Eu não compreendi o que Vera se preparava para fazer. Os seus preparativos assemelhavam-se aos de um médico antes de uma operação. Acendeu um fogareiro de petróleo e pousou-lhe em cima uma caçarola com água. Estendeu uma toalha branca na cabeceira da cama e suspendeu um irrigador por cima da cabeça, um irrigador munido com um tubo branco que oscilava ao longo da parede. Quando a água ficou quente verteu-a no irrigador, lançou nela alguns cristais vermelhos e começou a tirar o vestido por cima da cabeça. Estava perante mim uma mulher grande de ombros caídos e ventre amarrotado. As tetas frouxas fixaram o olhar cego, cada uma de seu lado.

- Enquanto esperamos que a água arrefeça, vem para a minha beira, meu saltador - disse a minha bem-amada.

Não me mexi do lugar. O desespero tinha-se inteiri- çado em mim. Qual a razão porque tinha trocado a minha solidão por esta lura cheia de uma miserável tristeza, aque- las moscas agonizantes e aqueles móveis de três pés?

Ó deuses da minha juventude!... Como esta coisa prosaica se parecia pouco com o amor dos meus vizinhos, com os seus longos gritos agudos que se extinguiam lentamente.

Vera pôs as mãos debaixo dos seios e fê-los abanar.

- Porque ficas aí, como um triste, de cabeça baixa?... Anda cá...

Não me mexi. Vera pousou a camisa no ventre e sentou-se novamente na cama.

- É do dinheiro que tens pena?

- O dinheiro é-me indiferente.

Eu tinha dito aquilo com uma voz quebrada.

- É-te indiferente, como? Não serás um ladrão, por acaso?

- Não sou um ladrão.

- Tens combinações com ladrões?

- Sou um rapaz.

- Vejo muito bem que não és nenhuma vaca - res- mungou Vera.

Os olhos dela fechavam-se com sono. Deitou-se, atraiu-me para ela e começou a passear as mãos pelo meu corpo.

- Sou um rapaz - exclamei eu -, compreendes, um rapaz que tem vivido entre arménios.

Ó deuses da minha juventude! Dos vinte anos da minha vida, eu tinha passado cinco a inventar histórias, milhares de histórias que me enchiam o cérebro. Repou- savam no meu coração como um sapo em cima de uma pedra. Movida pela força da solidão, uma delas caira à terra.

  Estava escrito algures, com toda a evidência, que uma prostituta de Tiflis se tornaria a minha primeira leitora. Fiquei gelado com o momento repentino da minha invenção, e contei-lhe a história do rapaz para arménios. Se eu tivesse meditado na minha arte com menos frequência, desenrolaria a história banal do filho do rico funciorário expulso de casa, com um pai déspota e uma mãe mártir. Não cometi esse erro. Uma boa história não tem necessidade de se parecer com a vida real; é a vida que, com todas as forças, procura assemelhar-se a uma boa história. Por essa razão, e também porque era necessário que fosse assim para a minha ouvinte, eu nasci na aldeia de Aliochki, na província de Kerson. O meu pai era desenhador num escritório de navegação fluvial. Sofria dia e noite em cima dos desenhos para dar instrução aos filhos, mas nós parecíamo-nos com a nossa mãe, gulosa e alegre. Aos dez anos, comecei a roubar dinheiro ao meu pai e, já grande, fugi para Bagu, para casa de familiares da minha mãe. Eles relacionaram-me com um arménio, Stepan Ivanóvitch. Começámos a viver juntos e estivemos assim quatro anos.

- Que idade tinhas, nesse tempo?

- Quinze anos...

Vera esperava perversidades daquele arménio que me tinha desonrado. Então eu disse-lhe:

- Vivemos quatro anos juntos. Stepan Ivanóvitch revelou-se o homem mais confiante e mais generoso de todos os que conheci, o mais delicado também e o mais nobre. Acreditava na palavra de todos os seus amigos. Eu deveria ter aproveitado esses quatro anos para aprender uma pro- fissão. mas não fazia caso disso... O que eu tinha na cabeça era o jogo do bilhar... Stepan Ivanóvitch foi arrui- nado pelos amigos. Assinou-lhes letras de favor e os ami- gos executaram-no...

Letras de favor... Eu próprio não sei como me veio aquela ideia. Mas eu tinha feito bem em as mencionar. Vera acreditou tudo porque também tinha ouvido falar naquelas letras. Envolveu-se num xale e o xale começou a tremer em cima dos ombros caídos.

- Stepan Ivanóvitch ficou arruinado. Foi expulso de casa, o mobiliário foi vendido em leilão. Tornou-se caixeiro-viajante. Agora que ele estava na miséria deixei de viver com ele e passei para um fabriqueiro velho e rico...

Eu tinha roubado este fabriqueiro a um escritor qualquer; era a invenção dum coração preguiçoso que não queria ter trabalho em criar um ser vivo.

- Um fabriqueiro - disse eu, e Vera piscou os olhos que escaparam ao meu império. Então, para me refazer, coloquei asma no peito do velho, crises de asma, o assobio rouco da sufocação no peito amarelecido.

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