Franceses
Henri Michaux
Paul Geraldy
Henri Michaux
Um dia.
CLOWN, derrubando na risada, no grotesco, na gargalhada, o juízo que contra toda luminosidade
Um dia, breve talvez.
Um dia eu arrancarei a âncora quem mantém meu navio longe dos mares.
Com aquela espécie de coragem necessária para ser nada e nada e nada,
eu me desprenderei daquilo que me parece estar indissoluvelmente próximo.
Eu o talharei, eu o derrubarei, eu o quebrarei e o farei degringolar.
Vomitarei meu miserável pudor, meus miseráveis arranjos e acorrentamentos "de fio na agulha".
Esvaziado do abcesso de ser alguém, beberei novamente o espaço nutritivo.
Por ridículo, por degradação (o que é degradação?), por explosão, por vazio,
por uma total dissipação irrisão purgação, expulsarei de mim a forma
que se acredita muito bem atada, composta, coordenada, harmonizada ao
meu séquito e aos meus semelhantes, tão dignos, tão dignos, meus semelhantes.
Reduzido a uma humilde catástrofe, a um nivelamento perfeito como após um intenso medo.
Reconduzido aquém de toda medida ao meu verdadeiro lugar, ao lugar
ínfimo do qual não sei que idéia ambição me fez desertar.
Aniquilados o orgulho e a estima.
Perdido em um local distante (ou não), sem nome, sem identidade.
eu fiz para mim mesmo de minha impaciência.
Eu mergulharei.
Sem bóia no espírito-infinito subjacente aberto a todos, aberto eu mesmo
a um novo inacreditável orvalho
à força de ser ninguém
e raso...
e risível...
Tradução: Lenilde Freitas
DESPEDIDA
Paul Geraldy
De modo que então, adeus. Não esqueces nada?
Bem, olha-me agora, amiga minha;
Nos havíamos as vidas entregado
Assim é que vais entrar em meu passado.
Nosso grande coração, que pequeno era!
Tu não podes sair assim chovendo.
Bom, vá... Podemos nos despedir.
Já não temos nada que dizer-nos?
Eu deixo, podes ir... Ainda não, espera,
espera ainda:
que pare de chover... Espera um pouco.
E sobretudo, vá bem abrigada,
pois já sabes o frio que faz ali fora.
Um abrigo de inverno é o que teria
que vestir... De modo que te devolvi tudo?
Não tenho nada teu?
Tomaste tuas cartas, teu retrato?
pois que enfim, um de nós vai despedir-se.
Vá! não tens que te afligir;
Vamos! não tens que chorar, que tolice!
E que esforço tão grande
necessitam fazer nossas cabeças,
para poder imaginar e nos ver
outra vez os amantes
aqueles tão rendidos e tão ternos
que havíamos sido antes!
para sempre, um ao outro, inteiramente,
e aqui que agora nós as devolvemos,
e tu vais me deixar e eu vou te deixar,
e logo partiremos
cada qual com seu nome, por seu lado...
Recomeçar... vagar...
viver em outra parte...
Certamente, no princípio sofreremos.
Porém logo virá piedoso olvido,
único amigo fiel que nos perdoa;
e haverá outra vez em que tu e eu tornaremos
a ser como fomos,
entre todas as outras, duas pessoas.
E hei de ver-te na rua de longe,
sem cruzar, para falar-te, na outra calçada,
e nos afastaremos distraídos
e passarás ligeira
com trajes para mim desconhecidos.
E estaremos sem nos ver longos meses,
e esquecerei o sabor de tuas carícias,
e meus amigos te darão notícias
"daquele amigo teu".
E eu à minha vez, com ansia reprimida
pelo mau fingido orgulho,
perguntarei pela que foi minha estrela,
e ao referir-me a ti, que era minha vida,
a ti, que era minha força e minha doçura,
direi: como vai aquela?
nossos muitos propósitos, que poucos!
E contudo, estávamos tão loucos
no princípio, naquela primavera.
Lembra-te? A apoteose! O encanto!
Nos amávamos tanto!
De modo que nós - ainda nós -
E isto era aquele amor? Quem acreditaria!
quando de amor falamos
somos como os outros?
Eis aqui o valor que damos
à frase de amor que nos comove.
Que desgraça, Deus meu, que sejamos
o mesmo que são todos! Como chove!
Vamos! fica, olha, eu te rogo,
já trataremos de entendermos logo.
Faremos novos planos,
e mesmo que o coração tenha mudado,
quem sabe reviverá o amor passado
ao encanto de velhos gestos.
Faremos o possível;
me comportarei bem. Tu serás boa.
E logo... é incrivel,
cada um tem seus costumes; a corrente
chega às vezes a ser necessidade.
Senta-te aqui, meu bem:
recordarás junto de mim teu fastio,
e eu perto de ti minha solidão.
Tradução: Zelia Tellaroli N. Zamora
|
|