| As largas
costas róseas avançavam diante de mim. Vera voltou-se.
- Que está a dizer? Ela franziu os sobrolhos, os olhos riam. Repeti: - Onde vai? As palavras desfaziam-se-me na boca como cavacos secos. Mudando de passo, Vera pôs-se a caminhar a meu lado. - Dez rublos para mim - disse-me Vera. Eu concordei tão depressa que ela concebeu suspeitas. - E tens esses dez rublos, pelo menos? Entrámos num portal e eu estendi-lhe a minha carteira. Ela contou vinte e um rublos; os olhos cinzentos piscaram, os lábios mexeram-se. Colocou as moedas de ouro de um lado, as de prata do outro. - Dez rublos. Está bem? Cinco para fazermos uma borga juntos e o resto para viveres. Quando recebes? Respondi que receberia dentro de quatro dias. Saímos do portal. Vera deu-me o braço e apertou o ombro contra o meu. Subimos a rua que arrefecia. O passeio estava coberto dum tapete de legumes murchos. - Com este calor, era agradável ir até Borjom... Os cabelos de Vera estavam retidos por uma fita onde se reflectiam e torciam as luzes dos candeeiros públicos. - Bem, desliza para Borjom. Tinha sido eu a dizer aquele <<desliza>>. Porque empregara eu aquela palavra? - Não tenho dinheiro - respondeu ela. Vera bocejou e esqueceu a minha existência. Esqueceu-me porque o seu dia estava ganho e comigo tinha sido fácil. Ela tinha percebido que eu não lhe atrairia dissabores com a polícia, e que não lhe roubaria durante a noite o dinheiro e os brincos. Chegámos ao pé da colina de São David. Ali encomen- dei um liulé-kébab numa tasca. Sem esperar a comida, Vera foi-se sentar junto de um grupo de velhos persas que discutiam os seus negócios. Apoiados em cajados brilhantes, abanando com as cabeças de tez azeitonada, tentavam persuadir o taverneiro de que tinha chegado, para ele, o momento de aumentar o negócìo. Vera meteu-se na conversa, tomando o partido dos velhos. Era de opinião de que era vantajoso transferir a baiuca para a Avenida Mikaílovski. Cego pela cobardia e pela prudência, o taverneiro resmungava. Comi sozinho o meu liulé-kébab. Os braços nus de Vera saíam das mangas de seda, batia com o punho na mesa, os brincos dançavam entre as longas costas de cores mortiças, barbas alaranjadas e unhas pintadas. |
O liulé-kébab que se lhe destinava estava frio quando ela regressou à nossa mesa. Tinha o rosto ardente
de emoção.
- Não há meio de se mexer, aquele burro... Na Avenida Mikaílovski, com cozinha oriental, estás a ver o negócio que ele podia fazer?... Diante da nossa mesa desfilavam conhecimentos de Vera, príncipes em roupas circassianas, oficiais de uma certa idade, lojistas com trajos de tussor e velhos ventrudos, com os rostos morenos e as faces cobertas de pontos esverdeados. Foi só pouco antes da meia-noite que chegámos ao hotel, mas também ali Vera encontrou numerosas ocupações. Uma velhinha fazia as malas para ir ver o filho a Armavir. Abandonando-me, Vera correu ao quarto da velha, fechou-lhe a mala ajoelhando-se em cima, ligou-a com correias, envolveu pequenos doces em papel parafinado. A forte velhinha, com um chapéu de gaze, um saco vermelho a tiracolo, andava de quarto em quarto a fazer as suas despedidas. Arrastava as botinas de borracha pelo corredor, soluçava e sorria com todas as suas rugas. As despedidas duraram bem uma hora. Eu esperava Vera num quarto miserável cheio de cadeiras de três pés, com uma estufa de terracota, e cheio de recantos húmidos cobertos de manchas de bolor. Eu tinha sido martirizado e passeado durante tanto tempo através da cidade, que até o meu amor se tinha tornado para mim um inimigo, um inimigo obsessivo... Uma vida estranha arrastava os pés pelo corredor e ria subitamente às gargalhadas. Num frasco cheio de um líquido leitoso algumas moscas estavam a morrer. Cada uma delas morria à sua maneira. Para uma, a agonia durava muito tempo com sobressaltos violentos. Outra morria após alguns estremecimentos quase imperceptíveis. Havia um livro pousado junto do frasco, em cima da toalha polida, um romance de Golovine sobre a vida dos boiardos. Abri-o ao acaso. As letras desfilaram e confundiram-se umas com as outras. Perante mim, no rectângulo da janela, alonga- va-se uma pendente pedregosa, uma tortuosa ruela turca. Vera entrou no quarto. - Acompanhámos Fédossia Mavrikéevna - disse ela. - Sabes, era uma verdadeira mãe para todos nós... A velha viaja sozinha, sem companheiro, sem ninguém... Sentou-se na cama com os joelhos afastados. Os olhos dela erravam pelas puras regiões dos cuidados e da amizade. Depois viu-me, metido na minha roupa. Entre- laçando os dedos, espreguiçou-se. - Aborreceste-te, é evidente... Não faz mal, vamos compensar isso. |
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