(...)fui
preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e,
por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher
de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança.
Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma
missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e
eu tivesse desertado.
Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande
esperança. Mas eu, eu não me perdôo. (A descoberta do mundo)
Em uma ponta da vida, a memória da culpa na
infância, pela constatação inclemente da impotência frente ao destino. Na outra ponta
do fio, enredada no último romance publicado em vida (A hora da estrela, de
1977), a confissão culpada e culposa do ofício pouco útil para salvar da fome e do
esquecimento vagos heróis anônimos cujo direito ao grito exige imediata transferência
para garganta mais potente...
Rodrigo S. M. ("na verdade Clarice Lispector")
narrador e alter ego posto em cena para narrar a
errância, na grande e maravilhosa cidade, de uma nordestina de corpo cariado que só
comia cachorro-quente parece ter como função primeira a inscrição
testamentária de um sentimento não apenas confesso e lamentado, mas de uma culpa
dramatizada como marca (ou nódoa) da escrita, através da qual se vê assumida e
problematizada a relação do escritor com a sociedade em que, lamentável e
miseravelmente, proliferam olímpicos e macabéias...
Réu confesso, Rodrigo (ou Clarice) pôe em xeque a máxima "palavra é ação"
ao ref letir sobre o alcance social do fazer artístico num estado de coisas em que o
excesso de bolo para poucos impede muitos de comerem o pão (com ou sem salsicha). Quando
poética, a palavra reveste-se do belo, diferenciada da crua realidade; e vira mercadoria,
a ser consumida pelo mercado que, incansável e impiedosamente, se nutre do espírito (ou
da matéria) do progresso...
Assim, na primeira metade do romance de 77, o
narrador vacilará entre o dever de gritar ao mundo o drama de Macabéa, a garantia de sua
própria auto-defesa, a dura constatação da mercantilização de sua obra e de sua alma
e a culpa por sua alienada tarefa de escritor, ofício excluído efetivamente da real luta
de classes: (..) sou um homem que tem mais dinheiro do que os que passam fome, o que
faz de mim de algum modo um desonesto. (..) Sim, não tenho classe social marginalizado
que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de que
eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.
O narrador de A hora da estrela
sente-se culpado por se ver afastado do homem comum, ao perceber que uma real
identificação com sua personagem e com os que ela representa é fato
negado pela experiência, mito cuja inviabilidade prática mostra-se na incapacidade que
ele carrega de por ela sentir compaixão, no sentido primeiro do sofrer-com, atingindo, no
máximo, os limites da piedade ainda assim recusada porque culpada e culposa... |
|
Vê Macabéa, mas não a alcança; seu fracasso o atormenta e atrasa
seu relato. Redimensionando o significado da produção literária na modernidade, Clarice
Lispector assume uma ética fatalista mas não trágica , na qual afloram,
por um lado, um profundo tédio e uma agressividade contra si mesma, mas, por outro, um
real sentimento de compaixão pelo homem, seu igual, independentemente de quaisquer
barreiras de credo ou fronteiras de classe. Se o tédio, a insatisfação e a impaciência
de Clarice (na verdade Rodrigo?) nas páginas finais do livro deixam entrever indícios de
uma escritura assumidamente fracassada, reafirmam também pela insistente
permanência a esperança no potencial oculto nas entrelinhas, legítimo ambiente
de trabalho e campo de luta da escritora...
A certeza de que dou para o mal
Nascida na Ucrânia e brasileira por opção,
Clarice Lispector morou alguns anos em Recife, estudando em colégio judaico, assimilando
na escola e com a família preceitos inerentes a toda formação religiosa.
Desde cedo, como mostra a pungente confissão que abre este ensaio, conheceu o sentimento
de culpa irremissível, desenvolvendo na maturidade a consciência da impossibilidade de
redenção do homem pela via dos artificiosos paraísos espirituais futuros e das
engenhosas
fontes de consolação. Por outro lado, ainda menina, contacta a crueldade, o sadismo e a
potência da perversidade que residem no humano, como se pode constatar com a leitura do
conto Felicidade clandestina, no qual é apresentada a vizinha recifense,
graças a quem a autora pôde descobrir prematuramente em si mesma o
pendor à inveja e a capacidade de odiar. No Grupo Escolar João Barbalho, na Rua Formosa,
em Pernambuco, a adolescente Lispector sente o pavor das grandes punições,
inevitavelmente a ela destinadas, por saber que, afinal, só teme quem deve: (...)
eu era a culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal.
Anos depois, Clarice lerá Dostoiévski (Crime e castigo), atraída pelo título
de seu livro mais consagrado, e atingirá um êxtase febril ao ler o relato do crime
cometido pelo protagonista do romance O lobo da estepe, de Herman Hesse. Forma-se
em Direito, sonhando poder reformar o sistema penitenciário do país, estudando
sistematicamente a legislação referente a delitos e punições. Ainda na faculdade,
publicará na revista do corpo discente (A Época) um artigo intitulado
Observações sobre o fundamento do direito de punir, talvez ingênuo do ponto
de vista jurídico, mas já antecipando algumas concepções de justiça que permeariam
seus escritos ficcionais no futuro.
Não lhe sendo destinado o consolo da punição previsto pela crença
religiosa institucionalizada, Clarice sente-se culpada com freqüência: imputa-se tal
condição em relação às empregadas, as quais julga explorar; acusa-se pelo amor
torto que oferece aos filhos; pune-se por estar se traindo ao fazer da escritura um
ofício, escrevendo em
jornais para ganhar dinheiro... Até mesmo a função de escritora acaba questionada por
ela nos termos da simplória divisão a que os séculos obrigaram entre bem e
mal: por vezes, escrever é uma maldição; outras, é um divinizador do
ser humano.
 |