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Livraria Luar de Outono


ELISA LUCINDA

O Poema do Semelhante

						O Deus da parecença
que nos costura em igualdade
que nos papel-carboniza
em sentimento
que nos pluraliza
que nos banaliza
por baixo e por dentro,
foi este Deus que deu
destino aos meus versos,

Foi Ele quem arrancou deles
a roupa de indivíduo
e deu-lhes outra de indivíduo
ainda maior, embora mais justa.

Me assusta e acalma
ser portadora de várias almas
de um só som comum eco
ser reverberante
espelho, semelhante
ser a boca
ser a dona da palavra sem dono
de tanto dono que tem.

Esse Deus sabe que alguém é apenas
o singular da palavra multidão
É mundão
todo mundo beija
todo mundo almeja
todo mundo deseja
todo mundo chora
alguns por dentro
alguns por fora
alguém sempre chega
alguém sempre demora.

O Deus que cuida do
não-desperdício dos poetas
deu-me essa festa
de similitude
bateu-me no peito do meu amigo
encostou-me a ele
em atitude de verso beijo e umbigos,
extirpou de mim o exclusivo:
a solidão da bravura
a solidão do medo
a solidão da usura
a solidão da coragem
a solidão da bobagem
a solidão da virtude
a solidão da viagem
a solidão do erro
a solidão do sexo
a solidão do zelo
a solidão do nexo.

O Deus soprador de carmas
deu de eu ser parecida
Aparecida
santa
puta
criança
deu de me fazer
diferente
pra que eu provasse
da alegria
de ser igual a toda gente

Esse Deus deu coletivo
ao meu particular
sem eu nem reclamar
Foi Ele, o Deus da par-essência
O Deus da essência par.

Não fosse a inteligência
da semelhança
seria só o meu amor
seria só a minha dor
bobinha e sem bonança
seria sozinha minha esperança"


*

SEM TELEFONE MAS COM FIO
ILUMINADO O DEUS QUE PATROCINA OS ENCONTROS
ILUMINADO O PONTO ONDE COMBINAMOS NOS ENCONTRAR
O SOL A CACHOEIRA O VENTO
TUDO É PONTUAL SEM SE TELEFONAR
ABENÇOADO O FOGO QUE SOBE PELA ÁRVORE DO CORPO
SEM AVISAR.

*

RECONSTITUIÇÃO

TIVE DE REPENTE
SAUDADE DA BEBIDA QUE ESTAVA BEBENDO
TIVE SAUDADE E TENTEI ME LEMBRAR QUE GOSTO FALTAVA
QUAL ERA A BEBIDA
FUI PROCURANDO ENTRE COPOS E MÓVEIS
E DEI COM SUA BOCA.


*

ESCOLHA

EU TE AMO COMO UM COLIBRI RESISTENTE
INCANSÁVEL BEIJA-FLOR QUE SOU
BATEDORA RENITENTE DE ASAS
VICIADA NO MEL QUE ME DÁS DEPOIS QUE ATRAVESSO O DESERTO.
PINGAS NA MINHA BOCA UMAS GOTAS POUCAS
DO QUE NEM É UMA VACINA.
EU UMA MULHER, UMA AVE, UMA MENINA...
ASSIM CHACINAS O MEU TEMPO DE EREMITA:
QUEBRAS A BENGALA ONDE ME APOIEI, RASGAS MINHAS MEIAS
AS QUE VESTIRAM MEUS PÉS
QUANDO CAMINHEI AS AREIAS.
EU TE AMO COMO QUEM ESQUECE TUDO
DIANTE DE UM BEIJO:
AS INÚMERAS HORAS DESBEIJADAS
OS TERRÍVEIS DESABRAÇOS
OS DOLOROSOS DESENCAIXES
QUE MEU CORPO SOFREU LONGE DO SEU.
ELEJO SEMPRE O ENCONTRO
ELE É O PONTO DE CROCHÊ.
PENÉLOPE INVERTIDA
NADA COMEÇO DE NOVO
NADA DESMANCHO
NADA VOLTO.
TEÇO UM NOVO TECIDO DE AMOR ETERNO
A CADA OLHAR SEU DE AFETO
NÃO LIGO PARA NADA QUE DOEU.
SÓ PARA O QUE DEIXOU DE DOER TENHO OLHOS.
CEGA DO INFORTÚNIO
PESCO OS PEIXES DOS NOSSOS ENCAIXES
AS CONFISSÕES DE AMOR
AS PALAVRAS FUNDAS DE PRAZER
AS ESCULTURAS ASTECAS QUE NOS FIXAM
NA HISTÓRIA DOS DIAS.


*

ME ASSUSTA E ACALMA 
SER PORTADORA DE VÁRIAS ALMAS
DE UM SÓ SOM COMUM ECO
SER REVERBERANTE
ESPELHO, SEMELHANTE
SER A BOCA
SER A DONA DA PALAVRA SEM DONO
DE TANTO DONO QUE TEM.

Mulheres na Literatura
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