| Manuela Amaral |
-> mais Manuela |
ANTAGONISMO
Foste parida de um deus
Tens os cornos de um diabo.
*
MULHER-NUNCA
Não és a mulher-sim
És a mulher-talvez
Tu és a mulher-não
de toda a gente.
*
FATALISMO
Amo o que em ti há de trágico. De mau.
De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.
A tua forma de olhar. O teu riso fingido
e cristalino.
Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.
A tua mão insegura
na mentira dos teus gestos.
Amo o teu corpo de maçã madura.
Amo o silêncio perpendicular do teu contacto
A fúria incontrolável da maré
nas ondas vaginais do teu orgasmo.
E esta tua ausência
Este não-ser quem é.
*
BODAS DE SANGUE
No vício de cada noite
rebentas o mesmo sangue
repetes o mesmo parto
Rasgas da tua cabeça
os monstros que tu inventas
O teu grito lembra a morte
Mulher-só.
*
POR DETRÁS DE MIM
Escondi-me atrás da idéia
para que não fosses pensada.
*
NÓS E AS PALAVRAS
Nós e as palavras
Semântica de amor
a esconder idéias.
*
NO CONJUGAR AMOR
Descobrimos coisas
que ninguém mais sabe
Coisas diversas do saber comum.
A transfusão que existe no beijar
quando a ternura é líquida
E a transparência
opaca
do suor
quando o amor é feito
E o jeito nos fica
de namorar o corpo
E o exagero em tudo que se diz
nas juras repetidas.
Descobrimos coisas
que ninguém mais sabe
e que aprendemos juntas.
*
AMOR GEOMÉTRICO
Angulosamente ternas
goticamente nuas
somos a geometria do amor.
*
ESTILISMO
Na mesma noção de corpos em arte
nós somos um símbolo
Mistérios de ser.
*
DO NASCER AO SER
Nasci-te. No meu ventre de mulher cresceu teu feto
e foi a minha boca que te deu palavras
e silêncios para tu gritares
Dos meus braços multipliquei teus braços
e dei distâncias para tu voares
Dei-te tempos-de-nada
medidos de coragem
E foste. E és.
*
TEU CORPO/MEU ESPAÇO
Teu corpo é raiz
rasgando a terra nua
do meu sexo
Teu corpo é vertical
onde os meus dedos tocam as distâncias
Teu corpo é diálogo sem palavras
O grito em ressonância
no meu espaço.
*
POSSE INTEMPORAL
Fazer amor contigo
não é espelhar teu corpo nu
no vítreo do meu espaço
não é sentir-me possuída
ou possuir-te
É ir buscar-te
ao abismo de milénios de existência
e trazer-te livre.
*
TERRA VIRGEM
Terra virgem onde desbravei caminhos
Terra aberta onde lancei sementes
Terra incendiada
Vulcão
Cratera
Terra-de-hoje
Simbolo d outras eras
Terra de ninguém que me pertence.
*
APOGEU
Mulher em minha cama
Mulher quase animal
Mulher que se transborda
que me sobra
e chega
Mulher deitada no meu corpo insónia.
*
MODELAGEM
Moldei meu corpo
à tua forma nua
e de nós duas
nasceram madrugadas
*
ACTO CRIADOR
Com gestos pagãos
dou forma-mulher
à tua estatura
e faço escultura
ao longo das mãos
Num golpe de mestre
renasço-te virgem
em obra criada
Já não és mulher
És só o fluido
que escorre de mim
ideia
vertigem
Depois uma fúria qualquer
começa a alastrar-se
em todo o teu corpo
Um vento selvagem
possui os teus braços
as pernas
o ventre
Um grito demente
percorre-te a voz
E és volúpia
o espaço
e a noite
*
DE NÓS EM LIMITE
Na luta da posse
meu corpo guerreiro
batalha no teu
Meus beijos em seta
percorrem a meta
atingem loucura
No espaço liberto
da minha procura
tu és o limite