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Ter
de acreditar
Carlos Castañeda
- Lembra-se da história que você me contou uma vez a respeito
de uma amiga sua e os gatos dela? - perguntou, com displicência.
Ele olhou para o céu e encostou-se no banco, esticando as pernas.
Pôs as mãos atrás da cabeça e contraiu os músculos
do corpo todo. Como acontece sempre, seus ossos estalaram alto.
Ele se referia a uma história que eu lhe contara um dia sobre
uma amiga minha que encontrou dois gatinhos quase mortos dentro de uma
secadeira, numa lavanderia automática. Ela os reanimou, e, com
muitos cuidados e ótima alimentação, criou-os até
eles virarem dois gatos gigantescos, um preto e um
avermelhado.
Dois anos depois ela vendeu a casa. Como não podia levar os gatos
e não conseguisse encontrar outro lar para eles, nas circunstâncias
só o que podia fazer era levá-los para uma clínica
veterinária e sacrificá-los.
Ajudei-a a levá-los. Os gatos nunca tinham entrado num carro; da
procurou acalmá-los, mas eles a arranharam e morderam, especialmente
o avermelhado, que ela chamava de Max. Quando afinal chegamos à
clínica, ela levou primeiro o gato preto; pegando-o no colo, e
sem dizer uma palavra, ela saltou do carro. O gato brincou com ela, dando-lhe
patadas delicadas enquanto ela abria a porta de vidro
para entrar na clínica.
Olhei para Max; ele estava sentado no banco de trás. O movimento
de minha cabeça deve tê-lo assustado, pois ele pulou para
debaixo do assento do motorista.
Fiz o assento deslizar para trás. Não queria pôr a
mão embaixo, de medo que o gato me mordesse ou arranhasse minha
mão. O gato estava deitado dentro de uma depressão no fundo
do carro. Parecia muito agitado, sua respiração, ofegante.
Ele olhou para mim; nossos olhos se encontraram e fui dominado por uma
sensação de opressão. Alguma coisa se apoderou de
meu corpo, uma forma de apreensão, desespero, ou talvez constrangimento
por tomar parte no que estava ocorrendo. Senti uma necessidade de explicar
a Max que a decisão fora de minha amiga, e que eu só a estava
ajudando. O gato ficou me olhando como se entendesse minhas palavras.
Olhei para ver se ela já vinha de volta. Eu a via através
da porta de vidro. Ela estava falando com a recepcionista. Meu corpo teve
um choque estranho e automaticamente abri a porta do carro.
"Corra, Max, corra!", disse eu ao gato. Ele saltou para fora
do carro e deu uma corrida para o outro lado da rua, o corpo rente ao
chão, como um autêntico felino. Aquele lado da rua estava
vazio; não havia carros parados e eu via Max correndo, junto à
sarjeta. Ele chegou à esquina de uma grande avenida e depois se
meteu por um cano de esgoto.
Minha amiga voltou. Contei-lhe que Max tinha fugido. Ela entrou no carro
e nós fomos embora sem dizer uma palavras.
Nos meses que se seguiram, o incidente passou a ser um símbolo
para mim. Imaginei, ou talvez tivesse visto, um brilho estranho nos olhos
de Max quando olhou para mim antes de saltar do carro. E acreditei que
por um momento aquele bichinho de estimação, castrado e
obeso e inútil, tornou-se um gato.
Eu disse a Dom Juan que estava convencido de que, quando Max correu para
o outro lado da rua e mergulhou no esgoto, o seu "espirito de gato"
estava impecável, e que talvez em nenhum outro momento de sua vida
o seu "gatismo" fora tão evidente. A impressão
que o incidente deixou em mim foi inesquecível.
Contei a história a todos os meus amigos; depois de contá-la
e recontá-la, minha identificação com o gato tornou-se
muito agradável.
Achei que eu era como Max, mimado demais domesticado em muitos sentidos,
e no entanto não podia deixar de ,pensar que havia sempre a possibilidade
de um momento em que o espírito do homem poderia apossar-se de
todo o meu ser, assim como o espírito de "gatismo" se
apossou do corpo flácido e inútil de
Max.
Dom Juan gostara da história e tecera alguns comentários
sobre ela. Dissera que não era assim tão difícil
deixar que o espírito do homem fluísse e se apossasse; mas
que mantê-lo era coisa que somente um guerreiro poderia fazer.
- O que é que tem a história dos gatos? - perguntei.
- Você me disse que acreditava que se está arriscando, como
Max - disse ele.
- Acredito nisso, sim.
- O que estive tentando dizer-lhe é que, como guerreiro, você
não pode simplesmente acreditar nisso e deixar a coisa correr.
Com Max, ter de acreditar significa que você aceita o fato de que
a fuga dele pode ter sido uma explosão inútil. Ele pode
ter saltado para o esgoto e morrido instantaneamente. Pode ter-se afogado
ou morrido de fome, ou pode ter sido devorado pelos ratos. Um guerreiro
considera todas essas possibilidades e depois resolve acreditar de acordo
com suas predileções íntimas. Como guerreiro, você
tem de acreditar que Max conseguiu salvar-se, que ele não apenas
fugiu, mas que manteve seu poder. Você tem de acreditar nisso.
Digamos que sem essa crença você nada tem. A distinção
tornou-se muito clara. Achei que eu realmente tinha preferido acreditar
que Max sobrevivera, sabendo que ele estava levando a desvantagem de
uma vida inteira de mimos e bons tratos.
- Acreditar é fácil - continuou Dom Juan. - Ter de acreditar
é outra coisa. Neste caso, por exemplo, o poder lhe deu uma lição
esplêndida, mas você preferiu só usar a metade dela.
Se você tem de acreditar, porém, tem de utilizar o fato todo.
- Entendo o que quer dizer - disse eu.
Meu espírito estava num estado de lucidez e achei que estava entendendo
os conceitos dele sem esforço algum.
- Acho que você ainda não entendeu - disse, quase cochichando.
Ele me ficou fitando. Sustentei seu olhar por um momento.
- E o outro gato? - perguntou ele.
- Hem? O outro gato? - repeti, involuntariamente.
Eu esquecera a respeito. O meu símbolo girava em tomo de Max. O
outro gato não me interessava.
- Mas interessa, sim! - exclamou Dom Juan, quando exprimi meus pensamentos.
- Tem de acreditar significa que você também tem de explicar
o outro gato. O que saiu lambendo as mãos que o levavam a sua execução.
Aquele foi o gato que se dirigiu para a morte, confiante, cheio de seus
conceitos de gato. Você acha que se parece com Max, de modo que
já se esqueceu do outro gato. Nem sabe o nome dele. Ter de acreditar
significa que você tem de considerar tudo, e antes de resolver que
você se parece com Max, você deve considerar que pode parecer
com o outro gato; em vez de fugir para salvar a vida e se arriscar, pode
estar caminhando feliz para seu destino, cheio de seus conceitos.
Escritor: Carlos Castañeda.
Trecho retirado do livro: Porta para o Infinito.
Editora Record.
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