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Mal-estar de um anjo
E eis que nas águas vejo um táxi. Avançava cuidadosamente, quase centímetro por centímetro, tateando o chão com as rodas. Como é que eu me apoderaria daquele táxi? Aproximei-me. Não podia me dar ao luxo de pedir, lembrei-me de todas as vezes em que, por ter tido a doçura de pedir, não me deram. Contendo o desespero, o que sempre me dá uma aparência de força, disse ao chofer: "o senhor vai me levar para casa! é de noite! tenho filhos pequenos que devem estar assustados com minha demora, é de noite, ouviu?!" Para minha grande surpresa, vai o homem e simplesmente diz que sim. Ainda sem entender, entrei. O carro mal se movia nas ondas lamacentas, mas movia-se - e chegaria. Eu só pensava: eu não valho tanto. Daí a pouco já estava pensando: e eu que não sabia que valia tanto. E daí a pouco era a dona-de-casa de meu táxi, já tomara posse de direito do que gratuitamente me fora dado, e energicamente tomava medidas úteis: torcia cabelos e roupas, tirava os sapatos amolecidos, enxugava o rosto que mais parecia ter chorado. A verdade, sem pudor, é que eu tinha chorado. Muito pouco, e misturando motivos, mas chorado. Depois de arrumar minha casa, encostei-me bem confortável no que era meu, e de minha Arca assisti ao mundo acabar-se. Uma senhora aproximou-se então do carro. Devagar como este avançava, ela pôde acompanhá-lo agarrada em aflição ao trinco da porta. E literalmente me implorava para compartilhar do táxi. Era tarde demais para mim, e seu itinerário me desviaria de meu caminho. Lembrei-me, porém, de meu desespero de havia cinco minutos, e resolvi que ela não teria o mesmo. Quando eu lhe disse que sim, seu tom de imploração imediatamente cessou, substituído por uma voz extremamente prática: "É, mas espere um pouco, vou até aquela transversal buscar na casa da costureira o embrulho do vestido que deixei lá para não molhar". "Estará ela se aproveitando de mim?", indaguei-me na velha dúvida se devo ou não deixar que se aproveitem de mim. Terminei cedendo. Ela demorou à vontade. E voltou com um enorme embrulho pousado nas mãos estendidas, como se até seu próprio corpo pudesse macular o vestido. Instalou-se totalmente, o que me deixou tímida na minha própria casa. E começou o meu calvário de anjo
- pois a mulher, com sua voz autoritária, já tinha começado
a me chamar de anjo. Não poderia ser menos comovente o seu caso:
aquela era a noite de uma première e, se não fosse eu, o
vestido se estragaria na chuva ou ela se atrasaria e perderia a première.
Eu já tivera as minhas premières, e nem as minhas me haviam
comovido. "A senhora não sabe o milagre que me aconteceu",
contou-me com firmeza. "Comecei a rezar na rua, a rezar ara que Deus
me mandasse um anjo que me salvasse, fiz promessa de não comer
quase nada amanhã. E Deus me mandou a senhora." Constrangida,
remexi-me no banco. Eu era um anjo destinado a proteger premières?
a ironia divina me encabulava. Mas a senhora, com toda a força
de sua fé prática, e tratava-se de mulher forte, continuava
impositivamente a reconhecer o anjo em mim, o que só pouquíssimas
pessoas até hoje reconheceram, e sempre com a maior discrição.
Tentei sem jeito a leveza de um sarcasmo: "Não me supervalorize,
sou apenas um meio de transporte". Enquanto que a ela nem sequer
ocorreu compreender-me, eu a contragosto percebia que o argumento na verdade
não me isentava: anjos também são meios de transporte.
Intimidada, calei-me. Fico muito impressionada com quem grita comigo:
a mulher não gritava, mas claramente mandava em mim. Impossibilitada
de confrontá-la, refugiei-me num doce cinismo: aquela senhora,
que tratava com tanto vigor do próprio êxtase, devia ser
mulher habituada a comprar com dinheiro, e na certa terminaria por agradecer
ao anjo com um cheque, também levando em conta que a chuva já
devia ter lavado toda a minha distinção. Com um pouco mais
de confortável cinismo, em silêncio, declarei-lhe que dinheiro
seria um meio tão legítimo como qualquer outro de agradecer,
já que a moeda dela era mesmo moeda. Ou então - diverti-me
eu - bem poderia dar-me em agradecimento o vestido da première,
pois o que ela realmente deveria agradecer não era ter um vestido
seco, e sim ter sido atingida pela graça, isto é, por mim.
Dentro de um cinismo cada vez melhor, pensei: "Cada um tem o anjo
que merece, veja que anjo lhe coube: estou cobiçando por pura curiosidade
um vestido que nem sequer vi. Agora quero ver como é que sua alma
vai se arrumar com a idéia de um anjo interessado em roupas".
Parece-me que, no meu orgulho, eu não queria ter sido escolhida
para servir de anjo à tolice ardente de uma senhora. A verdade é que ser anjo estava começando
a me pesar. Conheço bem esse processo do mundo: chamam-me de bondosa,
e pelo menos durante algum tempo fico atrapalhada para ser ruim. Comecei
também a compreender como os anjos se chateiam: eles servem a tudo.
Isso nunca me ocorrera. A menos que eu fosse um anjo muito embaixo na
escala dos anjos. Quem sabe, até, eu era só aprendiz de
anjo. A alegria satisfeitona daquela senhora começava a me deixar
sombria: ela fizera uso exorbitante de mim. Fizera de minha natureza indecisa
uma profissão definida, transformara minha espontaneidade em dever,
acorrentava-me, a mim, que era anjo, o que a essa altura eu já
não podia mais negar, mas anjo livre. Quem sabe, porém,
eu só fora mandada ao mundo para aquele instante de utilidade.
Era isso, pois, o que eu valia. No táxi, eu não era um anjo
decaído: era um anjo que caía em si. Caí em mim e
fechei a cara. Um pouco mais e teria dito àquela de quem eu era
com tanta revolta o anjo da guarda: faça o obséquio de descer
já e imediatamente deste táxi! Mas fiquei calada, agüentando
o peso de minhas asas cada vez mais contritas pelo seu enorme embrulho.
Ela, a minha protegida, continuava a falar bem de mim, ou melhor, de minha
função. Emburrei. A senhora sentiu e calou-se um pouco desarvorada.
Já na altura de Viveiros de Castro a hostilidade se declarara muda
entre nós. - Escute, disse-lhe eu de repente, pois minha espontaneidade
é faca de dois gumes também para os outros, o táxi
vai antes me deixar em casa e depois é que segue com a senhora. - Mas, disse ela surpreendida e em começo
de indignação, depois vou ter que dar uma volta enorme e
vou me atrasar! é só um pequeno desvio para me deixar em
casa! - Pois é, respondi seca. Mas não
posso entrar pelo desvio. - Eu pago tudo! insultou-me ela com a mesma moeda
com que teria se lembrado de me agradecer. - Eu é que pago tudo, insultei-a. Ao saltar do táxi, assim como quem não quer nada, tive o cuidado de esquecer no banco as minhas asas dobradas. Saltei com a profunda falta de educação que me tem salvo de abismos angelicais. Livre de asas, com a grande rabanada de uma cauda invisível e com a altivez que só tenho quando pára de chover, atravessei como uma rainha os largos umbrais do Edifício Visconde de Pelotas.
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