Nunca mimei desse jeito, e ponho olhares compridos e confesso. Slowly, eu digo. Ele faz slowly, pára um pouco, espia, e fecha os olhos outra vez. Hoje o telefone tocou no corredor, e a campainha, e era a Shirley que eu abri de capa rápida de chuva e gesto mole com o braço – tem um homem ali, que se cobriu, pudico. Ela queria saber se eu vou mesmo e saiu logo e assim posso evitar aquelas trocas de mimo de fim de tarde que me dariam nos nervos porque é confessar brincando na beira da paixão que dorme quando fico sozinha e digo merda, sou...
Depressa porque é bliss sem plot para os netos, sem fio nervoso comendo solto sequências inteiras sem trucagem.
Não posso parar de colar figurinhas na parede. Se a casa fosse toda minha... Shirley me carrega desde a casa onde passei a última noite com Luke que dizia you’re a woman, a woman, a hundred per cent a woman. Pára com isso, eu disse em voz pastosa. Depois a luz apagou e parecia um desperdício (it seemed such a waste) adormecer com Apolo do meu lado, quase moça de tão belo. Então finjo pela primeira vez na vida porque ele paga pra ver eu ter prazer supremo, o que nem sempre é viável para a gente. Às vezes simplesmente não quero o prazer elétrico supremo, que sugere abismos compridos e nem sempre, baby, nem sempre os abismos nos consolam. Hoje não posso com aventuras. Pensa só no trem onde sentamos separados e eu fiz nanquins e você esticou suas pernas pensativas de perfil. Pensa só. Você gritava CORNY! para Gene e Leslie e tinha acessos mas eu gostava mesmo em branco e preto. Queria ligar com três cervejas e gritar por minha vez que achei, achei Apolo de perfìl dizendo speak to me em pelo! Meu Deus, eu tremo e passa um filme e vejo Candide chorando fortíssima em Brasília e acendendo velas a Jarrett no apartamento sem luz na tempestade e vejo Beatriz inescrutável cozinhando com destreza e fazendo desenhos com cabeça secreta que nem você conhece e vejo Carlos bissexto que nunca disse nada e a quem eu nunca disse nada, mando um postal de Barcelona com nunca esqueci a tua pele mesmo quando esqueço nesta noite quente em Catalunha? No dia seguinte Shirley me traz e a mudança empilhada no automóvel. Nos perdemos na cidade de Rochester e rimos como tontas. Só de noite perdi tudo para sempre e Apolo à mão no andar de baixo, pagando para ver prazer supremo estranho no meu rosto. Não choro mas no dia seguinte decoro, decoro o quarto novo e penduro tudo na parede. Não tenho mais vergonha de pendurar nada na parede mas estou manic e não sei onde vocêPrimeiro telefonema da casa nova. Fiz Luke e de jejum pensei que era tudo novidade mesmo na parede mas minha voz jogou dura, suave, séria, achando graça. Nem tudo são novidades, e escrever demora. Nesse instante entro de novo na rotina.
News at Ten. Vejo o papa no Rio de Janeiro. Brazil today. Frenesi, corcovado, fogos de artifício. Olho hipnotizada esse cartão postal. E do Luke não posso, não posso ter saudade, apago e vejo o céu da porta, tomo lager mas não sei se é com ele.
Desço para mais uma chícara de chá. Ele não diz uma palavra e toca Dire Straits e eu me recomponho no sofá com temas recorrentes.
And I’m walking in the wild west end
Walking with your wild best friend.
Desço o west end e do outro lado da rua... era igual, igual, igual.
Quase atravessei.
Mudei de cidade e ainda ouço a caixa do correio tremer e fazer – klimt.
Notas para os nanquins de ontem e anteontem: Reaproveitar o casaquinho de banlom.
Quando você mal pensa que é novidade, não é.
A medida entre o descuido e a premeditação se chama (floating attention).
Daí escapam mapas da ilha, passarinhos, pessoas seguindo numa certa direção, bichos que vão viran do gente, discretamente eróticos, desejando man cha transparente e diluída de aquarela cor-de-rosa, see?
Aprender fazendo, baby.
Começar pelas médias (daí para pequenas, depois para grandes).
Não ter medo de prosseguir.
Numa extremidade começam os mapas; noutra os bichos alternados – ora reconheço, ora não; às vezes sei onde vou dar, o nome canguru me ocorre, às vezes só depois percebo; quando o nome me ocorre encubro aos poucos – não ter medo do inesperado mesmo ao som do hit parade.
Uma extremidade corre em direção à outra. Mulher é difícil.
E patos voando em formação?
Nã tem olhos, só tem direção.
Sem olhos, mas não cegos.
