Obras de e sobre Clarice Lispector

Reflexões sobre o mal, a culpa, o crime e o castigo espalham-se por suas crônicas, contos e romances, como alguns de seus temas mais recorrentes. Até mesmo nos livros infantis: ora personifica seu cão Ulisses, atribuindo-lhe o posto de narrador da estória, para tratar de direitos e discutir as idéias de sacrifício e perdão; ora questiona o sentimento de gostar, que não impede a tentação de devorar e destruir; ou, ainda, antecipando o narrador Rodrigo, expõe-se em primeira pessoa para confessar a culpa pelo assassinato de peixes e para pedir perdão a seus leitores... Em contrapartida, matará, com astúcia de feiticeira, muitas baratas, em multiplicadas estórias. Nas narrativas de A via crucis do corpo, sexo e morte são aproximados, gerando crimes inverossimilmente perdoados pela justiça oficial. Já em “Mineirinho” (que está em Para não esquecer – da editora Siciliano – e que é um dos textos preferidos de Lispector, segundo seu depoimento à TV Cultura), a “vontade de matar” e a “prepotência” dos policiais deixam-na em estado de cólera e choque, maldizendo-se por ter que depender da segurança garantida pela mesma lei que tira, com treze tristes tiros, a vida do bandido devoto de São Jorge e que tinha uma namorada... E multiplicam-se indefinidamente os desdobramentos da temática do mal na produção da autora, sempre retomados mas revistas, matizados por novas perspectivas, numa espécie de exercício de escalas que impede reducionismos forçados e generalizações fáceis mas falseadoras.

Perto do coração selvagem (1943), seu romance de estréia, traz a protagonista (Joana) dotada de uma força interna reconhecida por ela e pelos que a cercam como maligna, embora o mal, no seu caso, seja antes disposição que ato, mais potência que realização. O uso da liberdade e do livre-arbítrio aparece questionado por Clarice como possibilidade comportamentallno plano da vida e da arte e a potencialidade maligna, dirigida para o fazer artístico, confere-lhe também uma dimensão transgressora: somente a imaginação “tem a força do mal”, pois – para Joana e para Clarice – criar é transgredir, é possibilidade e meio de ruptura com o estabelecido. Em O lustre (de 46), os protagonistas Virgínia e Daniel experienciam o mal, ora como agentes (beneficiários), ora como vítimas. Nas brincadeiras de infância entre os dois irmãos, o menino exercita sua maldade com jogos perversos que denunciam o abuso do poder de que se sabe possuidor. Virgínia é o instrumento de obtenção daquele prazer que no romance anterior parecia poder levar ao êxtase a jovem Joana: a fascinação pelo mal, o prazer advindo da percepção – e, neste caso, do uso – da inerente maldade humana. Para o menino, o mal metamorfoseia-se em perversidade, exige relação, necessita de um outro para se completar: pratica o mal pelo mal, convertendo-se o meio em fim. Até mesmo no romance seguinte (A cidade sitiada, de 49), cujos personagens são mais corpos que consciência, mais objetos que sujeitos, o mal aparece e se faz presente, figurativizado nos cavalos rebeldes do Morro do Pasto, nos sonhos e nas coisas do mundo, tornadas imagens especulares de uma intimidade exposta, trazida à superfície. Antes mesmo de reconhecer em si o mal, a protagonista Lucrécia o vê; vivencia-o como exterioridade. Este mal, que passará a ser dela é, antes disso, olhado por ela, visto como coisa. Em seu contato direto com o mundo – seu avesso –, depara-se com o mal, nele cai e dele se utiliza. As experimentações formais da ficção de Clarice (na verdade, exigente necessidade advinda da consciência dramática da insuficiência dos meios de expressão para comunicar a experiência) não poucas vezes a aproximaram do ensaísmo filosófico e dos registros da poesia.

Como obra transgressora, faz uso peculiar das regras gramaticais, na busca de novos recursos expressivos, efetuando, ainda, a reversão paródica de clichês lingüíticos e a denúncia do desgaste dos clichês morais do senso comum: as rupturas com a gramática normativa em perfeita conivência com as concepções éticas e estéticas da ficcionista. A pesquisa estética apresenta-se como saída contestatória (opondo-se ao fazer artístico que seja mera reprodução dos mecanismos e meios de reprodução) e luta pela criação. O conflito dentro dos signos e a crise dos gêne-ros, tematizados pela ficcionista, refletem uma posição de não-aceitação, de contundente oposição. Em Agua viva (de 73), por exemplo, Lispector leva a extremos a insurreição formal e a desestruturação da forma romanesca, criando um gênero híbrido, marcado pela fluidez, pela aparência inacabada e inconclusa, produto da liberdade, de um certo estado de embriaguez produtiva que rompe limites sintáticos e fronteiras normativas. Obra de iluminação profana (a expressão remete a Walter Benjamin), extática mas nunca estática, fruto da mobilização de energias da embriaguez, é ato revolucionário de escrita, verdadeira convulsão da linguagem. A palavra em Clarice assume estatuto demoníaco, transgressor, sendo antes destrutiva que edificante, no sentido em que é fluxo e energia, força errática, negação à atitude servil e disciplinada. Ao tentar captar o “instante-já”, quer romper o interdito, e comete um crime, buscando a impossível fixação do incorpóreo, tentando petrificar o tempo que escorre, monumentalizando instantes, prolongando indefinidamente o presente... E mais: intenciona fixar na materialidade da palavra o abstrato da vida e o íluir do tempo! Assim, o texto de Clarice Lispector aproxima-se do não-texto, do não-livro, pairando sempre a ameaça do silêncio.

As últimas “pulsações” de Clarice foram publicadas postumamente em seu Um sopro de vida (1978), escritas em estado agônico, de beira- morte, espécie de beijo inútil, visto que dado em rosto já morto... Produto e produtor de um mundo cindido, o sujeito-Autor, paradoxalmente, constrói ruínas, estilhaços de texto que remetem a uma totalidade perdida. A melancolia aparece, simultaneamente, como causa e conseqüência do processo produtivo de uma consciência destroçada, já que rompida está a noção de sujeito como unidade indivisível. O título do livro, de configuração ambígua, antecipa os impulsos contraditórios que ecoam por todo o corpo de Um sopro de vida: o último sopro é resquício de vida, índice de resistência e do desejo de permanência, mas também prenúncio do fim, cartão de visitas da indesejável das gentes... Clarice Lispector, consciente da proximidade da morte, parece não negar sua chegada, contudo escreve, prolongando no tempo o sopro vital. A desagregação formal e o desejo suicida da personagem Angela Pralini acabam sendo um impulso comum: o da atração pelo nada. Assim, no seu sopro de vida, Clarice deixa-nos amargo testamento, difícil carga, saco pesado, legado intransferível de nossa negativa e miserável condição: Não – para falar sinceramente – não permita que o mundo exista depois de minha morte. Dou remorsos a quem eu deixar vivo e vendo televisão, remorsos porque a humanidade e o estado de homem são culpados sem remissão de minha morte.

E, parodiando Clarice, concluímos: o que ela escreveu continua e estamos enfeitiçados...

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Gilberto Figueiredo Martins é mestre com a dissertação As vigas de um heroísmo vago (Tres estudos sobre "A maçã no escuro"), doutorando em literatura brasileira na USP e coordenador de língua portuguesa do Instituto Qualidade no Ensino (Câmara Americana de Comércio)

(Em: Revista Cult n.5 dez/97)

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