De noite, o velho saltava da cama e aspirava, gemendo, o ar nocturno de Baku, saturado de petróleo. Não demorou muito a morrer; a asma abafou-o. A família dele expulsou-me. Eis-me agora em Tiflis, com vinte rublos no bolso, precisamente aqueles que Vera tinha contado no portal da Avenida Golovinski. O empregado do hotel onde eu me hospedara prometera-me ricos clientes, mas por agora não tinha levado mais do que taverneiros de ventres caídos... Pessoas que não amam senão a sua região, as suas canções, o seu vinho, e calcam aos pés a alma e as mulheres dos outros como uma ladrão, no campo, calca o pomar do vizinho.

Comecei a debitar sobre aqueles homens algumas toli- ces que tinha ouvido um dia... A piedade que eu me inspirava acerca de mim mesmo dilacerava-me o coração. A minha perda parecia-me irreversível. Sacudiam-me arrepios de dor e de inspiração. Fios de suor gelado começaram a correr-me no rosto, como serpentes que se insinuam na erva aquecida pelo sol. Calei-me, lavado em lágrimas e voltei-me. A história tinha terminado. O fogareiro a petróleo tinha-se apagado há muito tempo. A água tinha fervido e arrefecido. O tubo do irrigador pendia ao longo da parede. A mulher foi à janela, deslocando-se sem ruído. As costas brilhantes e tristes mexiam-se diante de mim. A luz começava a aparecer por cima das montanhas.

- Há alguma coisa que eles não façam? - murmurou Vera, sem se voltar. - Meu Deus, até onde eles chegam!...

Estendeu os braços nus e afastou os batentes da janela. Na rua, as pedras crepitavam, arrefecendo. Um cheiro de água e de poeira flutuava na calçada... Vera abanava a cabeça.

- Em suma, tu és uma baixeza, uma puta como nós...

Baixei a cabeça.

- Uma puta como vocês...

Vera voltou-se para mim. A camisa pendia-lhe através do corpo como um trapo.

- O que é que eles não fazem? - repetiu ela, mais alto. - Meu Deus, a que é que eles não se atrevem?... E mulheres, tivestes?

Apoiei os meus lábios gelados na mão dela.

- Não. Como poderia ter, quem me teria deixado?...

A minha cabeça tremia perto do peito dela que se erguia, livre, acima de mim. Os mamilos endurecidos batiam contra as minhas faces. Abriram-me as pálpebras húmidas, empurrando-se como vitelos. Vera olhava-me de cima.

- Irmãzinha! - murmurou ela, deixando-se deslizar para o soalho, junto de mim - Irmã, minha putazinha...

  Dizei-me agora, pois eu bem gostaria de vo-lo per- guntar, dizei-me se já vistes como os carpinteiros talham, no campo, a madeira para construir uma isba a um dos seus camaradas, como os cavacos voam da prancha eficaz- mente para a pôr em esquadria, como eles voam com força e felicidade. Naquela noite, uma mulher de trinta anos dispensou-me a sua sabedoria... Aprendi naquela noite segredos que vocês não aprenderão nunca, saboreei um amor que vocês não poderão sentir, ouvi as palavras de uma mulher endereçadas a outra mulher. Esqueci-as. Não me é dado recordá-las.

Adormecemos de madrugada. O calor dos nossos corpos despertou-nos, um calor pesado como uma pedra na nossa cama. Ao despertar sorrimos um para o outro. Nesse dia faltei à tipografia. Tomámos o chá na Praça do Mercado da cidade velha. Um turco amável serviu-nos, dum samovar envolto num guardanapo, um chá púrpura como o tijolo que deitava um fumo que parecia sangue recentemente derramado. O incêndio enevoado do sol flamejava nas paredes dos nossos copos. Os zurros monótonos dos burros misturavam-se com o martelar dos caldeireiros. Sob as tendas, havia ânforas de cobre alinhadas em cima de tapetes descoloridos. Os cães mergulhavam os focinhos em tripas de boi. Uma caravana de poeira voava para Tiflis, a cidade das rosas e da gordura de carneiro. A poeira cobria o braseiro rubro do sol. O turco servia-nos mais chá e contava num pequeno ábaco os pães pequenos em forma de coroa que tínhamos comido. O mundo era esplêndido para nos dar prazer. Quando fiquei coberto de pérolas de suor, pousei o meu copo voltado sobre a mesa. Ao pagar ao turco, empurrei para o lado de Vera duas moedas de ouro de dez rublos. A robusta perna dela estava pousada em cima da minha. Afastou o dinheiro e retirou a perna.

- Queres que nos zanguemos, irmãzinha?

Não, eu não me queria zangar com ela. Marcámos encontro para aquela noite e voltei a meter no bolso as duas moedas de ouro, o produto dos meus primeiros direitos de autor.

Muitos anos passaram depois disso. Durante esse período recebi dinheiro de chefes de redacção, de sábios, de comerciantes de livros. Por vitórias que eram derrotas, por derrotas que se tornavam vitórias, pela vida e pela morte, pagavam-me preços irrisórios, muito inferiores ao que eu tinha recebido na minha juventude da minha primeira leitora. Mas não lhes quero mal, e isso porque estou certo de que não morrerei sem ter arrancado das mãos do amor outra moeda de ouro, que será para mim a última.

Em: "Contos Soviéticos" / Editorial Inova - Porto
Tradução: Egito Gonçalves