Livros de e Sobre Fernando PessoaO POETA DO EXÍLIO

Era dentro de um grande baú de madeira que o poeta Fernando Pessoa guardava seus poemas. Alguns foram colocados dentro de envelopes, amarrados com barbantes, outros ficaram soltos. Ali dentro conviviam seus heterônimos todos, desde o mais precoce, Chevalier de Pas, criado quando o poeta tinha seis anos, até o mais convulsivo de todos eles, o poeta que mais gerou tensões dentro de sua obra e de sua vida, o engenheiro Álvaro de Campos. Essa multiplicidade de máscaras que foi pouco a pouco aderindo ao seu rosto, até con fundi-lo, moldou uma das principais obras poéticas desse século. Escrever a biografia de Pessoa é ao mesmo tempo escrever sobre ele próprio e sobre a vida ficcional de cada um desses personagens. Um fio narrativo imbricado. O francês Robert Bréchon se ateve a isso ao pesquisar e escrever Estranho estrangeiro, que acaba de ser lançado no Brasil, com tradução de Maria Abreu e Pedro Tamen. Mais que um biógrafo de Fernando Pessoa, Bréchon se coloca como um comentador de sua obra. Ele não se prende somente aos fatos cronológicos ou a fazer entretenimento de uma vida, como é muito comum nas biografias. Bréchon não é um caseur. Seu livro, com mais de 500 páginas, ocupa um espaço entre o ensaio literário e a biografia. Bréchon tentou compreender o emaranhado fio entre vida e obra e, para isso, lançou mão de todo o material de que dispunha, ou seja, quatro biografias anteriores, textos críticos, como os do importante crítico literário português Eduardo Lourenço, vasculhou cartas, antigas entrevistas de contemporâneos e familiares do poeta, além de se colocar como um arguto observador da foto-biografia de Fernando Pessoa, feita por Maria José de Lancastre, também lançada agora no Brasil. Mesmo nessa tentativa, não temos como não dizer que tudo permanceu emaranhado, já que o próprio biografado criou esse nó para seus leitores. E Bréchon acaba por reconhecer logo no primeiro capítulo: “Toda sua obra é testemunho de ele ter tido consciência aguda dos próprios malogros, de ter sofrido atrozmente por isso”.

 

Essa frase surge como que comprovando que a obra chegava umedecida pela própria experiência e reflexão da vida. Mesmo tendo sido um solitário, certamente Pessoa foi um dos poetas que melhor compreendeu seu tempo e seu país, aprofundou as tensões da modernidade, esfarelando sua própria identidade. E é aqui que a condição de exilado faz mais sentido, já que esse é um sentimento extremamente presente. No caso de Pessoa, os dados biográficos ajudam a ressaltar esse exílio. Há uma procura em toda sua vida de uma pátria, de uma identidade cultural e lingüística, como nos relata Bréchon. Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, em 13 de julho de 1688 (dia de Santo Antônio, padroeiro da cidade). Mas pouco tempo depois, quando ainda tinha cinco anos, seu pai morre. Anos depois, sua mãe se casa com um oficial da Marinha, o comandante João Miguel Rosa, que logo é designado para cônsul de Portugal em Durban. Esses acontecimentos vão marcar profundamente a vida do poeta. Ele vive, como diz seu biógrafo, uma espécie de “afastamento” da mãe. “O que interessaria saber é o papel desse traumatismo afetivo, aos sete anos, no bloqueio da consciência que mais tarde lhe conferirá à obra a tonalidade própria: abstração dos sentimentos e das sensações, plenitude vazia, ausência de si e do mundo, estética do apagamento e da brancura etc.” O que também conta nesse episódio são os seus anos de formação em Durban, na África do Sul, que era, na época, uma cidade inglesa. Pessoa permaneceu em Durban de 1896 a 1904 (nesse entre tempo, permaneceu um ano em Lisboa). Logo o jovem Fernando passa a ser bilíngue, escrevendo basicamente em inglês. Boa parte de sua referência literária acaba sendo inglesa. Nasce nessa época o seu segundo heterônimo. O primeiro, ainda aos seis anos, tinha sido Chevalier de Pas, um francês com quem se correspondia; o segundo é Alexander Search que, de acordo com Bréchon, será o precursor de todos os outros: “Ao lermos esses textos em verso e em prosa, todosevidentemente escritos em inglês, apercebemo-nos de que Pessoa, dos quinze aos vinte anos, situou na consciência semi-fictícia de Search e na sua obra, bem real, a experiência espiritual tempestuosa vivida nessa 'curva da estrada' da sua vida de homem, essa luta com o Anjo cujo duplo (Alexander Search) sai por fim vencido, para que ele mesmo, Pessoa, possa extrair sua satisfação e transpor um limiar, passar a outra etapa da iniciação poética.”

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