Mas a esperta cachorrinha encolheu o rabo, contraiu-se toda e saiu do quarto caladinha, como se nada tivesse ouvido. Suspeito há muito tempo que o cachorro é mais inteligente do que o homem. Estou até convencido de que sabe falar, apenas tem uma espécie de teimosia. É um político extraordinário: observa tudo, todos os passos do homem. Não, custe o que custar, hei de ir amanhã à casa de Zverkof, interrogarei Fidel, e, se for possível, interceptarei todas as cartas que Medji lhe escreveu.

12 de novembro.

Às duas da tarde pus-me a caminho com a intenção de visitar Fidel e de interrogá-la. Não posso suportar o cheiro de repolho que se exala de todos os armazéns da Rua dos Burgueses; além deste, da porta de todas as casas vieram fedores tão infernais que passei por elas correndo e tapando o nariz. Demais, os diabos daqueles operários deixam sair tanta fuligem e fumaça de suas oficinas, que não é absolutamente possível passear por ali. Chegando ao sexto andar, toquei a campainha. Apa- receu uma criadinha de aparência não de todo má, de rosto sardento. Reconheci-a: era a mocinha que tinha estado com a velha. Corou ao ver-me, e eu compreendi de que se tratava. - Tu precisas, pombinha, é de um marido. - Que é que o senhor deseja? - perguntou-me. - Preciso falar com a vossa cachorrinha. Mas que criada tola! Logo vi como era estúpida. Ao mesmo tempo a cachorra acorreu latindo. Fiz menção de agarrá-la, mas o bicho ordinário quase que me abo- canhou o nariz. Nesse meio tempo, percebi a um dos cantos uma cesta de esparto. Pois é disso justamente que eu preciso! Aproximei-me dela, revolvi a palha na caixa de madeira e com extraordinário prazer retirei da mesma um pacote de papeizinhos. Vendo isto, a danada da cachorra mordeu-me primeiro a barriga da perna; depois, ao farejar que eu levava os papéis, pôs-se a ganir, a fazer-me festa, mas eu lhe disse: - Não, minha pombinha, até logo. E fui-me embora correndo. A criadinha deve ter-me tomado por maluco, tal o medo que lhe causei. Chegando a casa, quis-me entregar imediatamente ao trabalho de decifrar as cartas, pois à luz das velas vejo bastante mal. Mavra, porém, tinha-se lembrado de lavar o soalho. Essas finlandesas idiotas lembram-se de limpeza sempre no pior momento. Diante disso fui dar uma voltinha a meditar o acontecido. Agora, de vez, acabarei por saber tudo; todos os pensamentos, todas as molas, tudo hei de descobrir. Essas cartas hão de me revelar tudo. Os cachorros são uma raça inteligente, co- nhecem todas as relações políticas, e, assim, sem dú- vida tudo estará aqui dentro, o retrato e todos os negócios do homem. 

 

 

Deverá também haver algo a respeito daquela que... mas - psiu!... À noitinha cheguei a casa. Passei a maior parte do tempo deitado na cama.

13 de novembro.

Pois bem, vejamos. A carta é bastante legível. Embora escrita em letra humana, tem algo de canino. Leiamos:

"Querida Fidel, não posso absolutamente acostumar-me ao teu nome burguês. Não podiam dar-te um nome melhor? Fidel, Rosa - soam tão vulgarmente! Mas deixemos isso de lado. Estou bem contente de havermos resolvido escrever-nos."

A carta está escrita com muita correção. A pontuação, e até a letra iat, estão sempre bem empregadas. Nem o nosso chefe de seção escreve tão bem, embora afirme haver cursado a Universidade. Mas vamos adiante :

"Parece-me que partilhar com outrem os pensamentos, sentimentos e impressões é uma das maiores felicidades do mundo." Hum! este pensamento é tirado de uma obra traduzida do alemão. Do título é que não me lembro. "Eu digo isto por experiência, embora não tenha corrido mundo além do portão de nossa casa. Será que a minha vida não é feliz? Minha senhorinha, a quem seu papai chama Sophie, ama-me loucamente." Ai de mim! mas - psiu!... "O paizinho dela acaricia-me também freqüentemente. Bebo chá e café com creme. Ah, ma chère, devo dizer-te que não acho absolutamente nenhum gosto nos grandes ossos roídos que o nosso Polkan devora na cozinha. A mim só me interessam ossos de passarinhos de caça, e estes mesmos só quando ninguém lhes chupou o tutano. Gosto também de molhos misturados, contanto que não lhes ponham alcaparra nem legumes. Em compensação, para mim não há nada pior do que as bolinhas de pão amassado que se dão habitualmente aos cachorros. Um senhor qualquer, sentado à mesa, depois de pegar com as mãos qualquer porcaria, começa a amassar pão com essas mesmas mãos, chama a gente e mete-nos entre os dentes a bolinha. Recusar seria uma falta de consideração, e a gente engole, embora com nojo..." O Diabo que entenda isso! Que tolice! Falar em tal coisa como se não houvesse assunto mais interessante! Vamos ver na outra página. Talvez lá se encontre algo de mais sensato: "É com o maior prazer que te informarei de tudo o que acontecer em nossa casa. Já te falei da personagem principal da casa, a quem Sophie chama papai. É um homem muito estranho." Até que enfim! 

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