UM TOLO

Nicolau Lieskov

 

Entre nossos criados havia um jovem que era órfão. Chamava-se Panka. Vivia entre os domésticos. Vestia as roupas usadas dos outros e compartilhava a ração da mulher do vaqueiro e seus filhos. Alegremente ajudava todo mundo, isto é, não o incomodava que alguém o fizesse trabalhar em seu lugar. Deste modo chegava a trabalhar da manhã à noite, sem repouso nem trégua. Lembro-me como se fosse ontem: durante o inverno - e entre nós o inverno era algumas vezes bastante rude - quando nos levantávamos e corríamos à janela, era fatal encontrar nosso Panka, curvado até o chão, puxando um largo trenó carregado de feixes de feno ou de palha e igualmente cheio de grãos para o gado e as aves. À hora em que nos levantávamos, Panka já iniciara suas tare- fas e nós o víamos muito raramente, ora junto ao estábulo, ora mastigando um pedaço de pão molhado na água do balde.

Quando lhe perguntávamos:

- Por que é que comes pão seco, Panka?

Ele respondia prazenteiramente:

- Seco? Nada disso. Não estão vendo que ele está molhado?

- Mas falta juntar aí muita coisa. Por exemplo: couve, pepino, batatas.

Panka, porém, franzindo a testa, respondia:

- Os senhores querem muita coisa! Graças a Deus não existe isso aqui.

Apertando a cintura, Panka voltava aos seus trenós. O trabalho nunca o esgotava, apesar de ajudar todo o mundo.

  Limpava as cavalariças, os currais, dava forragem aos animais, levava os carneiros ao bebedouro, sem contar ainda que, em certas tardes, enchia o tempo a trançar as sandálias, algumas vezes para ele, mas quase sempre para os outros. Sempre o último a se deitar, sempre o primeiro a se erguer, o pobre Panka não possuía qualquer encanto. Ninguém o lastimava. Ao vê-lo, todo mundo dizia:

- Não tem importância. É um tolo, um parvo, um basbaque.

- Bobo por quê?

- Por tudo.

- Por exemplo?

- Ora, exemplo! Se você quer um, vai aqui: a mulher do vaqueiro dá a seus filhos todos os pepinos, todas as batatas, sem que Panka se irrite com isto. Nunca pediu nada em troca, nunca se lastimou. Você está vendo que se trata de um bobo!

Nós, os meninos, não entendíamos nada dessas coisas. Panka nunca se aborrecera conosco, nunca nos dissera a menor asneira, dele só recebíamos gentilezas, pois era ele quem fazia para nós, de casca de madeira, pequenos moinhos e cestos. No entanto, como toda a gente, também achávamos que era um tolo. Ninguém nos dizia o contrário, mesmo porque uma tal legenda, tão divertida, não podia ser posta em dúvida.

Contratou-se um novo administrador, um homem severo que nunca perdoava nem deixava impune a menor falta. Estava sempre inspecionando, sempre alerta à menor negligência.

Volta para Prosa Russa