Hoje, Excelência, enterraram o conselheiro privado Tarassevitch. Ouvi citar-lhe o nome aos concorrentes. Conheço o sobrinho dele: o que presidia ao duelo pronunciou algumas palavras junto ao túmulo.

- Mas onde é que está?

- Muito perto: a cinco passos, à sua direita. Se fizesse conhecimento com ele, Excelência!

- Oh! Terei de dar o primeiro passo?

- Ele o dará. E até sentirá grande satisfação; confie em mim e eu...

- Oh! e isso agora! interrompeu o general. Que é que estou escutando?

- É a voz de um recém-chegado, Excelência. Não per- ca tempo; os mortos demoram muito, ordinariamente, a mover-se.

- Dir-se-ia que é voz de um jovem - suspirou Avdotia Ignatievna.

- Se aqui me encontro é devido a essa complicação dos diabos, que em tudo me transtornou. Aqui estou morto e tão repentinamente! - gemeu o morto - Entretanto, ain- da na véspera, de noitinha, dizia-me Schultz: "Não há mais nenhuma complicação a temer." E, zás, de manhã estava morto.

- Pois bem, jovem, já não há nada mais a fazer - observou o general bastante cordialmente. Parecia encantado com a presença de um "novo".

- Você terá de tomar uma resolução e acostumar-se ao nosso vale de Josafá. Somos todos honrados... estando em contato conosco, poderá verificar. Sou o general Vassili Vassilievitch Tervoiedov, para servi-lo...

- Eu estava em casa de Schultz... Esta complicação dos diabos da gripe, quando o peito me estava a doer... Foi tudo tão repentino!

- Você disse o peito? - disse suavemente o funcionário, como se quisesse animar o "novo".

- Sim, o peito, escarrava muito. Depois, de repente, deixei de escarrar, fiquei sufocado e...

- Bem sei, bem sei... Mas se estava doente do peito devia ter procurado Ecke e não Schultz...

- Eu fazia questão que me levassem à casa de Botkine e foi aí que...

- Hum... Botkine, mau negócio - interrompeu o general.

- Nada disso; ouvi dizer que se preocupa muito com os doentes...

   

- O general falava assim porque queria referir-se aos honorários de Botkine - observou o funcionário.

- Você está enganado. Não é nada careiro e é muito escrupuloso quando ausculta e muito minucioso ao redigir as receitas. Vamos ver, senhores, aconselham-me a procurar Ecke ou Botkine?

- Quem?... Você? Onde? O general e o funcionário puseram-se a rir.

- Jovem encantador e delicioso, como o amo! - exclamou entusiasmada, Avdotia Ignatievna. - Por que não o colocaram ao meu lado?

Não me foi possível compreender bem aquele entusiasmo. Tinha presenciado o enterro do "novo". Tinha-o visto no caixão aberto. Era o rosto mais repugnante que se pudes- se imaginar. Parecia um pinto rebentado de medo. Enojado, passei a escutar o que se dizia do outro lado.

*

A princípio era tal a confusão, que não me foi possível ouvir tudo quanto se dizia. De uma só vez tinham acabado de despertar diversos mortos. Entre eles um conselheiro da corte, que logo se pôs a falar com o general, para comunicar as suas impressões com relação a uma nova subcomissão nomeada no ministério e de uma troca de funcionários. Parecia que a conversa interessava extremamente ao general; confesso que fiquei sabendo, por esse modo, de muitas coisas que ignorava, ficando admirado de vir a conhecê-las por maneira tal. No mesmo instante tinham acordado um engenheiro, que por algum tempo, nada mais fez senão gaguejar tolices e a nobre dama que haviam enterrado naquele dia mesmo.

Lebeziatnikov - era o funcionário que estava perto do general - ficou surpreendido com a rapidez com que esses mortos recuperavam a palavra. Pouco tempo depois começaram outros mortos a falar. Eram os de anteontem. Notei uma senhorita muito jovem, que não parava de rir estupidamente.

- O senhor conselheiro privado Tarassevitch dignou-se despertar - anunciou prontamente o general ao funcionário Lebeziatnikov.

- Como? Que é que há? - balbuciou fracamente o conselheiro privado.

- Sou eu; somente eu, Excelência - respondeu Libe- ziatnikov.

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