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Faz
uma casinha de papelão, colou à parede. A lagartixa vive lá dentro.
Uma casinha de papelão. As paredes estão repletas de retratos de escritores,
especialmente no quarto amplo, paradas, pesadas e severas. À entrada,
um García Lorca sorri, com o rosto varado de balas, buracos de onde
sai um riso vermelho de sangue. Os olhos de García Lorca observam as
visitas. Tem um sorriso no lábio ferido. Um pôster em branco e preto,
o sangue vermelho. O sangue sempre é vermelho. E os olhos de García
Lorca sempre vão brilhar assim, como nesta manhã de chuva, cheiro de
água, plantas, terra. Todos os cachorros dentro de casa, disputando
um lugar perto dela. As paredes repletas de retratos de escritores,
figuras tiradas de livros, ampliadas, moldura simples. Eles habitam
a casa, a grande casa. Com eles Hilda Hilst fala todos os dias, todas
as noites, madrugadas, todo o tempo. A foto do pai, a foto da mãe. "Meu
pai foi um homem belo", diz observando a foto num porta-retrato
dourado. Hilda Hilst sempre gostou de si mesma, desde criança. "Gosto
muito de mim, quero sempre gostar de mim". Por favor, não tire
fotos minhas. Não quero mais ser fotografada por ninguém". Oferece
uma foto de quando tinha 8 anos, de sua primeira comunhão. "Leve
esta, leve esta. Dá para ilustrar o que você vai escrever". Entrega
a foto: uma criança com luvas brancas segurando um catecismo, o vestido
branco de seda, o véu que lhe cobre as costas, saindo da cabeça. Os
olhos vivos. Não existem olhos mais vivos. A boca perfeita. A foto da
primeira comunhão é uma viagem ao passado de Hilda Hilst, lá onde está
escondida de tudo, lá onde começaram a nascer as incertezas, lá no fundo,
bem no fundo da vida. "Se quer publicar alguma foto que seja esta.
É muito significativa para mim, de um tempo em que eu queria ser santa.
Passava horas rezando, chamando por Deus. As irmãs do colégio interno
diziam que ela não seria uma santa. Mas ela queria ser santa. E as irmãs
diziam então que ela seria santa ou um demônio. Hilda Hilst era fervorosa.
Lia a vida dos santos e ficava impressionada. Tinha predileção especial
por Santa Margarida Maria Alacoque, que nasceu na cidade de L' Hautecour,
Burgundy, na França. Morreu em 1691. Por cinco anos seguidos sofreu
de febre reumática. Recusou-se a casar e em 1671 entrou para o Convento
de Paray-le-Monial. Começou a ter visões de Cris-to, por ele escolhida
para propagar o Sagrado Coração. Os teólogos da época não acreditavam
nas aparições. Mas o povo acreditava. Santa Margarida Alacoque bebia
água dos leprosos. Hilda Hilst mostra um olhar claro mas distante. Como
se estivesse se procurando no fundo de si, no que não existe mais. Ninguém
explica o que é melancolia, depressão. Todos falam, livros falam, doutores
falam, mas ninguém esclarece. Deus fez as pessoas com compreensão das
coisas. Melhor seria se todos fôssemos autistas. Pede que leia em voz
alta alguns poemas de um pequeno livro chamado Bufólicas, que lançou
com o cartunista Jaguar.Sabe todas os poemas de cor. E ri ao ouvi-los.
Não aconteceu nada, Ninguém comentou nada dos poemas feitos com palavras
grosseiras. Um dia Jaguar ligou: "Não falam nada do livro, mas
dizem que parecemos dois velhos que perderam a vergonha". Hilda
Hilst dá de ombros. E ri. Gargalha. A série pornográfica que escandalizou
tanta gente começou com o livro O Caderno Cor-de-rosa de Lori Lamby,
com ilustrações de Millôr Fernandes. Foi, na verdade, um grito de escárnio.Como
se estivesse se defendendo. E mesmo nessa narrativa de absoluto deboche,
ela utilizou palavras de Oscar Wilde como pará-frase: "Todos nós
estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas",
a que Lory Lamby acrescenta: "E quem olha se fode". Há dez
anos Hilda Hilst já revelava o seu estado de espírito em relação à literatura
e ao seu ofício de ser poeta num tempo destruído pela falta de caráter
e pelas mentiras diárias dos donos do jogo literário. Na contracapa
de seu livro Amavisse, junto a uma foto ao lado do editor Massao Ohno,
ela assinou um poema de derradeiras palavras, de quem passou a vida
recolhendo os fragmentos da alma para transformar em poesia grandiosa.
O poema revelava seu destino: "O escritor e seus múltiplos vem
vos dizer adeus". E dentro do poema Amavisse ela repetiu Bataille:
"Sinto-me livre para fracassar". Mais recentemente, o editor
e poeta Fábio Weintraub, da editora Nankin, reuniu alguns poemas e narrativas
de Hilda Hilst no livro Estar Sendo - Ter Sido e também as crônicas
que ela escreveu para o Correio Popular, de Campinas. Na primeira pessoa,
as crônicas parecem distantes da estruturação literária e se elaboram
dascoisas do dia-a-dia, fazendo dela um retrato sem retoques: "Se
você não quiser ser compreendido, fale sempre através de parábolas.
