- Custa-me
até entender, respondeu um dos ouvintes.
-
Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos
são tudo. A melhor definição do amor não
vale um beijo de moça
namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou
o
movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo
em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tomava-se
viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram
só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática
ou um sorriso
de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro.
Era
exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolína uma
notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente
dali a cinco léguas, estava mal e à morte.
Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo
uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse
conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição,
disporia contrário; deixaria o cunhado, e iria comigo. Mas o
certo é que fiquei só com os poucos escravos da casa.
Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma
coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente
levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava
agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava
a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência
mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas
cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos
parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo,
naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos.
Nhô alferes, de minuto a minuto. Nhó alferes é muito
bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes
há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto
de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah! pérfidos!
mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.
- Matá-lo?
- Antes assim fosse.
-
Coisa
pior?
- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos,
seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido
fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais
ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da
roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda,
a senzala,
tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão
somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as
moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos
escravos.
Nenhum ente humano. Pareceu-lhes que isto era melhor do que ter
morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha
medo;
era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada durante as
primeiras
horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina;
fiquei
também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter
com ela, para lhe
dar a triste notícia, ou ficar tomando da casa. Adotei o segundo
alvitre, para
não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava
mal, eu
ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum;
finalmente,
esperei que o irmão do tio
Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto
que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã
passou sem
vestígio dele; à tarde comecei a sentir uma sensação
como de pessoa
quehouvesse perdido toda a ação nervosa, e não
tivesse consciência da
ação muscular. O irmão do tio Peçanha não
voltou nesse dia, nem no outro,
nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções
enormes.
Nunca os
dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação
mais cansativa. As horas batiam de século a século no
velho relógio da casa, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me
a alma
interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos
anos
depois, li uma
poesia americana, creio que de Longfellow, e topei com este
famoso estribilho.
Never, for ever! - For ever, never!
confesso-lhes que tive um
calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que
fazia o relógio da tia Marcolina:
Never, for ever! - For ever, never! Não
eram
golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho
do nada. E então
de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. 0 silêncio
era o mesmo que
de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita,
ou mais
larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém nas salas, na varanda, nos corredores,
no
terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?
- Sim, parece que tinha um pouco de medo.
- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico
daquela situação é que eu nem sequer podia ter
medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma. sensação
inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo,
um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. 0 sono dava-me
alívio, não pela razão comum de ser irmão
da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno.
- o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar
a alma interior. Nos sonhos, fardava-me, orgulhosamente, no meio da
família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam
alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente,
outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas
quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência
do meu ser novo e único, - porque a alma interior perdia a ação
exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar...
Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver
se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne,
soeur Anne, ne voís-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma;
tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada
e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me
no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava,
tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião
lembrei-me de escrever alguma cousa, um artigo político, um romance,
uma ode; não escolhi nada definitivamente; senteí-me e
tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no
estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deíxava-se estar.
Soeur Anne, soeur Anne... Cousa nenhuma. Quando muito via negrejar
a tinta e alvejar o papel.