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Num canto o pai sorria, meio demente e paralítico. Eu fiz então um pequeno gesto, talvez de aquiescência. Porque somos como as árvores, presos a um lugar, respirando através de uma lei calma e perene. Toda a gente aqui está sentada – murmuro sem eles compreenderem, eles dois, já mortos. Ou quase, quase mortos no sangue alcançado pelas muitas corrupções do tempo, no rosto fixo, no olhar hesitando entre a idiotia e a tristeza. Sobretudo nisso que era como uma onda forte e fluida, e depois súbita: a beleza. Tudo quanto poderiam ter inventado já o não será – penso agora, em pé defronte das cadeiras deles, procurando entender essa herança docemente mesquinha, as tramas familiares, um espírito difuso e inevitável. Poderoso. A casa. Mas a força sombria do envelhecimento já tudo atravessara. Estavam ali os pais: raízes exaustas. Presos a vácuos sinais exteriores de onde pareciam tirar a sua razão. Era o quarto com a mesa oval, e o tempo oco onde tudo se encontrava colocado desde sempre, para sempre. Eu tentava meter-me dentro do labirinto, e declarei: – Estou
de volta. E o pai sorria estupidamente e abanava a cabeça. A mãe parecia escutar o rumor de uma água irreal correndo ali mesmo.
– Pois voltaste.
Também sorria, muito sentada, completamente velha.
– Voltaste. Voltaste.
Não quer dizer nada. Nada de concreto nem significativo. Trata-se de
um deserto com alusões a não se sabe que riqueza ou plenitude supostas – ardor desiludido, vontade veemente mas céptica de alegria. O sentimento, de que esta imagem é a projecção fantástica e invertida, alimenta uma alma num ponto qualquer do mundo. A cabeça do homem parado frente à estação de caminho de ferro enche-se com as novas mertáoras, e a geografia é uma compósita massa de coisas – coisas vivas por fora: uma língua estrangeira, ou género de arquitectura, ou modo de vestir, ou tipo de alimentação, ou a matéria descentrada das pequenas aventuras, muito rápidas para terem uma alma sua. A casa é como uma escrita onde as palavras se motivam e desenvolvem por si próprias e as metáforas se geram como animadas extensões da carne, do sangue. O homem comprou o seu bilhete e ei-la a percorrer países como se trouxesse dentro de si, acesa, uma lâmpada – e para ela todo se inclinasse enquanto as cidades, os povos, as línguas, são atravessados, abandonados – eximidos às atenções e tentações da ternura. Assim se perde uma vida, ou serviu ela
apenas para este ganho obscuro: a pureza adquirida na desordem, e
depois a fusão dos dias múltiplos numa única noite originária. Redil. Volta ao redil, e diz: – tresmalhado – com tal sentimento de extravio redimido que um mortificado júbilo pulsa nele como pura vitalidade, celebração comovida – uma grande salvação.
A mãe dobra-se um pouco para diante e tira do cesto da costura o pano e as linhas de um bordado. Começa a trabalhar com uma aplicação inconsciente, um jeito imemorial! – e a cabeça vazia inclina-se também para a urdidura inútil de um emblema, um símbolo: a fácil garantia do mundo. E o coração inclina-se, o coração também horrivelmente vazio. O centro é essa tarefa absurda, a continuação do tempo. A imensa inutilidade de tudo apazigua-me. Sou vil. Paz e vileza: toda a minha vida. Eu também envelheço – penso abruptamente. É primeiro uma dor na raiz do sangue. Depois procura, como se neles houvesse uma verdade oculta, a sabedoria dos pais: os dois monstros. Os olhos loucos e tristes do velho acalmam-me, enquanto a mãe continua a bordar e os seus brancos cabelos repugnantes me enfraquecem até à ternura.
– Mãe – suplico. E a cabeça dela movimenta-se entre os blocos de
luz, para cima, compreendendo por puro tropismo, como uma planta em
direcção ao sol. Compreende mal. Não tenho salvação. Quero morrer
depressa.
– Que é, filho?
Hesito, mas percebo que sei falsificar tudo. Ela é apenas uma velha,
uma mãe já podre.
– Estou contente por ter voltado.
E a mãe recomeça a trabalhar mais depressa, porque o bordado inútil é cheio de utilidade, de sentido.
Mas nada é tão bom para esse equívoco sentimento de plenitude, essa
paragem e retrocesso brusco do tempo, a estupenda pureza reconquistada, como encontrar-se no comboio de regresso. Ele pensa em como esses mesmos caminhos foram percorridos alguns anos antes, em sentido contrário, e agora parece-lhe reconhecer as árvores depois da estação, a casinhota coberta com chapas de zinco vermelho, a ponte rangente, a enorme lâmpada balançando ao vento. Assume as forças e os desígnios que o movem para a cidade antiga, sente-se difusamente fraterno com essa gente que viaja para o mesmo destino. Como uma espécie de remorso, há a lembrança de um quarto nu, lá Ionge num pais estrangeiro. Lá onde esteve quase a morrer de fome. De solidão. Uma vez acordou de madrugada a gritar. Imaginou, num lampejo terrível, qua acabava de enlouquecer. Durante o sono, a solidão passada e presente acumulara-se nele e gerara a loucura. Ainda não enlouqueci. Ainda não – disse em voz alta. – Ainda não enlouqueci. E então começou a amar o pai e a mãe, no outro lado.
O pai encheu o cachimbo e eu cheguei-lhe lume.
– Ainda existe o pessegueiro inglês no quintal?
– Existe, sim. – As mulheres compreendem estas coisas. O velho
abanava a cabeça como um bêbado. Fumava. Estava tudo muito certo.
– Queres que ponha a toalha azul para o jantar? Ou a toalha branca?
Afinal a mãe ainda conseguia ser feliz. Fiquei apavorado. Que hei-de
fazer de toda a minha experiência? Alguém pôs-se a cantar na casa ao
lado. As pessoas sabem cantar. É admirável. Debaixo da canção, minha
mãe recomeçou a bordar. Bordava uma flor imensa em pano cru. Por
dentro, eu estava completamente frio. Ou então, aterrorizado. Só sei que sorri para a minha famí1ia – dois velhos estúpidos e inocentes – cheio de boa vontade. Minha mãe acreditava muito na sua força materna. Eu sorria, e estava frio, ou angustiado. Então a pêndula deu horas, muitas.
– Voltaste. Voltaste.
Que grande aranha, esta mãe velha. As suas patas finas corriam sobre o bordado. Bordaria pelos séculos adiante.