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(1888-1923) |
Quando a querida Sra. Hay voltou à cidade, depois de ter passado uns dias com os Burnells, mandou para as crianças uma casa de boneca. Era tão grande, que o carroceiro e Pat carregaram-na para o quintal, e ali ficou, em cima de dois caixotes de madeira, junto da porta da despensa. Não havia perigo de se estragar – era verão. Além disso, o cheiro de tinta talvez tivesse passado, no momento de levá-la para dentro. Porque, é verdade, o cheiro de tinta que vinha daquela casa de boneca ("Muita gentileza de parte da velha Sra. Hay, muita gentileza e generosidade"), o cheiro de tinta era bem capaz de fazer alguém ficar seriamente doente, achava a tia Beryl. Até mesmo após ser desembalada. E ao ser...
Lá estava a casa de boneca, de um verde escuro, oleosa, espinafre, realçado com amarelo claro. Suas duas chaminezinhas, coladas no teto, eram pintadas de vermelho e branco, e a porta, brilhando com o seu verniz amarelo, parecia um caramelo. Quatro janelas, janelas de verdade, eram divididas em caixilhos en-vidraçados por uma larga lista verde. Havia, também, um pequeno pórtico pintado de amarelo, com grandes protuberâncias de tinta solidificada pendendo ao longo da sua beirada. Mas que casinha perfeita! Quem é que poderia incomo-dar-se com o cheiro? Fazia parte da alegria, da novidade.– Alguém abra logo!
O trinco, de um lado, estava fortemente fechado. Pat forçou-o com seu canivete, toda a fachada da casa girou para a frente e... Pronto! Todos olharam juntos, ao mesmo tempo, para a sala de visitas e a sala de jantar, a cozinha e os dois quartos. Aquilo sim que era maneira de se abrir uma casa! Por que todas não se abriam daquele jeito? Era muito mais emocionante do que espiar pela fresta de uma porta e ver um pequeno hall com uma chapeleira e dois guarda-chuvas! Era aquilo – não era? – que você gostaria de saber sobre uma casa ao levar a mão à maçaneta. Talvez fosse assim que, ao dar uma volta silenciosa com um anjo, Deus abrisse as casas, tarde da noite...
– Oooh!
A exclamação das filhas dos Burnells soou como se elas estivessem desesperadas. A casa era tão maravilhosa! Demais para elas! Nunca tinham visto nada igual na vida. Todos os cômodos, forrados com papel de parede! Havia quadros nas, paredes, pintados no papel, com molduras douradas e tudo. Um carpete vermelho cobria o assoalho inteiro, salvo o da cozinha. Cadeiras de feltro vermelho na sala de visitas, verde na sala de jantar. Mesas, camas com lençóis e colchas de verdade, um berço, um fogão, um aparador com pratinhos e um jarro grande. O que mais agradou a Kezia, porém, o que ela adorou, foi o lampião, no centro da mesa da sala de jantar. Um lindo lampiãozinho, cor de âmbar, com um globo branco. Já estava até cheio, prontinho, embora, é claro, não pudesse ser aceso. Mas havia dentro dele algo que parecia querosene e que, sedido, se mexia.
Papai e mamãe bonecos estavam encarrapachados, imóveis, como se houvessem desmaiado, na sala de jantar, e seus dois filhos, que dormiam no andar de cima, eram grandes demais para a casa de boneca. Pareciam não pertencer a ela. Mas o lampião era perfeito. Sorria para Kezia, dizendo "eu moro aqui". O lampião era de verdade.
Na manhã seguinte, indo para a escola, as filhas dos Burnells não conseguiam andar tão depressa quanto gostariam. Elas estavam loucas de vontade de contar para todo o mundo, de descrever, de... em suma, de gabar-se da casa de boneca delas antes que a campainha tocasse.
– Sou eu que vou contar – disse Isabel, – porque eu sou a mais velha. E vocês duas podem completar depois. Mas eu conto primeiro. Não havia o que contestar. Isabel era uma mandona, sempre tinha razão, e Lottie e Kezia conheciam muito bem os poderes que detinha por ser a mais velha. Elas passaram céleres no meio dos ranúnculos da beira da estrada e não disseram nada.
– E sou eu que vou escolher quem a vê primeiro. Mamãe disse que posso.
Tinha sido combinado que, enquanto a casa de boneca permanecesse no quintal, podiam convidar as meninas da escola, duas de cada vez, para virem vê-la. Não podiam ficar para o chá, é claro, nem perambular dentro de casa. Só ficar quietinhas, no quintal, enquanto Isabel mostrava as maravilhas dela, e Lottie e Kezia permaneciam olhando, deleitadas...
No entanto, embora se apressassem o mais que podiam, ao chegarem à cerca coberta de pixe do pátio dos meninos, o sinal tocou. Tiveram tempo apenas de tirar rapidamente os chapéus e entrar na fila antes do início da chamada. Azar. Isabel tentou compensar assumindo uns ares importantes e misteriosos, cochichando, com a mão escondendo a boca, para as meninas que estavam perto dela:
– Preciso contar uma coisa para vocês na hora do recreio.
Chegou a hora do recreio, e cercaram Isabel. As meninas da turma quase brigaram para passar os braços em torno dela, puxá-la à parte, sorrir bajuladoramente, ser a sua amiga especial. Ela concedeu uma verdadeira audiência debaixo dos gigantescos pinheiros, num canto do pátio. Acotovelando-se, dando risadinhas, as meninas comprimiam-se. As duas únicas que se mantinham fora do círculo eram as que sempre ficavam de fora, as Kelveys. Elas não fariam a besteira de chegar perto das Burnells.