BOBOK
Dostoiévski
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Desta vez vou folhear o "camet" de outra pessoa. Já não se trata de mim, em absoluto; trata-se de alguém de quem não sou de modo algum solidário, parecendo-me inútil prefácio mais longo. "Carnet" da pessoa Disse-me anteontem Semion Ardalionovitch: - Ivan Ivanitch, nunca te embriagas? Pergunta singular que, apesar de tudo, não me ofendeu. Sou homem calmo, que certas pessoas querem fazer passar por louco. Há pouco um pintor quis fazer-me o retrato. Consenti em posar e admitiram a tela na Exposição. Alguns dias depois li em um jornal que se referia a este retrato: "Vão ver o rosto doentio e convulso que parece de candidato à loucura..." Não me zanguei. Não valho bastante como literato para ficar louco por excesso de talento. Escrevi uma novela curta que não quiseram publicar. Escrevi um folhetim e repeliram-me. Levei-o a muitos diretores de jornais e em parte alguma quiseram aceitá-lo. - Falta sal no que escreve, disseram-me. - Que espécie de sal? perguntei um tanto ironicamente. - Sal ático? Não me compreenderam. Então, freqüentemente, tra- duzo livros fanceses para nossos editores, redigindo também anúncios para negociantes. Atenção, compradores! Procurem este artigo raro: o chá vermelho das plantações de... Recebi quantia importante pelo panegírico do falecido Piotr Matveievitch. Redigi A Arte de Agradar as Damas, de que me encarregou um editor. Fabriquei durante a vida cerca de 60 livros desse gênero. Tenho a intenção de organizar uma coleção das frases sutis de Voltaire, mas estou com receio que pareçam um tanto insípidas em nosso meio. Aí está toda a minha vida de escritor. Ah! Esqueci-me de dizer que enviei mais de quarenta cartas a diversos jornais e revistas, com a intenção de reformar o gosto literário do país, gastando desse modo não sei quantos rublos em selos do correio. |
Creio que o pintor fez o meu retrato não tanto devido à minha reputação literária, mas para pintar algo bastante raro: tenho duas manchas dispostas simetricamente sobre a testa. Desse ponto de vista sou um fenômeno e como os nossos pintores atuais não têm idéias, procuram as singularidades. E como triunfam as minhas manchas no retrato! Vivem: dir-se-iam que estão falando. É a isso que atualmente chamam de realismo! Quanto ao que diz respeito à loucura, creio que obedeceram a moda do ano passado. Na ocasião era de bom gosto que todos os escritores parecessem loucos. Só se viam nos jamais frases como estas: "Fulano tem muito talento; infelizmente, essa espécie de talento conduzi-lo-á, que dizemos, conduziu-o à loucura." Seja como for, ontem veio visitar-me um amigo e assim me falou: "Sabes que teu estilo está mudando? Estás obscuro, complicado!" O amigo tem razão. E não vejo mudar somente o estilo, mas o meu talento também se modifica. Dói-me a cabeça e começo a ver formas estranhas, a ouvir sons esquisitos. Não são palavras o que falam. Pronunciam tão-só uma inflexão de voz; é como se alguém, colocado por trás de mim, repetisse freqüentemente: "Bobok! bobok! bobok!" Que diabo poderá ser bobok? Para distrair-me fui a um enterro. Um parente longínquo, conselheiro privado... Vi a viúva e as cinco filhas, todas solteironas; cinco moças... Deve ficar caro, principalmente em sapatos! O defunto tinha um bom ordenado mas a viúva terá de contentar-se com uma pensão. Não me recebiam lá muito bem nessa família. Não importa! Acompanhei o cortejo até o cemitério. Afastavam-se de mim; sem dúvida alguma, meus trajes lhes pareciam pouco elegantes. Na verdade, faziam pelo menos vinte e cinco anos que não punha os pés em um cemitério: são lugares desagradáveis. A princípio, nota-se um cheiro!... Naquele dia tinham levado ao cemitério uns quinze mortos. Houve enterros de todas as classes; tive mesmo de admirar dois formosos carros: um conduzia um general, o outro uma senhora qualquer. Vi muitos rostos tristes, outros que fingiam tristeza e, principalmente, grande quantidade de caras francamente alegres. O dia devia ter sido bom para o clero. Mas o cheiro... Oh, o cheiro!... Não gostaria de ser sacerdote com exercício naquele cemitério. Contemplei o rosto dos mortos sem me aproximar demasiadamente. |
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