Alguns dão cria.
Digamos que um dia você percebesse que o seu único grande amor era uma falácia, um arrepio sem razão. Digamos que você percebesse que 40% de álcool apenas te garantia emoção concentrada como Sopa Knorr, envergorihada, arriscando o telefonema internacional que dá margem a suores contrariando o I Ching que manda que eu me cale, ou diga pouco, ou pelo menos respeite esse silêncio.
Dia seguinte.
Nesse ponto, me lembro agora, Mick entrou no quarto. A camisola estava pelo avesso. Lá estávamos outra vez com sociologias, ele muito oferecido na ponta da cama, até que me pus a passar baby oil nas mãos, lambança, e daí para os cabelos, e para os cabelos dele, beijos molhados que hoje dão maldade e gostinho de tortura. De manhã horas na cama, elaborando unposted letter para Mick com medo de um Jack que abriria a porta a qualquer momento, vingador. Desci ainda do avesso e tinha correio, envelope chique com colagens de fotos ("cena de abril", se chamava), cartão com flores de neon, finesse de poucas palavras e um abuso de entrelinhas. Fiquei staring a lot enquanto comia o mingau. Depois cuidei do banho que me dá aflição quando termina. Cozinhei para a primeira moça que conheci nessa cidade. Não melhorou ela falar de guerra atômica e da Atlantis irlandesa de onde ela escapou aos bofetões porque queriam que ela visse não sei o que no filho dela. O almoço tinha muita pretensão. Falei de Mick versus Luke e ela deu palpite. Me senti inconfidente, conversação traindo meu I Ching, já disse. Fiz promessa de abstinência e repeti a palavra flippant várias vezes. Tem alguma utilidade. Ela aliás também se chama Chris que era ainda o nome de um pastor alemão no Brasil mas sem h. Espiou cena de abril que eu tinha deixado no canto de propósito e comentou que lá (no Luxembourg) eu tinha cara de mais velha. Apreciação que me adulou. Ela saiu para o dentista às três e meia.
Que tristeza essa cidade portuária. Subo London Road de bicicleta e sinto as bochechas pesarem.
Comprei um cartão de avião para Malink – um avião roliço, tropical, feliz de estar partindo.
Estou há vários dias pensando que rumo dar à
correspondência.
Em vez dos rasgos de Verdade embarcar no olhar estetizante (foto muito oblíqua, de lado, olheiras invisíveis na luz azul).
Ou ser repentina e exclamar do avião – não me escreve mais, suave.
Opto pelo olhar estetizante, com epígrafe de mulher moderna desconhecida ("Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura, entende?”). Não sou rato de biblioteca, não entendo quase aquele museu da praça, não tenho embalo de produção, não nasci para cigana, e também tenho o chamado olho com pecados. Nem aqui? Recito WW pra você:
"Amor, isso não é um livro, sou eu, sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas nos teus braços, teus dedos me entorpecem, teu hálito, teu pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia, e chega –
Chega de saudade, segredo, impromptu, chega de presente deslizando, chega de passado passando em vídeo-tape impossivelmente veloz, repeat, repeat. Toma esse beijo só para você e não me esquece mais. Trabalhei o dia inteiro e agora me retiro, agora repouso minhas cartas e traduções de muitas origens, me espera uma esfera mais real que a sonhada, MAIS DIRETA, dardos e raios à minha volta, Adeus!
Lembra minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo, e parto, eu incorpóreo, triunfante, morto."
A luz apagou de repente às dez da noite. Fiquei parada com resto de dia e luzes de vizinhos à distância. Esperei fazendo um teste de casa quieta e pensei em telefonar com tato e fazer cobertura completa do black-out. Desci escada com tapete, abri a porta, casas coladas e unha de lua que não adianta olhar, olhar. Bati na porta ao lado para pedir 50 pi que é uma moeda de 6 lados, e tive de meter a cabeça no porão preto e descobrir a ranhura e lutar pensando na cabeça ali dentro até achar o encaixe e a luz voltar.
No quarto anterior que virou uma tenda árabe (não chove dentro, não é de noite, meu coração não sente). Estou muito paciente. O rádio zumbe com Top Forties Part II. Mudei o lugar da mesa e daqui a janela ficou longe. Escrevo de botas, umas roupas por cima das outras. Isso é errado in July. Fiz resumo de um dilema da infância (a minha). Contei um sonho de homelessness: o casal de viados ocupando a nossa casa; um tinha batom mas não deixou que eu tirasse os pés encostando nas pernas dele, esquenta seus pés num sarro de viado. Precisando passar a noite lá para não ter que enfrentar a viagem de volta na madrugada com neve mas os viados com ouvidos moucos e olhares desentendidos. E nós percorrendo a casa, reconhecendo os caderninhos do passado. Nessa mesma noite houve um que construiu uma mini torre Eiffel igual uma tenda apache e dormia lá dentro aspertadinho sozinho na estepe. Meti a cabeça dentro da torre e olhei o canto dele que devia ser mocinho e bonito como Peter.
