Eu só enjôo quando olho o mar, me disse a comissária do sea-jet.
Estou partindo com suspiro de alivio. A paixão, Reinaldo, é uma fera que hiberna precariamente.
Esquece a paixão, meu bem; nesses campos ingleses, nesse lago com patos, atrás das altas vidraças de onde leio os metafísicos, meu bem.
Nã queira nada que perturbe este lago agora, bem.
Não pega mais o meu corpo; não pega mais o seu Corpo.
Não pega.
Domingo à beira-mar com Mick. O desejo é uma pontada de tarde. Brincar cinco minutos a mãe que cuida para não acordar meu filho adormecido. And then it was over. Viajo num minibus pelo campo inglês. Muitas horas viajando, olhando, quieta.Fico quieta.
Não escrevo mais. Estou desenhando numa vila que não me pertence.
Nao penso na partida. Meus garranchos são hoje e se acabaram.
"Como todo mundo, comecei a fotografar as pessoas à minha volta, nas cadeiras de varanda."
Perdi um trem. Não consigo contar a história completa. Você mandou perguntar detalhes (eu ainda acho que a pergunta era daquelas cansadas de fim de noite, era eu que estava longe) mas não falo, não porque a minha boca esteja dura. Nem a ironia nem o fogo cruzado.Tenho medo de perder este silêncio.
Vamos sair? Vamos andar no jardim? Por que você me trouxe aqui para dentro deste quarto?
Quando você morrer os caderninhos vão todos para a vitrine da exposição póstuma. Relíquias.
Ele me diz com o ar um pouco mimado que a arte é aquilo que ajuda a escapar da inércia.
Outra vez os olhos.
Os dele produzem uma indiferença quando ele me conta o que é a arte.
Estou te dizendo isso há oito dias. Aprendo a focar em pleno parque. Imagino a onipotência dos fotógrafos escrutinando por trás do visor, invisíveis como Deus. Eu não sei focar ali no jardim, sobre a linha do seu rosto, mesmo que seja por displicência estudada, a mulher difícil que não se abandona para trás, para trás, palavras escapando, sem nada que volte e retoque e complete.
Explico mais ainda: falar não me tira da pauta; vou passar a desenhar; para sair da pauta.
Estou muito compenetrada no meu pânico.
Lá de dentro tomando medidas preventivas.
Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde e grita e não me deixa em paz mas você é meu único tesouro. Então escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto; dorme, dorme.
Eu sou grande, fico acordada até mais tarde.
Quero te explicar isso, te passar este quarto imóvel com tudo dentro e nenhuma cidade fora com redes de parentela.
Aqui tenho maquininhas de me distrair, tv de cabeceira, fitas magnéticas, cartões postais, cadernos de tamanhos variados, alicate de unhas, dois pirex e outras mais. Não tem nada lá fora e minha cabeça fala sozinha, assim, com movimento pendular de aparecer e desaparecer. Guarde bem este quarto parado, com maquininhas, cabeça e pêndulo no coração. Fiz uma penteadeira com Bogart e Bacall, très chic. Pronto, acabei esse assunto de quartinho cultural, mas guarde bem – para mais tarde. Fica contando ponto.
Choro que nem uma desapiedada no melodrama penitenciário. Fico dura com a travessia do deserto por Leslie Caron de freira sexy e Madron imbatível morrendo no final.
Ataque de riso no Paris Pullman numa cena inesperada de Preparem seus Lencinhos – a falação entregando tudo pela mãe do menino que Solange seduziu. Ninguém mais ria, só eu. Dor no corpo. Inglesa chata junto, pai da Vogue, habita Costa Brava. Me lembro da bandeira. Joe anômico, a vida corre, não tem memória ele diz. Alice nice, não gosta de não ser nice. Flutuo como maluca: gosto de mim, não gosto, gosto, não gosto. Tesão pelo Luke no underground. Acalmei bem, me distraí, não penso tanto, penso a te.
Epistolário do século dezenove.
Civilizada pergunto se o seu desenho trai um desejo por cima de todos os outros.