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As
pessoas, em geral, adoram não compreender. Isso não quer dizer que vão
ler teu livro se ele for incompreensível. Mas hão de comprá- lo. É bonito
ter em casa alguma coisa que não se compreenda.(...) Uma das coisas
que mais admiro em alguém é o humor. Nada a ver com boçalidade.(...)
Os poetas são seres irreais, absurdos. Filhos da Quimera, da Ilusão.
Não há nada mais exdrúxulo sobre a Terra do que o Poeta". Tudo
isso deve passar ao esquecimento. Até mesmo as discussões intermináveis
que tinha com editores que teimavam em pontuar seus textos. Diziam especialmente
que ela tinha de usar ponto e vírgula. Hilda Hilst nunca teve ponto
e vír- gula. Não sabe e não quer saber o que é ponto e vírgula. Mas
disso tudo resta uma obra mágica, mediúnica, universal. Uma obra feita
especialmente de poesia, porque afinal a poesia nunca deixará de existir.
Sempre estará presente na vida do homem, da mulher, da criança, dos
bichos, das plantas. Hilda Hilst nunca negará a poesia. Só deixou de
escrever. Não quer mais se debruçar sobre um livro que ninguém lerá.
"Terminei minha obra, estou feliz", ela argu- menta. Os olhos
iluminados sugerem fascinação. São mais que fas- cinação. São absoluto
encantamento. Está feliz. E isso lhe basta. Terminou sua obra. Ah, os
poemas de amor. O poema que diz ter ela elaborado em vão todos os seus
sonhos. A elaboração do nada, da dor. Os olhos infinitos que não pedem
adjetivos. Os cabelos em desalinho. Os retratos nas paredes, todos os
retratos, todas as paredes, olham para ela. Hilda Hilst sorri um sorriso
branco. Um imensosorriso branco. Como se não fosse um sorriso. Como
se fosse o espelho das coisas que construiu. Todas as palavras, os desejos
de sua intimidade. Todos seus acenos possíveis. Todos os acenos que
se perderam. A vida que se perdeu. A voz que pára. Os olhos que observam
as sombras. E essa poesia inatingível. Esse corpo ausente. O gesto que
sumiu. As palavras mortas no canto da boca. Este escritório de livros
antigos e distantes. A literatura de um país sem poesia. Hilda Hilst
sorri. Um gole de vinho do Porto. Guarda as frases, todas as frases.
É inútil continuar falando. As mãos tremem rumos ausentes. Os vidros
molhados das janelas correm fios brilhantes na réstia de sol. Os braços
são longos. Mas não se abraçam mais. Ela rodopia em sua dança. Quer
estar feliz, porque cumpriu o que tinha por missão. Quem afinal vai
ler - citando alguns títulos de poesia - Presságios, Roteiro do Silêncio,
Balada de Alzira, Sete Cantos do Poeta para o Anjo, Trovas de Muito
Amor para um AmadoSenhor, Ode Fragmentária, Cantares de Perda e Predileção,
Júbilo Memória, Noviciado da Paixão, Sobre tua Grande Face, Da Morte,
Odes Mínimas, Alcoólicas, Cantares do Sem Nome e de Partidas? Quem lerá
a ficção de Hilda? E quem se interessará pelas peças de teatro? Um teatro
inédito. É a sensação que dói e abre a ferida de que tudo foi em vão.
Toda obra universal de Hilda Hilst tem pedaços dela marcados em páginas
de absoluta beleza, da poesia como um vaso de porcelana que se põe à
janela à espera da tarde. Num texto antigo, a que deu o nome de O Oco,
ela inicia assim "Agora que estou sem Deus, posso me coçar com
mais tranqüilidade". Em Qadós, outra pista de seu olhar: "Em
direção a muitas mortes, muitas vidas, meu caminho de agora". É
esta mulher de hoje assim mergulhada em si, assim mais para dentro,
como se do avesso. Uma vez se perguntou dentro de um poema: "E
se eu ficasse eterna?". Em outro poema, calou por dentro seu próprio
destino:"Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado/Faria do meu
rosto de parábola/Rede de mel, ofício de magia". Num poema a García
Lorca, ela afirmou: "Ah, se soubesses como ficou difícil a poesia".
Vale para hoje as constatações de tantos anos, do tempo que escorreu
pela face, o rosto transformado, o tempo guardado para sempre no bolso
do casaco, como luas inexistentes que povoam seu espelho. Unioversal,
Hilda Hilst não tem mundo para habitar, senão o desassossego, a inquietação,
esse oceano noturno que sempre bate à janela, visita inesperada. Vivesse
Hilda Hilst num país civilizado, a história seria diferente.
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