- Que é que quer? Que é que pede?

- Desejo saber somente notícias de Vossa Excelência. Em geral, a falta de costume faz com que a pessoa se sinta estranha aqui... O general Pervoiedov sentir-se-ia muito honrado em conhecê-la e espera...

- Pervoiedov!... Nunca ouvi pronunciar tal nome...

- Perdoe-me Vossa Excelência: o general Vassili Vassi- lievitch Pervoiedov.

- É o senhor o general Pervoiedov?

- ... Eu não, Excelência. Sou o conselheiro Lebeziatni- kov, para servi-lo e o general...

- Está me aborrecendo! Deixe-me sossegado! Aquela amabilidade acalmou o zelo de Lebeziatnikov, ao qual o general murmurou:

- Deixe-o!

- Sim, general, já o deixo - respondeu o funcionário. Entretanto, ainda não despertou bem... Levemo-lo em conta. Quando estiver com as idéias mais claras, estou certo que a sua amabilidade natural...

- Deixe-o! repetiu o general.

*

- Vassili Vassilievitch! O senhor, Excelência! - gritou do lado de Avdotia Ignatievna uma voz desconhecida, voz afetada de homem da alta roda. Já faz tempo que a estou ouvindo. Já estou aqui há três dias. Lembra-se de mim, Vassili Vassilievitch? Chamo-me Klinevitch. Encontramo-nos em casa de Volokonsky, onde, não sei bem por que, nos deixavam entrar.

- Como! O Conde Piotr Petrovitch? É o senhor mesmo? Tão jovem! Como sinto...

- Também eu sinto! Ora essa! Afinal de contas, é o mesmo para mim. Já deve saber que não sou conde: sou somente barão. E somos família de tristes barões, de origem modesta e pouco recomendável; mas pouco me importo: perdão, estou enganado. Valia um pouco menos que nada: era um polichinelo de titulado da alta classe, na qual me haviam dado reputação de palhaço encantador. Meu pai foi um desgraçado general qualquer, e minha mãe foi outrora recebida em altos lugares. Ajudado pelo judeu Zifel fabriquei no ano passado uns cinquenta mil rublos em notas do Banco. Denunciei o meu cúmplice e Julia Charpentier de Lusignan carregou com todo o dinheiro para Bordéus.

  Imagine que na ocasião estava noivo da senhorita Stchvalevszkaia, que tinha dezesseis anos menos três meses, tendo saído há pouco do colégio interno. Tinha um dote de noventa mil rublos. Lembra-se, Avdotia Ignatievna, quando eu era um pajem de quatorze anos, como me perverteu?

- Ah! era você, canalha! Tanto melhor que Deus o tenha mandado para cá! Sem você isto aqui estava-se tornando intolerável.

- A propósito, Avdotia Ignatievna, está errado que acuse o vizinho mascate de empestar os arredores. Sou eu o responsável, e fico desvanecido com isso! Meteram-me no caixão quando já estava muito estragado.

- Ah! malvado! Mas dá no mesmo; estou contente em tê-la perto de mim. Se você soubesse como é triste e desen- xabido este recanto!

- Não duvido, e vou introduzir um pouco de fantasia na reunião. Diga-me, Excelência: não é ao senhor, Pervoie- dov, a quem estou falando; é ao outro, o que se chama Tarassevitch, conselheiro privado. Aposto que esqueceu que fui eu, Klinevitch, quem o levou durante uma quaresma à casa da senhorita Furie.

- Estou ouvindo, Klinevitch e... creia que...

- Não creio nada, absolutamente, e pouco se me dá. Queria simplesmente, velho amigo, abraçá-la; mas, graças a Deus não o posso fazer. Mas vocês sabem o que fez este avô? Ao morrer, deixou um desfalque de quatrocentos mil rublos no Tesouro. Esta soma estava destinada a viúvas e órfãos; mas quem a embolsou foi o gato; de sorte que durante oito anos nada se distribuiu. É verdade que durante todo esse tempo não se fez qualquer verificação. Imagino as caretas que as viúvas farão, e daqui mesmo estou ouvindo os nomes das aves com que nosso Tarassevitch se deliciava. Passei todo o último ano de vida divertindo-me com as forças que ainda conservava esse velho ridículo, quando se fazia algum passeio fora da cidade, apesar de sofrer de gota. Há muito que eu sabia do golpe das viúvas e órfãos. Quem me vendeu o segredo foi a senhorita Charpentier. Pois um belo dia, um pouco a contragosto, fui... arrancar-lhe vinte e cinco mil rublos, ameaçando-o... amistosamente, com o que ela me dissera, se ele não me fechasse a boca. Sabem o que ainda tinha em caixa? Treze mil rublos, nem mais um copeque! Ah! morreu a tempo o velho. Oh! que avô maldito. Está me ouvindo, Tarassevitch?

- Meu querido Klinevitch, não quero contrariá-lo; mas você entra em tais detalhes... E se soubesse as desgraças a que tive de remediar; e aí está a compensação que tive. Enfim, aqui vou encontrar repouso, talvez felicidade...

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