Uma viagem doidona ao mundo do Luar Psicodélico

 

Newton Duarte, mais conhecido como Big Boy, era um radialista, DJ e jornalista fora de série, um visionário, sempre à frente do seu tempo em cada uma dessas atividades. E pode ter certeza: todos nós conectados ao mundo alternativo temos uma dívida e uma ligação com Big Boy.
Não há como deixar de imaginar como seria a rádio no Rio — e, por tabela, nossas vidas — se Big Boy ainda estivesse vivo. Entre os anos 60 e 70, principalmente quando fazia seus programas na Rádio Mundial (AM), ele quebrou a caretice dos locutores da época deitando falação de forma descontraída, usando bordões como “hello crazy people!” e influenciando toda uma geração que viria a seguir.
Além disso, em seus programas, ele tocava não apenas rock (na ocasião, um som quase subversivo), mas também música negra em geral, do funk ao soul. Foi também um DJ influente, tocando em bailes black no subúrbio, ao lado de bacanas como Ademir Lemos e Messiê Limá, todos também falecidos.
Tem mais. Big Boy assinou a maior parte da programação da lendária rádio Eldopop, que fez a cabeça de muita gente nos anos 70, tocando rock (do progressivo ao blues), sem intervalos e locução. E, por fim, ele também assinava uma coluna no GLOBO, sobre música alternativa. Coluna da qual o Rio Fanzine se considera um humilde discípulo.
Ou seja, o cara era o bicho. Que o diga Fernanda Abreu, que incluiu uma fala de Big Boy, sampleada, na abertura de “Baile da pesada” e o citou na letra da música.
— Eu ouvia sempre o programa dele no rádio — conta ela. — Foi graças ao Big Boy que comecei a me ligar em música para dançar. Ele levou a música a outro patamar. Foi uma espécie de Chacrinha do rádio.
Esse mix do Jovem Guerreiro com Lester Bangs, nasceu no primeiro dia de junho de 1943 e morreu no dia 7 de março de 1977, de infarto, sozinho, num quarto de hotel em São Paulo. Lamentavelmente, para alguém tão querido, não há registro ou lembrança do seu trabalho por aí. Nenhuma sala, nenhum museu, nem ao menos um site dedicado a ele.
— Eu lamento profundamente essa lacuna — diz Lúcia Duarte, professora de comunicação e viúva de Big Boy. — Há um enorme material guardado, entre discos, livros e jornais. Já pensamos em uma Fundação Big Boy ou algo parecido. Mas eu tenho que trabalhar e não posso me dedicar integralmente a isso.
Felizmente, isso deve mudar. Leandro Duarte, filho mais novo de Big Boy (ele tinha 8 meses de idade quando o pai morreu), vai se formar em radialismo no fim do ano. Um dos seus projetos é um curta sobre a vida do pai.
— Há o interesse de uma produtora e talvez isso se transforme em um vídeo sobre Big Boy — revela Lúcia.
Não só isso. Negociações entre sua família e uma gravadora podem resultar numa coletânea, com músicas tiradas do acervo de Big Boy, ainda hoje alternativas, tendo sua voz entre as faixas, como se fosse nos seus programas. Legal. Quem sabe isso não inspira as rádios do Rio a descobrir que existe vida além de “Smooth operator”, da Sade?
(Fonte: Jornal O GLOBO)