- Foi contra a vontade que me meteram aqui... Foi meu marido... Oh! horríveis surpresas da morte! Eu que não seria capaz de ter-me aproximado de você por todo o ouro do mundo, ver-me aqui ao seu lado porque não puderam pagar mais do que o preço da "terceira categoria"!

- Ah! Agora lhe reconheço a voz. Na caixinha que ti- nha em cima da mesa estava uma boa conta que não me pagou.

- É um pouco exagerado e bastante idiota vir reclamar aqui o pagamento de uma conta. Volte lá para cima e queixe- se à minha sobrinha: é minha herdeira.

- Mas agora, por onde sair? Estamos os dois agora bem acabados, mortos ambos no pecado, iguais até o juízo final.

- Iguais do ponto de vista dos pecados; mas não de outra maneira qualquer - respondeu desdenhosamente a mulher. - E não procure conversar comigo, porque não o admitirei.

- Oh! ah! oh! gritou novamente a voz rude.

De qualquer maneira, o mascate obedeceu à mulher.

- Ah! disse o "conselheiro". - E obedece assim?

- E por que - disse o general - não haveria de obe- decer?

- Mas ignora talvez Vossa Excelência que aqui não é como no mundo que deixamos?

- Como é então?

- Agora não existem entre nós posições nem conside- rações, visto assegurarem que estamos mortos.

- Embora estivéssemos mil vezes mais mortos, não se- riam, contudo, menos necessárias as preferências, uma ordem social...

Aquelas pessoas consolaram-me. Se não são amigos nesse fúnebre subsolo, o que seria possível pedir-lhes no andar superior? E continuei a escutar.

*

- Não, eu viverei! Não! Digo-lhe que viverei! exclamou outra voz também inesperada, que saía do espaço entre o túmulo do general e a mulher suscetível.

- Ouviu, Excelência? - era a voz do conselheiro. Aí está o nosso homem a começar de novo! Tanto passa os dias sem dizer palavra como nos aborrece constantemente com a frase estúpida: "Não, eu viverei!"

  - Viver aqui! Neste lugar sinistro!

- Na verdade não se vê alegria neste lugar. Excelência, se quiser, vamos também para nos distrair implicar um pouco com a vizinha, Avdotia Ignatievna, que se mostra tão susceptível.

- Eu não! Não suporto essa mulher altiva, faladora.

- Eu que não os suporto, nem a um nem a outro! gritou a faladora. Todos dois são insuportáveis. Só sabem resmungar tolices. Quer que lhe conte, general, algo de interessante? Pois lhe direi de que maneira um dos seus criados o meteu debaixo de certa cama, com uma vassoura...

- Oh! você é uma criatura insuportável! resmungou o general.

- Oh! mãezinha Avdotia Ignafievna! tira-me de uma dúvida, peço-lhe, exclamou o mascate. Estou sendo vítima de horrível ilusão ou é real o cheiro insuportável que me envenena?

- Você ainda insiste! Mas se é quem desprende fedor horrível ao mexer-se...

- Não me mexo, querida senhora, não posso exalar mau cheiro algum. A minha carne está intata: encontro-me em perfeito estado de conservação. Mas a realidade, mãezi- nha, é que você já está um pouco... podre. Espalha um fedor insuportável para o lado de cá. Se me calei até agora foi por delicadeza...

- Ah! sujeito repugnante! É ele quem envenena o ar, e diz que sou eu!

- Oh! ah! ah! Tornara que chegue já o dia em que celebrarão os meus funerais, quarenta dias depois da minha morte! Pelo menos, hei de ouvir as lágrimas da minha esposa e dos meus filhos cair sobre o túmulo!

- Ora essa! Tem certeza que vão chorar? Apertarão o nariz e se afastarão bem depresa...

- Avdotia Ignatievna - disse o funcionário em tom obsequioso - daqui a pouco os que chegaram hoje começarão a falar.

- Haverá jovens entre eles?

- Há sim, Avdotia Ignatievna. Há até mesmo mocinhos.

- Como assim, ainda não saíram da letargia? - perguntou o general.

- Bem sabe Vossa Excelência que os de anteontem até agora não despertaram. Há quem permaneça inerte du- rante semanas inteiras. Nos três últimos dias trouxeram certo número. Se assim não fosse, todos os mortos num raio de dez metros em roda, seriam do ano passado.

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