Julieta Lima

 

 

Deixa que eu continue a ser uma gaivota

A voar

De asas abertas

Sobre o oceano

Das minhas lágrimas

Deixa que eu continue a ser

Sem estar

Fome sem boca

Ar

Vida sem sopro

Pregoeira do cio

Sem gritos

Sem sexo nem corpo

 

*

 

Vem comigo

Ser pétala

Asa

Mais nada...

Vem

Seguir o vento...

Pousar cantando

No alto de um abeto

Ou de uma casa...

 

*

 

Porque me fascinam as asas?!

Asas...

Movendo-se ritmadas

Sem dono

Nem rumo

Entre o céu e o mar?

Era o que eu queria ser

- Um par de asas -

Sem corpo

Nem rosto

Nem mente

Em vez do monte de penas

Que eu sou

De rastos p'lo chão

Ao sabor do vento.

 

*

 

Ele

Agarra-me os cabelos

Morde-me os braços

Beija-me os dedos

E não me diz nada

Não me toca sequer.

Mas para eu me sentir amada

E me sentir mulher

Bastam-me os seus olhos...

Até que eu solte de mim

O cio da fera

Que ando a mascarar de branca asa

E o arraste por fim

Sem pudor sem roupa

Para a minha casa!

 

*

 

Cheiras a luz

A lua

A maresia

Cheiras a flores

Volúpia e inocencia

De pássaros

Dançando Mozart

Num palco invisivel

Cheiras a vida

A cio

A mato

Fecho os olhos

Sentindo que existes

P'ra lá dos desvarios

Do meu concupiscente olfacto...

 

*

 

Invento-te

Invento-me

Sem formas

Nem cor

Nem perfis

Nem tela!

Nós dois...

Esculpidos

No silêncio de uma praia

Que a anarquia do mar

Afaga e flagela!

Invento-te

Barco transparente

Em indecisos traços

Adivinhando

Ais libidinosos

No sexo da água

Em que me torno

Ousada ondulada bela

A estremecer

Quando de manso

Me rasga capitosa

A volúpia acerada

De uma vela...

 

*

 

Da taça do vento

P'rá taça do tempo

Esvai-se o alento

Em mudo queixume

Para que um poeta

Bêbado sedento

- Mesmo sem querer -

Sorva o desalento

Na taça do tempo

Com lábios de gelo

Em versos de lume!

 

*

 

Raios de calafrios

Sémens metafóricos

Vede o meu ovo estéril,

Abraçai-o!

Loucura ou poesia?

Verdade ou ilusão?

Abraçai-me,

É abril que se aproxima...

- Quero fugir para Maio!

 

*

 

Foi um véu

Ou antes a máscara

Que em todo este tempo

Me cobriu o rosto?

Agora

Ofereço ao vento

As ventas destapadas

E exponho-me

Ao calor de um sol já posto.

Mas sem véu

Nem máscara

Para que seja riso o riso

E choro o choro

E rugas as rugas...

Não! ao inumano esgar

Que me foi imposto!

 

*

 

Meus dedos exaustos...

Meus olhos

Vislumbram

Do tempo

A despedida...

Choro

Com esta raiva

Invertebrada

De não entender

Nada da vida!

A vida

Que sai de mim

Devagar

Como o polén

A  esvair-se das orquideas...

 

*

 

Rodopiei no azul

Espreguicei-me no anil

Emergi do caos

- Pairei sob o teu corpo -

Atenta ao brilho das estrelas

 

*

 

Ó sonhos florindo

Na noite que geme

Na vida que treme

E estremece...

Ah! o abraço da noite

As tramas que tece...

Ó sonhos gemendo

Neste sol tão breve

Em breve - poente -

Logo logo é noite

E voltam os sonhos

Na gente que treme

Nas sombras das árvores

Que fingem ser gente!

 

*

 

O que foi

Que me sobrou da vida?

Uma parede vazia,

Para dependurar

Mentiras emolduradas!

Abro a janela

Para ver

A primavera que passou...

Da vida

Que foi que me sobrou?

Um grande zero

Num rosto perplexo,

Dois olhos de pedra,

Lívidos,

Onde um dia

Cantava uma fonte

Que depois secou...

 

 

 

Volta para
LiteraturaPortuguesa

  back.gif - 888 Bytes

.

Volta para
Mulheres na Literatura