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Além da biografia escrita por Robert Bréchon e da fotobiografia feita por Maria José de Lancastre, Fernando Pessoa reaparece no centro do mundo editorial brasileiro por força da reedição de suas obras pela editora Companhia das Letras. Ao todo serão 23 livros, dos quais os dois primeiros são Mensagem e Ficções do interlúdio. Está prevista também a publicação de vários inéditos – que incluem cartas do poeta, textos de heterônimos praticamente desconhecidos e incursões dos heterônimos por gêneros inusitados (caso da prosa de Álvaro de Campos). Essa reedição está marcada por um contexto mais amplo: a decisão da União Européia (à qual pertence Portugal) de redefinir para 70 anos após a morte do autor o prazo pelo qual uma obra cai em domínio público. Assim, os direitos da obra de Pessoa – que morreu em 1935 e cujos escritos vinham sendo publicados livremente desde 1985 – retornaram a seus herdeiros, que cederam a exclusividade sobre seus livros à editora portuguesa Assírio & Alvim (de quem aCompanhia das Letras comprou os direitos de publicação do poeta no Brasil). Tal situação oferece uma grande vantagem: sendo Pessoa um poeta que praticamente não publicou em vida, várias das edições de sua obra apresentam discrepâncias e incorreções em relação aos manuscritos originais, e que agora estão sendo devidamente retificadas pela equipe de especialistas que se encarregam da edição “definitiva” da Assírio & Alvim. Entretanto, existe pelo menos um aspecto polêmico nesse trabalho – especialmente no que diz respeito a Mensagem, único livro em português que o poeta (que também escrevia em francês e, sobretudo, em inglês) publicou em vida, além de poemas e ensaios que apareceram esparsamente em revistas literárias e jornais. As obras sofreram uma atualização ortográfica, que é um procedimento editorial corriqueiro e desejável. Porém, no caso de Mensagem – livro de 1934 que expressa um nacionalismo místico- profético em relação a Portugal e à língua portuguesa –, Fernando Pessoa recorre a vários arcaísmos lingüísticos que remetem a suas leituras da tradição literária lusitana e que foram perdidas pela atualização ortográfica. Assim, ao escrever a palavra “mito” (num dos muitos exemplos apontados pelo poeta Frederico Barbosa, que chamou minha atenção para o problema), Pessoa grafa “mytho” – forma e que não correspondia à ortografia de sua época e que revela sua intenção arcaizante. Atualizando todos os versos de Mensagem segundo padrões correntes, o organizador do volume, Fernando Cabral Martins, acaba por eliminar o contraste entre a escrita do tempo de Pessoa e aquela, anterior, que ele queria recuperar. Com isso, as referências aos sebastianistas (Padre Vieira e o sapateiro Bandarra, que profetizavam o retorno do rei D. Sebastião, desaparecido nas Cruzadas) são reduzidas a citações temáticas e desaparecem da superfície da escrita – e da poética – de Fernando Pessoa, vedando ao leitor uma fundamental via de interpretação de sua obra.

Manuel da Costa Pinto - Revista Cult n.18 jan/99

Livros de e sobre Pessoafpsetas.gif (1788 bytes)As Pessoas do Pessoa