Guarda sim,
mas eu não vejo,
e é por isso que – está vendo aquele lago com patos? não, você não vê daí, da janela da cozinha parece mais outro país – eu faço um pato opaco, inglês, num parque sem reflexo da vitrine que apaga, devagar (circulo sozinha pela galeria), tela a tela, o contorno da cidade; o último quadro está inacabado, ou então é a exposição que acaba de repente; adiante tem o buraco seguinte e é esquisito porque quando eu entrei aqui eu pensei que essa história terminava num cúrculo perfeito.
Passemos.
A técnica que dá certo (politicamente correta) : sentar na Place des Vôges quentando o sol.
Eu sei passar – civilizadamente – mas –
Vim olhando quadro a quadro, cheguei aqui
e não tem ninguém aqui.
Eu tenho certeza que você não pintaria as paredes de preto.
De repente aqui ficou preto, sem mistral, sem instabilidade metereológica.
"Querida,
Hoje foi um dia um pouco instável em Paris.
Recebeu meu primeiro cartão postal?"
(Me dei ao luxo de ser meio tipo hermética, "assim você se expie a um certo deboche", amoroso sem dúvida, na mesa do jantar)
Não dá para ver, eu sei,
mas o meu desenho guarda sim
você
não fala
trai
um desejo pardessus tous les autres,
mesmo nesse penúltimo pato aqui, está vendo, que eu cobri mais um pouco naquele dia em que não gritei de raiva,
tem um por cima de todos os outros,
mas não fui eu que pintei a galeria de preto, basta olhar para mim, você sabe que eu não sou sinistra. Fica o manequim de dentro reflexo do manequim de fora. Se você olha bem, me vê também no meio do reflexo, de máquina na mão.
Eu respondo que não consigo ver.
Saio para a rua e no limite encontro o boulevard iluminado, árabes passando mais espertos, medo da superfície, "saiu o sol aqui em Paris esta tarde depois de algumas chuvas esparsas e nós passeamos muito, beijos, saudades", eu respondo que não consigo ver ainda.
Sentada na escrivaninha do quarto depois de toalete.
Tentei traduzir e não pude muito com aquilo.
Radio One toca Top of the Pops, Do that to me one more time, aqueles sucessos que a Shirley gosta para falar infinitamente no chileno indiferente que eu sempre confundo.
Desisto de escrever carta.
Desenho três patos presos numa loja.
(P.S. para ontem ou reflexos sobre a black box: o espaço incompleto no final da galeria era na verdade claro, aberto por uma clarabóia de vidro branco; na verdade havia uma passagem com três degraus para uma sala um pouco mais acima. O espaço incompleto não escondia nenhuma caixa preta – non, je ne veux pas faire le détective).
Prossigo meu desenho baixando ligeiramente a lâmpada porque a luz do dia escapa pela rua: uma fileira de patos opacos que escorrem pela página grosseiramente, esquecidos de tudo isso.
Imaginei um truque barato que quase que dá certo. Tenho correspondentes em quatro capitais do mundo. Eles pensam em mim intensamente e nós trocamos postais e novidades. Quando não chega carta planejo arrancar o calendário da parede, na sessão de dor. Não, não planejo mais porque agora faço cobrinhas que são filhotes de raiva – são raivinhas que sobem em grupo pela mesa e cobrem o calendário da parede sem parar de mexer. Esses planos e truques fui eu que inventei dentro do trem. "Trem atravessando o caos"? – qual o quê. Chega uma carta da capital do Brasil que diz "Tudo! Tudo menos a verdade". "Os personagens usam disfarces, capas, rostos mascarados; todos mentem e querem ser iludidos. Querem desesperadamente." (Opéra glacé). Quando não chega carta tenho um ódio surdo porque reparo que os correspondentes nas capitais não pensam nela intensamente. Era ao contrário um trem atravessando o countryside da civilização. Era um trem atrasado, parador, que se metia em túneis e nessas horas eu planejava mais longe ainda, planejava levantar uma cortina de fumaça e abandonar um a um os meus correspondentes.
Porque eu faço viagens movida a ódio. Mais resumidamente em busca de bliss.
É assim que eu pego os trens quinze minutos antes da partida. Sweetheart, cleptomaniac sweetheart. You know what lies are for. Doce coração clep tomaniaco.
