Aqui está: eu sabia que eles têm um olhar de político para tudo. Vejamos, pois, o que diz a respeito do papai: "É um homem muito. estranho. Geralmente, mantém-se calado. Fala muito pouco.No entanto, há uma semana, falava sozinho sem parar, dizendo: - "Hei de ganhá-la ou não?" Pegava com uma das mãos um papel, fechava a mão vazia e perguntava: - "Hei de ganhá-la ou não?" Uma vez, até se dirigiu a mim com esta pergunta: - "Que pensas tu, Medji: hei de ganhá-la ou não?" Não podendo compreender absolutamente nada, cheirei-lhe as botas e fui-me embora. Depois, ma chère, ao cabo de uma semana papai apareceu em casa muito alegre. Durante toda a manhã vieram vê-lo senhores uniformizados e deram-lhe parabéns. À mesa ele estava tão contente como nunca o vi, chegou a contar anedotas. Depois do jantar, pôs-me no colo e disse: - "Olha, Medji, eis a tal coisa." Vi uma espécie de fita. Cheirei-a, mas decididamente não lhe achei nenhum perfume. Depois, lambi-a devagar: tinha um gosto meio salgado." Hum! essa cachorrinha me parece até de mais... Queira Deus não apanhe! Então ele é ambicioso? Devo tomar nota disso para meu governo. "Até logo, ma chère! Vou correndo, etc., etc... Acabarei esta carta amanhã." "Bom dia. Eis-me outra vez contigo. Ontem a minha senhora Sophie..." Ah l Vejamos o que faz Sophie. Alto, canalha... Psiu! Deixemo-la continuar: "Minha senhorinha Sophie passou o dia num alvoroço extraordinário. Preparava-se para ir ao baile, e eu, por minha vez, estava contente, porque na ausência dela posso escrever-te. Minha Sophie está sempre contentíssima quando pode ir ao baile, embora quase sempre se aborreça no momento de se vestir. Não posso compreender, ma chere, que prazer se pode sentir em ir ao baile. Sophie chega de lá às seis horas da manhã, e pelo seu ar pálido e exausto quase sempre concluo que não lhe deram de comer, coitadinha. Por mim, confesso, nunca poderia viver assim. Se não me dessem molho com perdiz ou asa de galinha assada... não sei o que seria de mim. Molho com mingau de aveia também é bom. O que, porém, nunca tolerarei, é cenoura, nabo e alcachofra." É exatamente desigual esse estilo. Vê-se logo que o autor não é homem. Começa de um modo razoável e acaba caninamente. Vamos ver mais uma cartinha. Que compridas! Hum! nem põe data: "Ah, minha querida, como é evidente a aproximação da primavera! Bate-me o coração, como se esperasse alguma coisa. Nos meus ouvidos há como que um ruído perpétuo, a tal ponto que muitas vezes, levantando uma perna, fico parada à porta alguns minutos, atenta. Posso revelar-te que tenho muitos apaixonados. Muitas vezes, sentada à janela, observo-os. Se soubesses que monstros há entre eles! Há um, de cara feia, um gozo idiota cuja  estupidez está gravada no focinho, que passeia pela rua com ar importante e se crê uma personagem para quem se voltam todos os olhares. Pois está enganado. Eu não lhe dei atenção, fiz que não o via. Outro, um buldogue horrível, costuma parar diante da minha janela. Se se erguesse nas patas traseiras, coisa de que um vilão como ele provavelmente é incapaz, superaria de uma cabeça inteira o pai de nossa Sophie, que no entanto é de estatura elevada e corpulento. Esse bobalhão deve ser de uma impertinência insuportável. Rosnei um pouco para ele, mas ele fingiu não perceber. Se pelo menos soubesse fazer caretas... mas só sabe pôr a língua de fora e deixar cair as orelhas enormes, olhando para a janela que nem um mujique. Mas não penses, ma chère, que o meu coração é indiferente a todas as solicitações... ah, não... Se tu visses um cavalheiro que trepou na cerca da casa vizinha, chamado Tresor! Que focinho, ma chère!"

Ó diabo! Que porcaria! Como é possível encher páginas com semelhantes bobagens? Dai-me um homem! Quero ver um homem, preciso de um alimento que nutra e deleite a minha alma; em vez disso, vêm estas bobagens... Viremos a página, talvez o avesso tenha mais nexo:

"Sophie estava sentada à sua mesinha e cosia alguma coisa. Eu estava olhando pela janela, pois gosto de examinar os transeuntes. De repente entra o criado e anuncia o Sr. Teplof. - "Mande-o entrar" - exclamou Sophie. E correu a abraçar-me: - "Ah, Medji, Medji! se soubesses quem é! Um rapaz moreno, um fidalgo da corte. E que olhos! Pretos e luminosos como o fogo." Nisto, correu para o seu quarto. Um minuto depois entrou o fidalgo da corte, de suíças negras; foi ao espelho, ajeitou os cabelos e girou o olhar pelo quarto. Rosnei um pouco e fui sentar-me no meu lugar. Sophie voltou depressa e curvou-se alegremente, batendo os saltos; mas eu, como se não tivesse visto nada, continuei a olhar pela janela, embora inclinasse a cabeça de lado e procurasse ouvir de que falavam eles. Ah, ma chère, que tolices conversavam! Comentaram, por exemplo, que uma das damas, em vez de executar determinadas figuras na dança, executara outras; que certo Bovof, com seus bofes de camisa, parecia uma cegonha, e quase caíra; que certa Lidina imaginava ter olhos azuis, quando na realidade os tinha verdes - e outras coisas parecidas. Como seria interessante - pensei - comparar esse gentil-homem com Tresor! Que diferença, meu Deus! Antes de tudo, o gentil-homem da Corte tem o rosto largo, completamente liso, e com suíças em redor, como se estivesse cercado de um lenço preto, ao passo que Tresor tem um focinho fino e, no meio da testa, uma mancha sem pêlo. A cintura de Tresor nem se compara com a do fidalgo. Quanto aos olhos, aos gestos, às maneiras, nada têm de comum. Que diferença!

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