Além desses sonhos contei de uma tempestade terrível em Roma no pior dia do ano quando deu tudo errado, desde engarrafamento com cigana enlouquecida até cantor de ópera brocha e suplicante. O professor batia nele e o casamento belga era liberal. Custei para me livrar.
Não me peça para eu arrancar as figuras da parede, puxar a toalha com o jantar completo servido fumegante, atirar álbuns inteiros de retrato pela janela que ficou mais longe, largar todos os pertences, inclusive bota que machuca e casaco que me irrita e sair velejando pelo mundo, ou tomar o avião e chegar sem aviso no Rio de Janeiro, com pletamente só, ou pior ainda, não mandar carta nenhuma and have done with it.
PS. Li Brás Cubas verticalmente e me pôs low, quite low.
Pensando em você não é bem o termo. Você na minha pele, me ocorrendo sem querer, até lem brança de perfume. Assim sentei lá fora ao sol com bronzeador na cara e jaqueta de July. Luke veio de repente sem camisa e eu disse em português que susto. Ele entende e vem dar beijos mas conheço aquele meloso de propósito, paródia de meloso, e saio e volto e saio e bato a porta. Almocinho e um pouco de trabalho. Às 8 olho na janela e vejo logo quem lá embaixo de shortinho tomando sol e desço e boto Gershwin e fico lendo o golpe na Bolívia no jornal. Dias em que ler jornal saca lágrimas e no fun do da cabeça figuras da galeria nacional, anjos suspensos no ar de cabeça para baixo, um deles chupando o peito de Vênus e em volta os outros olhando, flechando, rodopiando entre cortinados, lençóis desarrumados, pássaros, pavões, lagostas, aviões.
Logo logo vou de novo lá. Mas não quero esse que está salgado do meu lado. Fico só com raiva do cachorro do vizinho. Não queremos falar nada, nem como vai nem o golpe na Bolívia. Estamos en costados pegando o sol que se inclina e eu dou uma volta completa para sair da sombra e é complicado como um Tintoretto. A minha cabeça encosta no pé dele e a cabeça dele no meu pé; a minha mão alcança a perna dele e a mão dele a minha perna; graminhas, cobertores brancos nas graminhas, cores fortes de alta renascença. Não descrevo mais e minha mão passa enquanto a mão dele passa e abre o zipe e cabelinho e embaixo é diícil com blue jeans. Acho que eu queria ele salgado. Subi para o chuveiro. Botei um shortinho e me enrolei no sleeping bag debaixo da janela até ele chegar. Eu faço em mim com ele quieto dentro. Às vezes em silêncio e às vezes alto com rádio ligado e ritmo que não despega da pele como perfume em Covent Garden. Mas nunca sei ao certo o que virá. Faço o detetive, ele fica dentro quieto, mas parece que faz sempre igual e sem engano (só se me engano, não sou diplomata nem cigano, vagando pelo mundo, mas isso foi numa outra carta que mandei), ele espera e hoje não pensei onde é que vai parar e quis te escrever carta de amor com detalhes secretos de hoje à tarde, minha ternura por você que só no dia seguinte pesco mais, de braço dado em Covent Garden, pegando a tua mão e dizendo que te rapto mas Joe do lado não queria. Estou esperando na janela onde tem casarão de tijolinhos com árvores no sol e brisa de leve e outros trechos de paisagem na tarde de verão. E um fio de luz que só depois faz foco. Tem um passarinho que quando pia quero matar o passarinho, acho que é um pombo ou uma pomba ou uma coruja, um pio canino que me mata. Fico esperando na janela – fazendo uma figura – você vê? – com truques: as árvores maiores no fundo e as árvores menores na frente, os carneiros na mesma ordem, e a mulher debruçada na janela com uma vela na mão que acende o charuto do anão no morro em frente, e um céu à régua, um rio, dois homens pescando, todos os trechos certos da paisagem e a perspectiva toda errada: Perhaps he is trying to show you can do all the perspective wrong and the picture will still look all right.
Me deu uma dor forte de repente e eu disse – me leva para o hospital.
O casal do lado me levou no carro.
Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.
Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio.
Você não apaga – acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê Tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta: no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso. Você pode também sentar de novo na Place des Vôges, que é perfeita, cartão postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu. de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não é vago.