Pondo na mala de esguelha sobras do jantar, gatos e bebês adoentados. Bafo de gato. Gato velho parado a horas em frente da porta da frente. Qual o quê. Coração põe na mala. Coração põe na mala. Põe na mala.
Chegou outra carta go último quarto de hora. "Escreve devagar e conta a vidinha tipo dia-a-dia e os projetos de volta". Omito exclusivamente para o meu hóspede, intruso das delicadezas, as citações do afeto. Dia-a-dia: entrei num telefone público em Paris; disquei o número do sinal possível de bliss; não estão espondendo, não tem ninguém em casa; vamos imediatamente para a casa de chá da ilha, eu disse para o meu hóspede com uma precisão que só uma mulher. Meu hóspede não percebe minha dor. Flash de sangue em golfada pela boca. Baixo os olhos, evito a tela e como mestre deixo escapar a carta que não mando. Ele não sabe mas meu discurso de hoje à tarde na casa de chá em Paris era a carta para a primeira capital que eliminei. Mas aí, querida, aconteceu o inesperado, ele ficou puto de repente, out of the blue, fez um gesto dramático, chamou a garçonete, pediu água mineral, me fuzilou com o olhar. Eu não sou seu hóspede muito menos. Mas aí ele não teve forças de continuar. Paris tira a força (força de expressão): minha única vantagem no momento. Battle of sexes. Ele perdeu a estamina mas percebeu um truque! A batalha não se trava da seguinte maneira: ele percebeu um truque mas eu também já percebi vários. Então estamos quites. Estou a salvo. No entanto... É esquisito, você entende? No entanto foi ele que me salvou da câmara de horrores da cabine telefônica, com chá, bolinhos, divagações literárias e água mineral depois. Um gesto dramático e sus... ele não desconfia.
Ele está escrevendo um romance parisiense. Como eu chego de viagem com dentes trincados e disfarces de ódio, me prometi que nesse romance não figuro. Que numa sessão de dor arranco o calendário da parede. Que corto de vez essa espera de carteiro. A minha figuração não. Mas ele pobre de mim acho que não peguei direito. Talvez a figurante entre de gaiata, e ai já viu, bau bau meus planos disciplinares no quartinho que não é Paris, nem bliss.
Dear met Miss Brill didn’t now whether to admire that or not!
Fini le voltage atroce.
Fico olhando para o desenho e não vejo nada.
Certains regardant ces peintures, croient y voir des batailles.
Desisti provisoriamente de qualquer decisão mais brusca.
A única coisa que me interessa no momento é a lenta cumplicidade da correspondência. Leio para mim as cartas que vou mandar: "Perdoe a retórica. Bobagem para disfarçar carinho."
Estou jogando na caixa do correio mais uma carta para você que só me escreve alusões, elidindo fatos e fatos. É irritante ao extremo, eu quero saber qual foi o filme, onde foi, com quem foi. É quase indecente essa tarefa de elisão, ainda mais para mim, para mim! É um abandono quase grave, e barato. Você precisava de uma injeção de neo-realismo, na veia.
De repente faço uma anti-carta, antídoto de pathos: Estamos conversando em rodinhas quando você entra inesperadamente no sala; sinto um choque terrível, empalideço, mas ainda estou vermelha de dez dias de verão meio vestida nos gramados, e ninguém percebe, exceto talvez um velho enrustido puxado para o chato que me saca longe e faz questão de piscar o olho e me mostrar que saca; esqueço o velho prematuro e de batom inabalável tudo me passa na cabeça, todos os possíveis escândalos de pernas bambas, e atravesso a rodinha com licença em direção a você que acaba de entrar e não me viu ainda e reconhece os primeiros acenos nas rodinhas.
Estou pensando duro e a cena não ousa prosseguir. Suspensão didática: estátuas humanas em carros alegóricos no desfìle de páscoa no parque coberto de papel de sorvete e union jacks. Tinha uma cena em West Side Story que me ocorre, confere se é a mesma que te ocorre.
