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Por ora, seca a goela e amargume, o doer de respirar, como um bicho frechado. A vão querer escapulir, seguir derrota, imundo de vexame. O Ipanemão não consentia, parecia ter-lhe já pulado em cima, às distâncias - aonde que viesse, esse havia de o escafuar - nem lhe valesse o fraquejo. Valia era sossegado morrer... - foi o alívio que propôs-se, suando produzidamente. Ipanemão, cão, seguro em enredo de maldade da cobra grande, dele ninguém se livrava, nem por forte caso. O mais era com a noite - isto é, os abismos, os astros. Joãoquerque prostrou-se, como um pavio comprido.

Estava deitado de costas, conforme num buraco, analfabeto para as estrelinhas. Foi nesta altura que ele não caiu em si. Tenho tempo, se disse. Teve o esquecimento, máquinas nos ouvidos.

Veio-lhe a Mira à mente; embuçou a idéia. Via: quem vivia era o Ipanemão, perseguindo-o a ele mesmo, Joãoquerque, valentemente. Até os grilos silenciavam. O silêncio pipocava. As corujas incham os olhos. Diabo do inferno! - se representou, sem ser do jeito de vítima. Remedava de ele próprio se ser então o Ipanemão, profundo. Tudo era leviano, satisfeito desimportante. O medo depressa se gastava? - caíra nas garras do incompreensível. Então, se levantou, e virou volta.

Do mais, enquanto, muito não se sabe.

Joãoquerque remontava o quintal, desatento a tudo, mas de cauteloso modo: o sapo deu mais sete pulos: se arrastava com fiel desonra. Não à porta da cozinha, à casa, senão que à longa mão direita, renteava o outro quintal, para o beco. Frouxos latiam uns cachorros.

Diante, o galinheiro velho; e ele, ali, de palpa treva. Tirou risco o fino de alguma luz: em machado, encostado, talvez até enferrujado terrível. Ele não podia pegar em nada, pois com cerrados os punhos, diabo-do-inferno! E o pé que continuou no ar. O machado, tal, para tangimento, relatado em sua razão.

E, então, que então, o que nenhuma voz disse, o que lhe raiou pronto no ânimo. Mais já não parava assim, em al, alhures, alheio, absorto, entrado no raro estado pendente, exilando-se de si. Por modo de não hábito, pegou o machado. Diabo do Céu!... - queria dar um assovio. A noite repassava escuro sobre escuros. Caminhou, catou adiante.

Com firme indireção, para maior coragem, pés de lobo. Como se fosse, diabo-do-céu!, brincar de matar, de verdade, o chão na base do passo. Passou-lhe o nada pela cabeça. Na rua, à vista de Deus e de todo-o-mundo - cometeu-se. O resto, em parte, é contado pelos outros.

De que o Ipanemão lá dentro não se achava, mas, com mais dois, defronte da casa, acocorado, à beira de foguinho, bebia e assava carne, sanguinaz, talvez sem nem real idéia de bulir com a Mira. Ou se distraía como o gato do rato, d'ora-a-agora.

Desreconheceram o vindo Joãoquerque, por contra que tanto sabido e visto. Mais o viam desvirado convertido.

Foi aliás de modo imoderado, que ele se chegou, rodeando um perigo, com cara de cão que não rosna, em sua covarde coerência: no não querer contenda. Saudou, parou, pasmoso, como um gesto detém a orquestra inteira.

Diz-se que era o dia do valente não ser; ou que o poder, aos tombos dos dados, emana do inesperado; ou que, vezes, a gente em si faz feitiços fortes, sem nem saber, por dentro da mente.

Ipanemão pendeu o rosto, desditado, os instantes hesitosos; aí foi revirando, rodou-se, mesmo agachado, de moventes cócoras - pondo-se inteiro de costas para o outro, do qual a esquivar olhar e presença.

Joãoquerque, porém, o rodeou, também, lhe pediu - Olhe! - baixo, e, erguendo com as duas mãos o machado, braz!, rachou-lhe em duas boas partes os miolos da cabeça. Ipanemão, enfim, em paz. Até aquele dia ele tinha sido imortal; perdeu as cascas. Os outros, viu-se, nem de leve fugiram, gritaram somente por misericórdias, consoante não deviam proceder.

Joãoquerque se sentou, fez porção de caretas. Nunca aprendera a não cuspir, não podia mais com tantas causas. Quer que dizer: os pés no chão, a mão na massa, a cabeça em seu lugar, os olhos desempoeirados, o nariz no que era de sua conta.

O padre e Mira, dali a dois meses, o casaram. Conte-se que uma vez.

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De: Tutaméia
Editora Nova Fronteira, 1985.
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