O caso era que a escola em que as Burnells estavam não era absolutamente aquela que os pais teriam escolhido, se houvesse possibilidade de escolha. Mas não havia. Era a única escola num raio de várias milhas. Em conseqüência, as meninas do lugar – as filhas do juiz, do doutor, do dono do armazém, do leiteiro – eram obrigadas a misturar-se. Para não falar de igual número de meninos grosseiros, broncos. Mas a linha divisória tinha de ser traçada em algum ponto. Este ponto eram as Kelveys. Muitas crianças, inclusive as Burnells, estavam proibidas de falar com elas. Passavam pelas Kelveys de cabeça empinada, e, como elas davam o tom geral de comportamento, todo mundo evitava as Kelveys. Inclusive a professora tinha uma voz particular para elas e um sorriso significativo para as outras meninas, quando Lil Kelvey vinha até a sua mesa com um buquê de flores horrivelmente vulgares.
Eram filhas de uma lavadeirazinha despachada e trabalhadora, que batia de porta em porta todos os dias. Uma coisa horrível mesmo. E onde andava o Sr. Kelvey? Ninguém sabia, ao certo. Dizia-se que estava preso. De modo que elas eram filhas de uma lavadeira e de um presidiário. Otima companhia para as filhas dos outros! E tinham mesmo jeito disso! Era difícil entender porque a Sra. Kelvey fazia com que elas dessem tanto na vista assim. Na verdade, vestia-as com "pedaços" que lhe foram dados pelas pessoas para quem trabalhava. Lil, por exemplo, que era uma menina decidida, desembaraçada, sardenta, ia para a escola com um vestido feito de uma avental de sarja verde dos Burnells, com mangas de feltro vermelho feitas com as cortinas dos Logans. O chapéu dela, empoleirado no topo da sua testa alta, era um chapéu de mulher adulta, que pertenceu outrora a Miss Lecky, a gerente dos Correios. Era virado para cima na parte de trás e enfeitado com uma grande pena escarlate. Lil parecia um espantalho! Era impossível não rir dela. E a sua irmãzinha, nossa Else, usava um vestido branco comprido, uma espécie de camisola, e um par de botinas de menino. Mas, vestisse o que quisesse, nossa Else continuaria tendo um aspecto esquisito. Era uma menina magricela, de cabelos curtos e olhos enormes e solenes – uma corujinha branca. Ninguém nunca a tinha visto sorrir. Quase não falava. Vivia agarrada à irmã, sempre grudada num pedaço da saia de Lil. Onde a outra ia, nossa Else ia atrás. No pátio, na estrada a caminho da escola ou voltando para casa, lá vinha Lil na frente e nossa Else agarrada a ela atrás. Somente quando queria alguma coisa, ou estava cansada, nossa Else dava um puxão em Lil, e ela parava e virava para trás. As Kelveys sempre se entendiam.Agora elas rondavam por perto: ninguém poderia impedi-las de escutar. As meninas viraram-se e sorriram zombeteiramente para elas. Lil, como de costume, dava o seu sorriso abobalhado e envergonhado, e nossa Else limitava-se a ficar olhando.
A voz de Isabel, toda prosa, continuava contando. O carpete fez grande sensação, assim como as camas com lençóis e colchas de verdade, e o fogão, com a portinha do forno.
Quando terminou, Kezia interveio.
– Você se esqueceu do lampião, Isabel.
– Ah é! – disse Isabel. – Tem um lampiãozinho, todo de vidro amarelo com um globo branco, em cima da mesa da sala de jantar. Até parece de verdade.
– O lampião é o melhor de tudo! – exclamou Kezia.
Ela achava que Isabel não estava dando bastante importância ao lampiãozinho. Mas ninguém prestou atenção: Isabel escolhia as duas que iriam voltar para casa com elas, à tarde, para ver a casinha de boneca. Escolheu Emmie Cole e Lena Logan. Sabendo que teriam a sua vez, as outras se desmancharam em gentilezas para com Isabel. Uma a uma, punham o braço em volta da cintura dela e a puxavam à parte. Tinham uma coisa para contar, um segredo.
– Isabel é minha amiga.
Só as pequenas Kelveys se afastaram, esquecidas, sem mais nada para ouvir.
Passaram-se os dias, e quanto mais crianças viam a casa de boneca, mais se propagava a sua fama. Tornou-se o único tema, a coqueluche. A única pergunta que se ouvia era:– Viu a casa de boneca das Burnells? Não é uma graça?
– Você não viu? Ah, eu vi!
Até mesmo a hora do lanche era consagrada a se falar dela. As meninas sentavam-se debaixo dos pinheiros comendo seus grossos sanduíches de carneiro e enormes pedaços de bolo de fubá besuntados com manteiga. Como sempre, as Kelveys ficavam sentadas o mais perto que podiam, nossa Else agarrada a Lil, ouvindo também, enquanto mastigavam seus sanduíches de presunto, embrulhados num jornal empapado de vermelhas manchas de gordura.
– Mamãe – perguntou Kezia um dia, – posso convidar as Kelveys uma vez?
– Claro que não!
– Mas por quê?
– Não amole, Kezia. Você sabe muito bem porquê.
Finalmente, todas as meninas tinham visto, menos elas. Naquele dia, o tema esmoreceu. Hora do lanche. As meninas estavam juntas debaixo dos pinheiros e, de repente, ao olharem para as Kelveys comendo no jornal delas, sempre sozinhas, sem- pre ouvindo, sentiram vontade de serem malvadas. Emmie Cole deu início à implicância.– Lil Kelvey vai ser empregada doméstica quando crescer.
– Oooh, que horror! – fez Isabel Burnell, lançando um olhar cúmplice para Emmie.
Emmie engoliu o seu lanche com um ar cheio de subentendidos e balançou a cabeça para Isabel, como tinha visto sua mãe fazer naquelas ocasiões.
– E verdade... é verdade... é verdade – disse.
Os olhos de Lena Logan chamejaram.
– Vou perguntar a ela – sibilou.
– Melhor não – disse Jessie May.
– Ah, não tenho medo! – exclamou Lena.
De repente, ela soltou um gritinho agudo e pôs-se a dançar diante das coleguinhas.