Tropeçar com você não é bem o que se diga numa reunião como essa social desbundada cultural. Nos últimos segundos passei em revista minhas táticas bem elaboradas. Eu preciso aproveitar os últimos segundos, as soluções do dia, a maturação da espera – eu realmente pensei nisso, e não sou um personagem sob a pena impiedosa e suave de KM, wild colonial girl e metas no caminho do bem, com tuberculose em Fontainebleau e histórias em fìla e um diário com projetos de verdade que me vejo admirando ardentemente nos últimos segundos. E disciplina. E aquela rejeição das soluções mais fáceis. Me lembro da Shirley na borda do repuxo, em surto de mania, e o chileno de cabelo sujo também fazendo charme, e eu tentando a séria com Mick pornográfico do lado, impossível. Ai eu disse adeus e desci com Mick e perdi o desenrolar dos acontecimentos, eles que são brancos que se enten-dam. A essa altura Mick havia se transfigurado, todo compenetração, acho que ele se excita é com surtos de mania. Fomos deitar na grama como dois pombinhos, o braço roça aqui, me recomponho, fazemos comentários sobre a natureza dos arbustos nesta região. É peculiar (it’s somewhat peculiar). É peculiar como a arte das cartinhas que os carteiros transportam sob minha fomal desconfiança; algumas não chegam nunca e eu acordo de manhã e esqueço um sonho capital; houve um carteiro que foi enfìm processado por enterrar as cartas de cada dia no porão da casa; ele enterrava e ficava o resto da jornada vadiando contente pelas redondezas de uma cidade chamada Bradford-on-Avon que tem várias excelências turísticas de séculos atrás e uma vista magnífica do alto do monastério de Saint Mary. Uma dessas que ele enterrou no mês de maio continha todo o meu pathos derramado. O meu pathos é belo e secreto como os fatos. Me revolto quando dois ou três dias depois sei que errei lamentavelmente, errei de destinatário na pressa furiosa do meu pathos; preciso de mais uns dias para o labor impiedoso e suave da leveza antes da parada cardíaca do nosso encontro no salão.KM acaba de morrer. LM partiu imediatamente. Ao chegar ao mosteiro jantou com Jack no quarto que ela ocupara nos últimos meses. Olga Ivanovna veio conversar um pouco e tentou explicar que o amor é como uma grande nuvem que a tudo rodeia e que na última noite KM estava transfigurada pelo amor. O seu rosto brilhava e ela deve ter se esquecido do seu estado porque ao deixar o grupo no salão começou a subir a escada em passos largos. O esforço foi o bastante para causar a hemorragia. Na manhã seguinte LM e Jack foram à capela. Havia diversas pessoas circulando. LM ficou ali ao lado dela por um tempo mas acabou indo buscar a manta espanhola e a cobriu. O resto do dia LM passou fazendo malas e embalando tudo. O relógio de ouro e a corrente ela guardou consigo conforme o combinado. À noite houve uma reunião de amigos que tinham vindo para o enterro. Antes do jantar LM andou de um lado para o outro com Orage no jardim. Durante o jantar todos se sentaram numa mesa comprida. O jantar começou em silêncio mas aos poucos a atmosfera distendeu e começaram a discutir a pessoa de KM. Por que ela se havia mudado para lá? O que a impelira? Quando? Como? Inesperadamente LM se levantou – fato extraordinário – e proibiu qualquer discussãao sobre KM. Com isso a reunião se dispersou. No dia seguinte uma longa fila de automóveis seguiu KM a passo de tartaruga. LM acabou descendo e seguiu a pé quilômetros e quilômetros. No cemitério LM e Jack ficaram lado a lado. No último momento houve uma certa hesitação. Parece que estavam esperando que Jack fizesse alguma coisa. LM tocou a mão de Jack, e ele recuou num gesto rápido. Alguém sugeriu que a manta espanhola fosse junto. LM não deixou, lembrando outra vez o combinado. Mais hesitação. LM jogou alguns cravos antes de voltar. Naquela noite todos se sentaram no teatro. LM se sentiu dormente e partida em pequenos pedaços. No extremo oposto Jack falava muito e ria histericamente. Orage veio e pediu a LM que o levasse para cama, o que foi feito. No dia seguinte Jack e LM partiram para o seu paíis. KM teria