Esse ritual de iniciação poética o
prepara para seus grandes heterônimos: Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e
Bernardo Soares, do Livro do desassossego (livro que contém a escritura de uma
vida, pois Pessoa nunca o concluiu, já que ia escrevendo-o como quem escreve um diário).
Essa coterie, como chamava Pessoa, surge quase que de uma tacada só, no famoso
dia triunfal, ou seja, 8 de março de 1914, quando nasce, numa
noite, a obra de Alberto Caeiro. Em poucos anos, ele terá escrito o essencial do Guardador
de rebanhos, grande parte das Odes de Reis e muitas das grandes Odes de
Campos. Pode-se dizer que a partir desse momento o projeto de Pessoa ganha corpo.
Desde sua chegada definitiva a Portugal, em 1905, o poeta foi aos poucos se interessando
pela vida portuguesa, embrenhando-se nas questões históricas e políticas (assunto que o
perseguirá durante toda sua vida) e readquirindo sua língua de origem para se tornar o
segundo grande poeta da língua depois de Camões. Em 1915, prepara com seus amigos Mário
de Sá-Carneiro e Almada Negreiros a revista Orpheu, que marca o início do modernismo
português. Paralelamente às atividades literárias, vai tocando seu trabalho de
correspondente comercial em línguas estrangeiras, já que domina tanto o inglês quanto o
francês. Seu apego ao país reencontrado se dá com grande força por meio da reconquista
da língua. Deixou esboçado alguns projetos como um tratato intitulado Defesa e
ilustração da língua portuguesa, um Dicionário ortográfico, prosódico e
etimológico da língua portuguesa, além de fragmentos sobre ortografia, sobre
língua falada e escrita. A certa altura de sua vida, quando se volta ao
sebastianismo e à concepção profética do Quinto Império,
Pessoa acredita que Portugal, com a língua por tuguesa, será um dos pilares do mundo. |
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É de suas pesquisas e leituras, como a que fez de padre António
Vieira, que virá a famosa frase, hoje repetida até numa canção de Caetano Veloso,
minha pátria é minha língua. Esse mergulho lingüístico vem acompanhado de
uma rigorosa releitura da literatura portuguesa. Procura, então, uma unidade dentro dessa
literatura, lendo Camões, Garret, Antero de Quental, Antônio Nobre e Guerra Junqueiro.
Mas acabou recebendo influências marcantes, na juventude, de poetas como Cesário Verde e
Teixeira Pascoaes. Outro foco de suas preocupações é a política. Bréchon salienta que
Pessoa, desde sua volta definitiva a Lisboa, teve um interesse simultaneamente
divertido e apaixonado pela política portuguesa. Como muito de sua obra, escreveu
milhares de páginas destinadas a livros que nunca acabou como Da ditadura à
república, Considerações post-revolucionárias, República e
monarquia. Quando da queda da monarquia em 1910, ainda não tinha a visão nítida e
exaltada que terá depois. Várias vezes voltou ao tema, tentando compreender esse
período histórico. Portugal passará por um momento conturbado após a instalação da
República, passando por várias agitações internas, greves, uma sucessão de governos.
Para Bréchon, "não há dúvida de que ele participou dessa espécie de psicose
coletiva que é a espera irracional de um Salvador. Julgou tê-lo encontrado, em 1917, em
Sidônio Pais". Mas esse D. Sebastião logo será assassinado. Foram mais alguns
períodos de agitação e novas tendências de ditadura até que o prof. Oliveira Salazar
"impõe, em várias etapas, seu poder absoluto: superministro das Finanças em 1928,
presidente do Conselho em 1932, fundador em 1933 do Estado Novo, inspirado no modelo
fascista". E Pessoa, nesse imbroglio político, que posições vai tomar. Como lembra
Bréchon, será sempre controverso: foi da expectativa benevolente à oposição
irredutível. 
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