Aqui, Bréchon lembra de um episódio que marcou seu último ano de vida. Em 1935, ele publica um “violento” panfleto contra a proposta de um deputado salazarista de proibir as sociedades secretas. Nesse documento, Pessoa toma a defesa da Franco-Maçonaria. É violentamente atacado pela imprensa e, assim, rompe com o salazarismo. Ainda antes de morrer, escreve sobre si mesmo: “conservador do estilo inglês, isso é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti- reaccionário”. A vida amorosa do poeta também merece mais de um capítulo de Bréchon. Não que ele tenha tido de fato uma vida amorosa. Pessoa era um homem tímido, mais para o calado do que para o conquistador, e esse capítulo, dentro de sua vida, foi um fiasco. Enamorou-se da jovem Ofélia Queiroz, que conhecera como estagiária em um dos escritórios em que trabalhava. Passou a freqüentar assiduamente o lugar e lhe fazia gracejos. Acabaram por desenvolver uma correspondência da qual temos hoje somente as cartas do poeta – e são ridículas, como Álvaro de Campos escreveria depois, sem culpa. E é curioso notar, na biografia de Bréchon, como Álvaro de Campos acabou sendo o grande vilão dessa história. "Às vezes, conta a própria Ofélia, Pessoa apresentava-se diante dela como sendo Álvaro de Campos. “Portava-se, nessas alturas, de uma maneira totalmente indiferente. Destrambelhava-se, dizendo coisas sem nexo.” Numa de suas crises, resolve acabar com essa aventura. “O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam”, escreveu. Depois desse rompimento, houve uma recaída, muitos anos depois, mas também infrutífera. Como diz Bréchon, “o amor e a poesia não convivem no mesmo espaço nem no mesmo tempo. Pessoa escolheu: não o amor, mas a poesia”. A leitura das 500 páginas desse livro dá a impressão de uma estranha vida em exílio, onde não houve espaço para a afetividade, onde muito se fez em frustração do homem. Na juventude, ele quis ser um poeta inglês, mas seu destino tinha de ser português. E não só: graças a ele, Lisboa tornou-se uma cidade literariamente tão importante quanto Paris. Criou um mundo ao mesmo tempo ligado às questões políticas e sociais do seu tempo e distante da vida social (não que fosse um eremita, ia aos bares, mas preferia sempre ficar calado e observando). Habitou e foi habitado por seus heterônimos, criando, assim como Sexta-Feira foi o outro para Robinson Crusoé em sua Ilha da Desolação, um estranho diálogo ficcional e real entre seus poetas (alguns críticos chegaram a contabilizar setenta e dois heterônimos). Para Pessoa, parece que os fatos do mundo exterior serviram de matéria para a criação de uma identidade difícil de ser encontrada e que deixou na alma um exílio na alma, aquele exílio no meio da multidâo, em que se tenta captar o sentido de tudo, como se tudo não fizesse sentido ou fosse um sonho.

 

Heitor Ferraz

jornalista e poeta, autor de Resumo do dia (Atelie Editorial) e A mesma noite (Sette Letras)

Revista Cult n.18 jan/99

Sobre a reedição dos livros de Fernando Pessoa

Livros de e sobre Fernando Pessoa