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ANTAGONISMO

Foste parida de um deus

Tens os cornos de um diabo.

 

*

 

MULHER-NUNCA

Não és a mulher-sim

És a mulher-talvez

Tu és a mulher-não

de toda a gente.

 

*

 

FATALISMO

Amo o que em ti há de trágico. De mau.

De sublime. Amo o crime escondido no teu andar.

A tua forma de olhar. O teu riso fingido

e cristalino.

Amo o veneno dos teus beijos. O teu hálito pagão.

A tua mão insegura

na mentira dos teus gestos.

Amo o teu corpo de maçã  madura.

Amo o silêncio perpendicular do teu contacto

A fúria incontrolável da maré

nas ondas vaginais do teu orgasmo.

E esta tua ausência

Este não-ser quem é.

 

*

 

BODAS DE SANGUE

No vício de cada noite

rebentas o mesmo sangue

repetes o mesmo parto

Rasgas da tua cabeça

os monstros que tu inventas

O teu grito lembra a morte

Mulher-só.

 

*

 

POR DETRÁS DE MIM

Escondi-me atrás da idéia

para que não fosses pensada.

 

*

 

NÓS E AS PALAVRAS

Nós e as palavras

Semântica de amor

a esconder idéias.

 

 *

 

NO CONJUGAR AMOR

Descobrimos coisas

que ninguém mais sabe

Coisas diversas do saber comum.

A transfusão que existe no beijar

quando a ternura é líquida

E a transparência

opaca

do suor

quando o amor é feito

E o jeito nos fica

de namorar o corpo

E o exagero em tudo que se diz

nas juras repetidas.

Descobrimos coisas

que ninguém mais sabe

e que aprendemos juntas.

 

*

 

AMOR GEOMÉTRICO

Angulosamente ternas

goticamente nuas

somos a geometria do amor.

 

 

ESTILISMO

Na mesma noção de corpos em arte

nós somos um símbolo

Mistérios de ser.

 

*

 

DO NASCER AO SER

Nasci-te. No meu ventre de mulher cresceu teu feto

e foi a minha boca que te deu palavras

e silêncios para tu gritares

Dos meus braços multipliquei teus braços

e dei distâncias para tu voares

Dei-te tempos-de-nada

medidos de coragem

E foste. E és.

 

 

TEU CORPO/MEU ESPAÇO

Teu corpo é raiz

rasgando a terra nua

do meu sexo

Teu corpo é vertical

onde os meus dedos tocam as distâncias

Teu corpo é diálogo sem palavras

O grito em ressonância

no meu espaço.

 

 

POSSE INTEMPORAL

Fazer amor contigo

não é espelhar teu corpo nu

no vítreo do meu espaço

não é sentir-me possuída

ou possuir-te

É ir buscar-te

ao abismo de milénios de existência

e trazer-te livre.

 

 

TERRA VIRGEM

Terra virgem onde desbravei caminhos

Terra aberta onde lancei sementes

Terra incendiada

Vulcão

Cratera

Terra-de-hoje

Simbolo d outras eras

Terra de ninguém que me pertence.

 

 

APOGEU

Mulher em minha cama

Mulher quase animal

Mulher que se transborda

que me sobra

e chega

Mulher deitada no meu corpo insónia.

 

*

 

MODELAGEM

Moldei meu corpo

à tua forma nua

e de nós duas

nasceram madrugadas

 

 *

 

ACTO CRIADOR

 

Com gestos pagãos

dou forma-mulher

à tua estatura

e faço escultura

ao longo das mãos

Num golpe de mestre

renasço-te virgem

em obra criada

Já não és mulher

És só o fluido

que escorre de mim

ideia

vertigem

Depois uma fúria qualquer

começa a alastrar-se

em todo o teu corpo

Um vento selvagem

possui os teus braços

as pernas

o ventre

Um grito demente

percorre-te a voz

E és volúpia

o espaço

e a noite

 

*

 

DE NÓS EM LIMITE

Na luta da posse

meu corpo guerreiro

batalha no teu

Meus beijos em seta

percorrem a meta

atingem loucura

No espaço liberto

da minha procura

tu és o limite

 

 

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