devido à extrema
maldade que o caracterizou desde pequenino ainda criança de
peito, mordia cruelmente as mamas da mãe quando se sentia
saciado, e depois de mais crescido divertia-se a regar os ratos
com gasolina e jogar-lhes fogo, ou então a abrir o peito de
corvos vivos para lhes ver os corações palpitando. Depois da
tropa entrou para a polícia, onde ganhou o ódio de uma cidade
inteira, pela facilidade com que puxava do cacete.

Conheci o "Hitler" já nós rapazotes, embora ele fosse alguns
anos mais velho do que eu, magro que nem um cação, mas com
uma característica apreciável comia alarvemente, não havia
alimento capaz de lhe dar abasto. Certa vez que lhe apeteceu
ovos cozidos apostou com a malta em como era capaz de comer
50 seguidos se os comesse pagaríamos nós, de contrário pagaria
ele.

Comeu-os até ao último ovo. A princípio, rapidamente, depois
mais devagar, mas até acabar tudo, tudo. Cometeu foi a
imprudência de beber a seguir dois litros de água.

Vomitou desalmadamente durante três dias, num mafor de ovos
podres que não permitia a ninguém se aproximar dele.

Ora a existência não só de uma morna a respeito como até de
um Hitler ilheno devia querer dizer, se não que a guerra ali tinha
chegado, pelo menos que ela fora vivida com emoção, tanto mais
que, de tempos a tempos, vasos alemães fundeavam na baía de
Sal-Rei, onde ficavam por muitos dias, sem no entanto permitir
qualquer aproximação por parte das gentes da terra, antes
rechaçando com brutalidade as tentativas no sentido de os
visitar, embora eles se arrogassem o direito de desembarcar.

Por exemplo, contava-se a estória do Bento, que vendo uma
manhã uma canhoneira alemã fundeada ao largo decidiu entrar
em comércio com os de bordo. Assim foi ao recife mais próximo
e juntou um saco de larau de lapas e, de seguida, meteu-se num
bote rumo à canhoneira. Viram-no de longe e começaram a
fazer-lhe vigorosos sinais para não se aproximar, mas Bento tinha
nobres propósitos, qual fosse dar aos alemães a conhecer a
nossa famosa lapa, fresquinha, que tanto podia ser comida crua,
apenas temperada com vinagre, ou então fervida, ou então
grelhada, uma maravilha! Sem já falar no delicioso arroz de lapa,
que era quando ela atingia o seu supremo esplendor... De modo
que insistiu, indiferente aos gritos, e conseguiu acostar-se. Vinda
de cima, Bento continuava ouvindo aquela feroz algaraviada, mas
com as duas mãos cheias de lapa mostrava-lhes os seus honestos
propósitos, explicando com gestos preciosos como tirar a lapa
da concha com a própria unha e fazendo sinal para lhe baixarem
a escada de quebra-costa, para uma demonstração mais eficaz a
bordo. E já desesperado por não estar a fazer-se entender com
gestos tão claros, Bento resolveu imitar a algaraviada que tinha
estado a ouvir dos alemães e pondo as mãos em concha na boca
começou a gritar, repetindo dezenas de vezes "Alamata,
comprata lapita, se não quer comprata trocata pa bolachita!
Alamata, comprata lapita..."

Os alemães ripostaram no seu grasnar, Bento continuou naquilo
que achava ser a língua deles, concitando-os ao negócio. Por
fim, já desesperados daquela teimosia, os alemães atacaram-no
com batata podre e tomate estragado e toda a casta de lixo que
tiveram à mão e Bento chegou ao cais não só ofendido como
também muito confundido.

Esse perverso procedimento viria, aliás, a estar na origem de
uma feroz batalha de praia entre boavistenses e os alemães que
de tempos a tempos iam a terra para espairecer, desentorpecer
as pernas e comprar ovos e galinhas. Naquele tempo, a
rapaziada da vila treinava-se muito na arte de pegar queda, que
era uma espécie de luta de capoeira, e então resolveu vingar as
afrontas por que Bento tinha passado. Certo dia esperaram os
botes de borracha amarrados no cais e de seguida
desafiaram-nos para a luta. Não houve como recusar, mas
quando os alemães começaram a ver-se esparramados na areia
da praia, vítimas dos ganchos por dentro de que não sabiam
livrar-se, fugiram em debandada e a nado para o navio.

Foi a partir desses episódios que comecei sonhando com
material suficiente para um desenvolvido livro histórico, mas
acabei chegando à conclusão que a eles se resumiam as nossas
memórias da guerra.

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