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Estória n. 3 Guimarães Rosa
Conta-se, comprova-se e confere que, na hora, Joãoquerque assistia à Mira frigir bolinhos para o jantar, conversando os dois pequenidades, amenidades, certezas. Sim, senhor, senhora, o amor. Cercavam-nos anjos-da-guarda, aos infinilhões. E estrondeou aí foi então do pacato do ar o: - Ô de casa! - varando-a até à cozinha onde sobreditamente se fitavam Joãoquerque e Mira, que tremeram tomando rebate. Ô! Renovou-se abrupto o brado, esmurrada a porta, ouvida também correria na rua, após estampido de arma, provável à boca do beco. Mira deixando cair a escumadeira trouxe ante rosto as mãos, por ímpeto de ato, pois já as retorcia e apertava-as contra os seios; sozinha ela residia ali, viúva recém, sem penhor de estado nem valedio pronto. Joãoquerque encostou o peito à barriga, no brusco do fato, mesmo seu nariz se crispou meticuloso. Porque a voz era a do vilão Ipanemão, cruel como brasa mandada, matador de homens, violador de mulheres, incontido e impune como o rol dos flagelos. De que assim lhes sobreviesse, mediante o medonho, era para não se aceitar, na ilusão, nesses brios. Mas o destino pulava para outra estrada. Mira e Joãoquerque e Ipanemão cada qual em seu eixo giravam, que nem como movidos por tiras de alguma roda-mestra. Deus meu, maior mal à maior detença ou a subiteza, a, a, a, o Ipanemão! dele era o que se passava, dono das variedades da vida, mandava no arraial inteiro. Mira via o instante e adiante, desenhos do horror: até hoje por isso não pode deixar de querer ainda mais, com históricos carinhos, o seu hoje mais que amante, Joãoquerque, avergado homenzarrinho, que ora se gelava em azul angústia, retornados os beiços, mas branco de laranja descascada, pálido de a ela lembrar os mortos. Ele - o nada a se fazer - pegado pelos entremeios, seus órgãos se movendo dentro do corpo, amarga grossa em fel e losna a língua, o coração a se estourar feito uma muita boiada ou cachoeira. - Pai do Céu! - e o Ipanemão era do tamanho do mundo - repetia, falto de mais alma, no descer do suor. Ia-se o dia em última luz. Onde estava sua cabeça? Agora, porém, portintim, ele a quem queira ouvir inesquecivelmente narra, retintim, igual ao do que os livros falam, e três tantos, Joãoquerque diz tudo. De que primeiro nada pensou, nulo, sem ensejo de ser e de tempo, nem vergonha, nem ciúme, condenado, mocho, empurrado, pois. Mira mesma mandou-o ir-se, com fechado cochicho, salvava-o; em finito tinha-se apagado o fogo, reinava só no borralho o ronrom do gato. Ela se ajoelhara, rezava, com numa mão a faca, pontuda, amolada, na outra o espeto, de comprimento de metro. Teria ele de ganhar o nenhum rumo, para vastidão - Pai-do-Céu! - não se lhe dando de largada cá a Mira, sem porto e paz, podia nem com o vozeiro do Ipanemão, rompedor da harmonia, demoniático. E se debatia já à porta dos fundos, custou-lhe rodar a tramela, no triz de escape. Pôs-se para fora. Pelo escuro quintal corre Joãoquerque, com árvores, diversamente e moitas em incuido, nelas topava ou relava, às tortas de labirinto, traspassoso o quintal que nunca se terminava, se é que só lá em baixo, tão além, na cerca, onde houvesse depois o valezinho de um riacho, Joãoquerque corria e, quase no fim - já desabalado milagre era ele vencer o terreno, não conhecido - derrubou-se: no tentar estacar, entrevendo acolá injustos vultos, decerto de uns dos duros do Ipanemão, mas explicados mais tarde como sendo apenas o touro e as vacas, atrasados noturnos ainda pastando, de Nhõ Bertoldo. Joãoquerque, caído, um pouco se ajuntou, devia de ter quebrado osso, não aventurando apalpar-se, teimava em se esconder mais que as minhocas, deu-lhe voltas a cabeça, os dentes como rato em trapos ou um tremer maleitas, pelo frio, pelo quente, ofegava num esbafo de vertido esforço sob os desapiedados pensamentos. Pior, errava o pensar, que nem uma colher de pau erra o tacho; diz que se esqueceu de tudo nesta vida. Isto é, isso foi depois. |