Meu caro, meu dileto,
meu amado meu adorado Lisik!
Aproveito a chegada de Vinokur para escrever uma
carta verdadeira. Tenho desejo, tenho saudade de você
– mas tamanha – que não encontro paz (hoje parti-
cularmente!) e penso somente em você. Não vou à parte
alguma, caminho de um canto a outro, olho no seu
armário vazio, nada pode scr mais triste do que a vida
sem você. Não me esqueça, por Deus, amo-a um milhão
de vezes mais que todos os outros postos juntos. Não
me interessa ver ninguém, não tenho vontade de falar
com ninguém a não ser com você. O dia mais lindo da
minha vida será o da sua chegada. Ame-me, menina.
Não se descuide, descanse, escreva se necessita de algu-
ma coisa. Beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a bei-
jo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a,
beijo-a, beijo-a, beijo-a, beijo-a beijo-a, beijo-a.
Seu
Querido-querido, doce, dileto e amado gatinho criança lis.
Tenho uma selvagem nostalgia de você e uma feroz saudade de todos (por todos vocês?).
Viajo como um louco.
Já declamei em Voronez, em Rostov, Taganrog, ainda em Rostov, Novocerkassk e mais vezes em Rostov;
agora estou em Krasnodar, esta noite mais que declamar, não farei mais que ansiar: suplico aos organizadores que
não me levem para Novorossissk e eles pedem que eu vá também a Sebastopol.
Declamar é um tanto difícil. Recitei versos todos os dias, por exemplo, sábado comecei em Novocerkassk às
oito e meia da noite e terminei à meia-noite e três quartos. Pediram-me ainda para falar às oito da manhã na
universidade e às dez no regimento de cavalaria, mas tive que recusar porque às dez partiria para Rostov e li
de uma hora e meia às quatro e cinqüenta no Rapp, e às cinco e meia nos “ateliês” Lenine; recusar é impossível:
para os operários é grátis!
Também Rostov não é um mar de rosas!
O cronista local me disse, passeando pela rua: “Dizem que o gênio e o mal são incompatíveis, mas aqui em
Rostov fundiram-se ambos”. Traduzido, isso significa que uns meses atrás, em Rostov romperam-se e fundiram-se
os tubos das cloacas e os do aqueduto! Agora, não se pode beber água corrente e a fervida é aconselhável bebê-la
quatro horas depois que se tirou do fogo, pois do contrário – dizem – restam “resíduos”.
Você pode imaginar o que fiz em Rostov!
Bebi “narzan”, com "narzan"(1) lavei-me, limpei-me; até agora ainda sinto pruridos na pele.
Não provei chá e sopas durante três dias.
Essa é a vida dos intelectuais.
Por outro lado, o romantismo sentimental não é muito melhor.
Um só caso romântico e por cima bastante esquisito. Depois da conferência em Novocerkassk, o professor
de Química convidou-me para ir ao seu escritório, ofereceu-me gentilmente vinho das suas uvas, vertendo-o
com proveta e lendo, no entretempo, as suas mais que sexagenárias poesias. Embora o vinho fosse maravilhoso,
não havia nada para mastigar, além dos vários “manganatos” e “anidridos”; bem depressa me embebedei e passei
a dar e a receber beijos do químico amante da poesia.
As provetas são bastante sutis e parece que, se as pusermos simplesmente na mesa, quebram-se; eu o compreendi
logo e recorri ao meu copo liso(2) mas dele só encontrei o estojo; o copo havia sido levado como lembrança para os
estudantes; assim a universidade não sofreu nenhum prejuízo; eu, porém, tenho mais medo de Rostov e estou
inteiramente desarmado.
Será necessário fazer ferver o “narzan” e lavar com ele os pratos; mas como fazer para saber se o narzan ferve ou
não, sendo que ferve sempre e expele bolhazinhas?
É perigoso viver, como diz a escritora Elsa Triolet.
Eis todos os acontecimentos. Você recebeu o dinheiro? Mandei-o pelo correio, para que lhe entregassem
diretamente na cama.
Não sei ainda se irei a Kiev, é necessário, porém não tenho vontade.
Se não for estarei em Moscou domingo ou segunda-feira – mas se eu for – terça ou quarta-feira.
| Não me esqueça, querida, inteiramente seu Cãozinho Beije Oska. |
|