– Olhem! Olhem para mim! Olhem só para mim! disse.E esgueirando-se, deslizando, arrastando o pé, ocultando o riso com a mão, Lena foi para cima das Kelveys. Lil ergueu os olhos do seu lanche. Embrulhou rapidamente o resto dele. Nossa Else parou de mastigar. O que ia acontecer?
– É verdade que você vai ser empregada doméstica quando crescer, Lil Kelvey? – perguntou Lena com uma voz estridente.
Silêncio profundo. Em vez de responder, Lil apenas deu um sorriso abobalhado, envergonhado. Ela fingia não ter ouvido a pergunta. Que decepção para Lena! As outras meninas caíram na gargalhada.Lena não podia aguentar aquela caçoada. Pôs as mãos nas cadeiras e exclamou arrogante, dando despeitadamente de ombros:
– Ahn, também o pai de vocês está na prisão.
Era tão formidável ter dito aquilo, que todas as meninas saíram correndo juntas, profunda, profundamente contentes, numa alegria selvagem. Uma delas encontrou uma corda comprida, e elas começaram a pular. Nunca pularam tão alto, entraram e saíram da corda tão depressa, nem fizeram coisas tão arrojadas como naquela manhã. A tarde, Pat veio buscar as Burnells com a charrete, e foram para casa. Tinham visitas, Isabel e Lottie, que adoravam visitas, subiram para trocar os aventais. Mas Kezia escapuliu para os fundos. Não havia ninguém por perto. Ela começou a balançar-se no portão branco do quintal. Pouco depois, olhando para a estrada, viu dois pequenos pontos. Eles foram crescendo, vinham em direção a ela. Agora podia ver que um estava na frente e o outro logo atrás. Agora podia ver que eram as Kelveys. Kezia parou de balançar. Pulou do portão e quase saiu correndo. E, então, hesitou. As Kelveys se aproximavam e, ao lado delas, caminhavam as suas sombras, compridíssimas, estendendo-se através da estrada, as cabeças nos ranúnculos.
Kezia tornou a trepar no portão. Tomou uma decisão. Balançou para fora.
– Oi! – fez para as Kelveys que passavam.
Elas ficaram tão atônitas, que até pararam. Lil deu o seu sorriso ababalhado. Nossa Elsa ficou olhando.
– Podem vir ver a nossa casa de boneca, se quiserem – disse Kezia, esfregando o dedo do pé no chão.
Lil corou e sacudiu vivamente a cabeça.
– Por quê não? – perguntou Kezia.
Lil respirou fundo, nervosamente.
- Sua mãe disse pra minha que era pra você não falar com a gente.
– Ahh – fez Kezia, sem saber o que replicar. – Não tem importância. Podem espiar, assim mesmo, a nossa casa de boneca. Venham. Não tem ninguém olhando.
Lil sacudiu a cabeça com maior veemência ainda.
– Vocês não querem? – perguntou Kezia.
De repente, deram um puxão na saia de Lil. Ela virou-se para trás. Nossa Else implorava com os olhos enormes, fazia cara feia – queria ver. Por um momento, Lil fitou a irmã com uma expressão de dúvida. Mas nossa Else puxou de novo a saia dela. Lil deu um passo adiante.
Kezia foi na frente. Feito dois gatos de rua, as duas a seguiram pelo quintal até onde estava a casa de boneca.
– Olhem! – mostrou Kezia.
Houve uma pausa. Lil respirava profundamente, quase bufando. Nossa Else estava silenciosa como uma pedra.
– Vou abrir pra vocês – disse Kezia gentilmente.
Abriu o trinco, e as meninas viram o interior da casa.
– Tem uma sala de visitas e uma sala de jantar. E isto é o...
– Kezia!
Ah, que pulo elas deram!
– Kezia!
Era a voz da tia Beryl. Elas se viraram. Da porta dos fundos, tia Beryl olhava como se não pudesse acreditar no que estava vendo.
– Você ousou convidar as Kelveys para virem até o quintal?! – exclamou a voz fria e furiosa. – Você sabe, tão bem quanto eu, que está proibida de falar com elas! Vão embora, meninas, vão já embora! E não voltem mais!
Tia Beryl foi até o quintal e enxotou-as, como se enxotasse galinhas.
– Fora, fora, imediatamente! – gritou, fria e arrogante.
Não foi preciso dizer-lhes aquilo duas vezes.
Ardendo de vergonha, apertando-se uma à outra, Lil arrastava a irmã, nossa aturdida Else, como se fosse sua mãe, atravessaram sem saber de que jeito o grande quintal e passaram comprimidas pelo portão branco.
– Menina travessa, desobediente! – tia Beryl disse a Kezia, azeda, e bateu violentamente a porta da casa de boneca.
A tarde havia sido terrível. Recebera uma carta de Willie Brent, uma carta tremenda, ameaçadora, dizendo que se ela não viesse encontrá-la naquela noite em Pulman’s Bush, ele viria até o portão e perguntaria por quê! Mas agora, que ela assustara aqueles ratinhos das Kelveys e dera uma boa bronca em Kezia, seu coração estava mais leve. Aquela pressão horrível cessara.
Retornou à casa cantarolando.
Quando as Kelveys ficaram bem longe da vista dos Burnells, sentaram-se para descansar um pouco numa grande manilha vermelha à beira da estrada. As bochechas de Lil ainda estavam ardendo. Ela tirou o chapéu com a pena e colocou-o sobre os joelhos. As duas olharam sonhadoras, por cima do campo de feno, além do remanso do ribeirão, para a cerca de madeira do curral, onde as vacas dos Logans esperavam para serem ordenhadas. Em que as Kelveys estariam pensando?
Agora, nossa Else apertou-se mais à irmã. Já tinha se esquecido daquela mulher furiosa. Estendeu um dedinho, afagou a pena do chapéu e sorriu o seu sorriso raro.
- Eu vi o lampiãozinho – disse ela mansamente.
Daí, ambas tornaram a ficar em silêncio.
Tradução de Edla Van Steen e Eduardo Brandão