Manuela Amaral
MULHER DE MIM
Mulher secreta
direita ao meu encontro
Meu espasmo de infinito
Meu canto
quase grito
Mulher só-minha
inventada em espanto
*
HISTÓRIA SEM TITULO
Tu-em-mim
tantas vezes derramada
no orgasmo repetido
Eu-em-ti
tantas vezes já cremada
na fogueira do teu corpo.
*
CAMINHO ENCONTRADO
Razão e loucura
Abismo de mãos
E gestos em fúria
Palavras
Silêncios
E corpos suspensos
Nas bocas a febre
Nos olhos delirio
Regresso de noite
Caminho encontrado.
*
COREOGRAFIA
No palco da noite bailado de corpos
Cenário de sombras
esculpidas em nu
Tu danças as mãos
inscreves contornos
na minha nudez
Eu sou dimensão
que dança em teu espaço
Não temos cansaço
Só temos volúpia
Desejo
Harmonia
Vontade de luta
Ao longo de ti descubro caminhos. Trajecto de boca
E danço contigo
E esqueço a memória
Eu sou o teu sangue
A mesma saliva
O mesmo suor
Nós somos a mesma
Mulher-Repetida.
*
POEMA VERTICAL
Abrimos os corpos. Rasgámos silêncios.
Na mesma vertigem nós fomos o espaço
Nós fomos a sede
Nós fomos a fonte
Abrimos distâncias. E tudo inventámos.
A vida e a morte num gesto de febre
subiam em compasso
em tempo de espera
E a luta
E a raiva
Nas nossa artérias um sangue mais quente
e o teu movimento em ritmo louco
E a minha renuncia de não ser mais eu. De ser o teu corpo. De ser a tua
carne
Baloiço de membros
de pernas e braços
Mulher que eu embalo
que guardo em meu ventre
que bebe de mim
a quem eu me dou
de quem me alimento
Mulher incarnada
na minha loucura
Um grito. Uma pausa. Um gesto mais lento.
E a vida a esvair-se
num estertor da morte
Depois o cansaço no espasmo da noite
E nós renascidas
E livres no tempo.
*
PARA ALÉM DO AMOR
E muito mais importante do que o nosso orgasmo
é a ternura-depois
o ficarmos abraçadas
o não dizermos nada
o tomarmos um uisque
às cinco da manhã.
*
VERTIGEM
E os nossos corpos erguidos em baloiço
tocam no tecto da noite.
*
ORGULHO QUE ME DOI
Ah, este orgulho que a noite me devolve
A lingua forrada de palavras
e outros líquidos de amor
E a culpa do silêncio que me dás
na incerteza de qualquer verdade
De ti já pouco sei
De mim já me ignoro
Ah, este orgulho que a noite me devolve
e que me dói
*
AMOR DOENTE
Este amor nasceu do fim
Guardámos naftalina
a imunizar a paixão
Tu e eu
Ciprestes
Nossos corpos cemitérios
inventaram dois jardins
E pintámos de amarelo
um calor a fingir sol
Este amor nasceu no fim
Este amor nasceu doente
Este amor é consciente
é metódico
é razão
é equação que dá certa
Sabemos tudo de cor
O nome exacto das coisas
mas não temos descoberta
Este amor nasceu doente
Este amor nasceu do fim
(amor
amor
meu amor)
*
LEILÃO
Leiloámos o amor
na praça pública do corpo
*
DEPOIS-DEPOIS (sem mim)
Amanhã
quando acordares sem mim
talvez te sintas livre
feliz
independente
E depois-depois
na hora em que acordares
(sem mim)
eu estarei lá
sentada no parapeito do teu desespero
a sorrir cinicamente
e a dizer bom dia
*
TEMPO ANUNCIADO
Pendurei-te
no ponteiro das sete
ao fim da tarde
E saltei para o meio da rua
a anunciar o tempo
*
GRITO ERÓTICO
Caluniaste o meu corpo
ao longo dos teus gestos
sem medida
Deste a palavra exacta
do meu sexo
e soltraste-me puta
Puta
Puta
Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
Grito marinho
a escorrer nas algas
do meu ventre
Puta
Puta
*
AUTO DE FÉ
Não me arrependo dos amores que tive
dos corpos de mulher por quem passei
a todos fui fiel
a todos eu amei
Não me arrependo dos dias e das noites
em que o meu corpo herói ganhou batalhas
A um palmo do umbigo eu fui primeira
a divina
a deusa
a verdadeira mulher - sem rival
Amei tantas mulheres de quem nem sei o nome
eu só me lembro apenas
de abraços
de pernas
de beijos
e orgasmos
E no amor que dei
e no amor que tive
eu fui toda mulher - fui vertical.
Eu fui mulher em espanto
fui mulher em espasmo
fui o canto proibido e solitário
Só tenho um itinerário Amor-Mulher.