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Anatomia
de uma família perfeita
A mulher era perfeita na verdadeira acepção da palavra.
Jamais, em toda a sua vida, Vanderlice conhecera alguém tão
metódica e previsível.
A sua vida era de uma rotina tão cronometrada que o relógio
da Central do Brasil poderia ser ajustado por suas ações
diárias, e jamais haveria nenhum quebra quebra
nem incêndios em vagões de trens, motivados por atrasos;
ao invés do horário, dir-se-ia:
A gente vai no trem que parte quando Geralda colocar a chaleira
no fogo, para o café da manhã! . Ou então:
Avisamos aos senhores usuários que será colocado um
trem extra, que saíra sempre no momento exato em que Geralda servir
o almoço.
Vanderlice olhava perplexa para aquela família.
Observava-os com os olhos de estudiosa do comportamento humano. Na verdade,
achava fascinante certos traços de caráter deles, mas não
podia comentar isso com outras pessoas, claro; então ensinou ao
marido as dicas de como entender e até prever o que iria ocorrer
com a família perfeita , algumas vezes.
Era certo, como dois e dois são quatro.
A sogra de Vanderlice cobria Geralda de elogios.
Esposa extremosa, - dizia ela - mulher caprichosa e
prendada!.
Falava isso com um ar de: Você devia espelhar-se nela, onde
já se viu ser aluada e distraída assim, feito você,
imprevisível, capaz de colocar a comida já pronta na geladeira
e resolver de última hora, que vai sair com os filhos e o marido
para comerem uma peixada, naquele restaurante à beira do rio.
Os filhos de Vanderlice eram danados de espertos, e começaram também
a ver peculiaridades no comportamento de Geralda. Isso era motivo de muita
conversa na casa.
A rotina de um dia na vida de Geralda era a seguinte, quer chovesse ou
fizesse sol:
Seis da manhã, levantava-se.Seis e vinte, café na mesa.
Seis e quarenta e cinco, levava a filha à
escola. Sete e trinta em ponto, levava a égua que eles criavam
para comer no pasto; Oito horas, fazia a lingüiça para uso
próprio. Nove horas, preparava o pão caseiro. Dez horas,
lavava a roupa, onze horas começava o almoço.Meio dia, buscava
a filha na escola.
Meio dia e trinta, servia o almoço. Três da tarde em ponto,
o café da tarde: pão, margarina, café e leite.Nunca
mudava. (Às quartas-feiras, bolo de fubá).
Quatro horas, buscar a égua no pasto e passar roupa. Cinco e meia
em ponto, ela o marido, a filha e os dois cachorros, já tomados
banho e arrumados,sentavam-se na varanda da frente para ver as pessoas
passarem. Seis em ponto entravam para o jantar, quase sempre, minestra
de feijão, dia após dia.
Falava em
doenças dia e noite, e a filha aprendeu com a mãe e repetia
tudo.
Tinha a mesma idade de Vanderlice mas parecia muito mais velha.Um ar cansado,
um rosto enrugado.
A casa era assustadoramente limpa, tudo nos lugares, sempre. Nada mudava,
parecia uma sala cirúrgica.
Vanderlice e o marido comentavam como seria viver ao lado de duas pessoas
tão metódicas daquela maneira, e quanto tempo eles agüentariam
viver naquela casa. Concluíram que após vinte e quatro horas
já teriam enlouquecido.
O tempo passou, e um dia , Flavinha, a filha do casal perfeito transformou-se
numa linda jovem. Não dera para os estudos, era sonsa e amorfa,
mas possuía um rosto lindo e angelical, um corpo de sílfide,
cabelos loiros que denotavam a origem alemã do pai e uma linda
covinha no queixo, que lhe suavizava um pouco a expressão severa
que as vezes seu rosto ganhava.
Aos vinte anos casou-se com um jovem muito simpático e bonito.
Olhos azuis, porte atlético. Na noite do casamento, pareciam dois
pombinhos, recebendo os cumprimentos.
A pergunta que Vanderlice e o marido se faziam era:
Quanto tempo ele agüenta?.
Os zelosos pais cederam uma casa vizinha a deles para o casal morar, mobiliada
com todo o conforto moderno.
As refeições, os pombinhos faziam na casa dos pais dela,
afinal, pra que sujar dois fogões?
Vai que vai, um dia, pimba! eis que o casal mudou-se para a casa de Geralda,
e a moça da covinha no queixo mandou montar a cama de casal no
seu antigo quarto de solteira.
Vanderlice só observava. E ela e o marido começaram, muito
tristes por sinal, a fazer a contagem regressiva.
Cinco meses depois, um dia o rapaz de olho azul chegou, pegou uma mala,
encheu com suas coisas e falou pra esposa loira e perfeita:
Tchau! Vou embora, não agüento morar nesse sarcófago.
O local de trabalho de Vanderlice fica bem no caminho da casa de Geralda.
E as cinco e trinta da tarde, todos os dias, quando passa em frente a
casa da amiga, ela para pra dizer um oi.
Geralda, o marido, a filha e os dois cachorros (novos, pois os outros
já morreram) estão lá, postados na varanda, quer
chova quer faça sol, olhando o povo passar!
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Essas
poesias pertencem a
Maria das Neves Alves Braga
e estão protegidas pela lei 9.610/98
Visite o site da autora:
http://geocities.yahoo.com.br/acendoasestrelas
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