Quando qualquer coisa lhe soava mal, parava seu carro, chamava o culpado e lhe ordenava:

- Procure o capataz e diga-lhe em meu nome, que aplique em você vinte e cinco vergastadas. Se não fizer isto, quando eu voltar, à tarde, você receberá o dobro.

E ninguém tentava pedir-lhe perdão, pois seria debalde, e qualquer um correria, com isso, o perigo de sofrer ainda mais. Ora, num belo dia de verão, o adminis- trador, ao fazer o seu passeio diário, deu com um bando de poldros que, como se estivessem num pasto livre, espezinhavam os trigais verdes. O administrador ficou como louco.

Naquele tempo, a guarda dos poldros estava confiada a Petroucha, filho de Arina, a mulher do vaqueiro que guardava todas as batatas para seus filhos. Petroucha tinha, então, uns doze anos. Menor que Pavloucha, de compleixão mais delicada - chamavam-no de "Bolacha" - era um menino divertido, pouco amigo do trabalho e muito menos de ajudar aos outros. "Bolacha" havia saído com os poldros cedinho, mas, castigado pelo frio, enovelara-se no seu casacão. O casaco era grosso e quente, e o sono não tardara a tomar conta dele: e, enquanto ele dormia, os poldros soltos se espalharam nos trigais. Logo que soube de quem era a culpa, o administrador açoitou Petroucha com o chicote e disse:

- Panka te substituirá de hoje por diante. Procura o capataz e manda que ele, em meu nome, te aplique vinte e cinco vergastadas. Se não fizeres isto até eu voltar, sofrerás o dobro.

E o administrador continuou o seu caminho. Petroucha caiu em lágrimas. Com o corpo todo num só tremor, pois que nunca fora chicoteado, disse a Panka:

- Panka, meu querido irmãozinho, eu estou com medo... Que é que devo fazer, Panka?

Panka alisou os cabelos e disse:

- Na primeira vez eu também tive muito medo... Mas que fazer? Nosso Senhor, Petroucha, também foi chicoteado.

Petroucha chorava cada vez mais.

- Eu tinha medo ao mesmo tempo de ir e de não ir. Pensei até em me afogar.

E durante muito tempo Panka tentou explicar suas razões a Petroucha. Finalmente disse:

  - Está bem, preste atenção: fique aqui e eu vou correndo até a fazenda conseguir que o tirem desta encrenca. Pode ser que Deus lhe faça este favor.

- Mas o que fará você, Panka?

- Não se incomode nem se atormente mais. Tenho uma idéia.

E lá se foi Panka, num passo alegre, através do campo. Ao fim de uma hora, voltava, sorridente.

- Não tenha mais medo, meu rapazinho. Tudo está arranjado. Você não será mais castigado. "Como é que posso acreditar no que ele diz?", pensou consigo Petroucha. E custou a crer.

De tarde, o administrador interrogou o homem de guarda:

- Deve ter estado aqui um pastorzinho, não?

- Perfeitamente, Excelência, perfeitamente.

- E o senhor, certamente, acariciou o seu dorso, não?

- Perfeitamente, Excelência, perfeitamente.

- Acredito que o senhor não teve pena do infeliz, pois não?

- Fiz o melhor possível, Excelência.

A conversa ficou aí. Em seguida, porém, soube-se que um pastor havia sido castigado, mas que, no entanto, houvera um engano de endereço, e que Paulo havia recebido o que devia ser para Pedro. A notícia correu rápida e todo o mundo zombava de Panka. Petroucha, contudo, não foi punido.

- Ora, diziam - já que este bobo pagou por ele, acabou-se. Não se deve castigar duas vezes a mesma falta.

Agora me digam vocês se Panka era ou não um grande bobo!

E toda sua vida foi assim.

Alguns anos mais tarde veio a guerra da Criméia. Os recrutas foram levados e na vila só se fazia chorar: ninguém queria ir lutar, e as mães, sobretudo, estavam desoladas. Afinal, qual a mãe que não tem um pouco de piedade de seu filho?

Panka, porém, que alcançara, então, a maioridade, procurou o seu senhor:

- Meu senhor, disse ele, eu queria que me conduzisse à cidade para que eu me pudesse alistar.

Volta para Prosa Russa