apreciado que LM cuidasse dele o máximo possível.Querida. É a terceira com esta a quarta que te escrevo sem resposta. No dia do meu aniversário pegou fogo na linha férrea e eu vinha lendo A Man and Two Women e tive de mudar de cabine de tanto que me irritou a mulher que não falava uma palavra, feia apontando pro livrinho, e o velho prestativo se inclinando e abrindo a boca para falar mais. Saí da cabine e procurei um canto vazio mas não tinha. Horas paradas esperando. Não, o que me irritava era o nariz empinado que não quebra nunca, faturando a história. Troquei de trem e o inglês me paquerou falando bem das minhas botas, minha roupa errada. Ele reparou no livro e disse que não agüentava a flacidez da perfeição, mas eu preciso de você, querida, mesmo fazendo conferências e limpando a piscina com vestido branco e auréola prateada, eu preciso te ouvir assim mesmo com tim-tim-por-tim-tim e falta de elegância pedagógica, eu reclamava disso, lembra? Me conta uma história com moral.Fico considerando se não roubei demais, mas nessa hora acordo com um sonho incomodando como um sinal de alerta, um sonho dentro do automóvel cidade adentro, uma cidade sem muito contorno, de noite, uma cidade grande, com trânsito noturno, faroletes vermelhos, e um fala-fala que não termina dentro do automóvel, uma inspeção, uma con sideração de casos e desencontros que vai ficando confusa e de repente o carro pára e eu estou en torpecida e seduzível e num ponto cego, e acordo com a aflição que bateu dentro do carro.
Não sei falar do Luke. Ele me espanta. Faço descobertas óbvias e me espanto. Você começa devasso e de repente dá coração mole, uma tremedeira no braga, vamos levantar que eu estou com fome. Disfarço meu espanto. Nunca vi.
Shirley caiu do céu. Discutimos o veio masoquista com olho bem naturalista.
Querido diário:
Vergonha ricocheteia.
Eu quero que você saia daqui.
Não vou mais à Espanha. O motociclista me dispensou inexplicavelmente depois de cinco dias em que eu não parava de pensar numa garupa. Saí para arejar no parque e sabe aquele susto todo de perda concentrado num único parágrafo? Lembra que eu abri um mapa e havia papos de viagem? Aflição de não poder retomar daquele ponto, com inocência de turista. Ai que pena. Dá para entender? Isso te dá susto?
Eu estava no do canto quarto esperando o carteiro soar quando resolvi te escrever assim mesmo.
Assim mesmo sem resposta, abrindo meu caderno seis meses depois.
Folheio seis meses à toa; a folha não é macia nem tem marca dágua extra forte com dobras de envelope que viaja de avião, selado com dois anjos inocentes que rasguei.
Dois anjos inocentes!
A folha é muito dura e hoje é o dia mais longo do ano com ou sem você. Thank you very much, thank you very much. A próxima canção que eu vou cantar é Me Myself I (aplausos fortes e breves e mais longos) que neste verão quero dedicar a você que não me escreve mais e é diretamente responsável pelo meu flerte com o homem dos correios. Tonight ...maybe one of these days... he wrote a song about a girl... are you ready? One, two, three – Estou mestre em abrir envelopes.
“Kiss you anelipsy
if...”
Se o quê?
Entendeu agora por que a folha é dura e chupa a tua tinta?
Bota tudo, ele me falou.
Over here on the piano...
and on this side of the stage...
Não estou pegando direito. Por que estão vaiando agora? Você será possível não avisou que se mudou? Eu estou escrevendo para a peça vazia,para a louca senhoria, para locatária com mania? Me desculpe mas isso é uma grande covardia.
Blissful Sunday afternoon enroscada na cama. Quatro cobertores de verão ouvindo Top Forties no rádio da cabeceira. Sobrou um pouco do enjôo do curry do almoço. Passando loção de vaselina. Prestando atenção sem querer na porta do banheiro que bate será que ele sobe pra me ver. Lendo Class meu olho pensa em figuras complicadas descaradas excitadas milhares de minúcias subindo colunatas ou atendendo as núpcias das três noivas art nouveau ofélia salomé esfinge escalando édipo entre rochedos. Meu olho pensa mas esquecerei depressa blissful Sunday afternoon às vezes chove uma pancada e pára.