| Desconfiava da
minha impressionabilidade. Havia caras bonachonas, outras muito desagradáveis.
Freqüentemente os defuntos têm sorriso nada bom; não me agrada contemplar esses gestos.
Volta-se a vê-los em sonhos.
Durante a cerimônia fúnebre, saí por alguns instantes; o dia estava cinzento; fazia frio, pois estávamos já em outubro; andei ao acaso entre os túmulos. Existem de diversos estilos, de categorias distintas; a terceira custa trinta rublos. É decente e nada caro. Os das duas primeiras classes se acham ou na igreja, ou no átrio. Mas custam uma loucura. Nos de terceira categoria enterraram naquele dia seis pessoas, entre elas o general e a dama. Fui ver as sepulturas: era horrível. Dentro havia água esverdeada. Depois ainda saí mais uma vez durante a cerimônia. Es- tive fora do cemitério; muito perto havia um hospício e quase ao lado um restaurante. Este não era mau; pode-se comer sem ser envenenado. Encontrei na sala muitas pessoas que tinham acompanhado os enterros; reinava aí dentro alegria formosa, animação divertida. Sentei-me, comi e bebi. Voltei depois a ocupar o meu lugar na igreja e, mais tarde, ajudei a levar o caixão até a sepultura. Por que os mortos ficam tão pesados dentro do caixão? Dizem que é devido à inércia dos cadáveres; ainda se conta uma porção de bobagens com relação a esta força. Não assisti ao banquete fúnebre: sou orgulhoso. Se não me recebem senão quando não podem deixar de fazê-lo, não experimentei necessidade alguma em sentar-me à mesa. Mas perguntei a mim mesmo por que me deixei ficar no cemitério. Sentei-me sobre uma lápide e pus-me a sonhar, - como se costuma fazer nesses lugares. Apesar de tudo, logo o meu pensamento se desviou. Fiz algumas reflexões sobre a Exposição de Moscou e depois dissertei (comigo mesmo) sobre o Assombro. E aqui está a minha conlusão: assustar-se de tudo é, certamente, grande tolice. Mas é mais idiota ainda não se assustar com coisa alguma. É quase não fazer caso de nada, e o que caracteriza a imbecilidade é exatamente isso. - Tenho a mania de interessar-me por tudo - disse-me um dia um dos meus amigos. Meu Deus! Tem a mania de interessar-se por tudo. Que diriam de mim, se escrevesse isso em um dos meus artigos? Esqueci-me um pouco ali, no cemitério; não que tenha gosto em ler as inscrições nas lápides; é sempre o mesmo... Sobre uma pedra funerária encontrei um lencinho, em que tinham mordido. Puxei-o. |
Oh, não era
pão, era um lencinho... Além disso, tirar o pão será pecado mortal ou venial? Terei
que consultar o Anuário de Souverine.
Creio que estive sentado durante muito tempo; tanto tempo que acho que acabei deitando-me sobre a grande lápide de um sepulcro... Então, não sei como começou, mas com toda certeza ouvi ruídos. A princípio não liguei importância; mas dentro em pouco os ruídos transformaram-se em conversa, conversa sustentada por vozes surdas, como se cada um dos interlocutores tivesse tapado a boca com um travesseiro. Levantei-me e pus-me a escutar atentamente. - Excelência, dizia uma das vozes, é absolutamente impossível. O snr. tirou o dez do trunfo, eu tenho o rei e agora o snr. anuncia os quarenta. É uma bandalheira. - Mas se não houver bandalheira, onde estará o interesse do jogo? - Não se pode jogar sem garantias, Excelência. Isso é de levantar um morto. - Ah! um morto! Aqui não há nada disso. Palavras singulares, verdadeiramente estranhas e ines- peradas! Mas não há a menor dúvida: as vozes saíam das sepulturas. Inclinei-me e li sobre a lápide de uma das sepulturas esta inscrição: "Aqui jaz o corpo do general Pervoledov, cavaleiro de tais e tais ordens. Morreu em agosto... 57. Descansai, cinzas queridas, até o glorioso dia..." Sobre a outra não havia inscrição alguma. Com certeza era sepultura de morador recente do cemitério. Provavelmente ainda não tinham redigido a inscrição ao gosto da família. Apesar disso, por mais indistinta que fosse a voz do morto, pensava, pois sou perspicaz, devia ser um conselheiro da Corte. - Oh! ah! ah! - ouvi ainda. Dessa vez tinha certeza que a voz saía a menos de cinco metros de distância da sepultura do general. Olhei em dire- ção ao ponto donde saía. Percebia-se que o enterramento tinha sido recente. A julgar pela rudeza devia ser de pessoa do povo. - Oh! oh! oh! E assim se repetiu várias vezes. De repente rebentou a voz clara, altiva e desprezadora de uma mulher, evidentemente de alta classe: - Como é irritante ter de ficar aninhada ao lado desse mascate! - Então por que cargas d'água veio meter-se aqui? replicou o outro. |
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