A POESIA DE MARIA JANIA TEIXEIRA

 

 

 

A LUA NOS MEUS BRAÇOS
FILHA DA NOITE
NEM ME LEMBRO MAIS
MINHA POESIA
CERNE
RETRATO
ONDA INQUIETA
EU PODERIA
POETA
OFERENDA
ÍCARO
MINHA CULPA
LUAS
HORA DO POETA
PORTAL
DIA BRANCO
SÓS
A VOLTA
BALADA DE UM AMOR
AMOR ENTRE AS DUNAS
CATADOR DE CONCHAS E SONHOS
LUA MINGUANTE
ESTRELA ÚNICA
RECONHECIMENTO
TU E EU
ALÉM DE NÓS
AMIGAS AMIGAS
A VIAGEM
VIDENTE DA DOR
ENVOLVIMENTO
ESSÊNCIA
RENASCER
QUARTO DE UM POETA
ASSIM SOU EU
OUTRA FACE
PUNHAL DE AÇO
OFERENDA II
SOLIDÃO
REENCONTRO
PASSOS E COMPASSOS
NEM ME LEMBRO MAIS
OUTONO
CONCHAS E SONHOS

 

 

 

A LUA NOS MEUS BRAÇOS

Tenho a alma repleta
De ternura sem dono.
Dá-me tua presença azul
E vem comigo sem medo
Percorrer a estrada do amor.
Vem embalar a lua
Nos meus braços nus,
Espiar a face das estrelas
Nos lagos noturnos
Formados nos meus olhos.

Tenho o coração transbordando
De ternura vadia.
Dá-me tua mão,
Caminhemos lado a lado,
Para que nossos passos
Risquem trilhas paralelas.
Vem comigo
Colher as rosas vermelhas
Que perfumam as estradas.

Amor, fecha-me os olhos
Em teus doces lábios.
Não me deixes pensar
Que além se oculta
A encruzilhada do nunca mais.

 

 

 

 

FILHA DA NOITE

Eu era filha da noite
E as trevas moravam em meus olhos.
Mas tu, meu amor, com tua luz,
Rasgaste a cortina que escurecia minha vida
E me mostraste o nascer de um novo dia.
Eu era uma nave sem bússola,
Tinha os braços cansados
De girar o mesmo leme
Nos mares sempre iguais.
Mas tu, ó meu amor,
Desenhaste uma estrada de luz
E eu vi ao longe o porto seguro.
Eu tinha os olhos tão vazios
De outros olhos,
Todas as solidões moravam
Dentro do meu peito.
Mas tu, com tua chama,
Acendeu uma alma
Em meu rosto feito de ausências.

Hoje existo porque me vejo
Dentro da luz dos teus olhos,
E esta que sou, só sou,
Inteira, límpida e nua,
Porque tu a fizeste.
E o caminho que sigo agora
É a trilha dos passos
Que deixaste lá fora.


 

 

 

NEM ME LEMBRO MAIS

Tenho as mãos repletas de ternura
Tão ansiosas pra te amar
Tenho os braços vazios
Tão sedentos pra te abraçar

Você não saberá jamais
O quanto tenho esperado por ti
O quanto tenho sonhado em ti
Por um segundo ou uma vida inteira
Nem me lembro mais

Tenho a alma repleta de ternura
Tão louca pra te encontrar
Tenho a boca assim sedenta
Tão ansiosa pra te beijar

Você não saberá jamais
O valor do bem que eu te tive
Todo um século, todo um momento
Um tempo maior do que uma rosa vive
Nem me lembro mais

 

 

 

 

MINHA POESIA

A minha poesia
não é senão um lamento,
saído do fundo de minha alma
e espalhado em fragmentos,
entre letras e pensamentos.

A minha poesia
não é senão um profundo
mergulho dentro do meu âmago,
um pêndulo entre a fantasia e a realidade.
um grito rouco, solto entre linhas
rabiscos em sintonia.

A minha poesia
não é senão nus sentimentos,
recônditas emoções,
todos saídos do meu coração.
Não é senão eu mesma,
levada ao teu conhecimento,
esperando teu reconhecimento.

 

 

 

CERNE

Cava bem fundo
meu coração,
Se buscas conhecer-me.
A face que tu vês
Tão risonha diante da vida
Não diz muito,
Não diz tudo...
Tu o sabes!
Mas se ainda assim
Tu não me descobres,
Arranca-me o coração,
Deixa-me o nome,
Devora-o
E vive-me!

 

 

 

RETRATO

Trago alguns espinhos nas mãos
E ciprestes em meu coração.
Existe ânsia de viver em meus olhos,
Redemoinho, trovoada e paixão.

Trago algumas centelhas nas mãos
E anêmonas em meu coração.
Existem brilhos de estrelas em meus olhos,
Medos e presságios de solidão.

Não são flores que trago nas mãos,
Só há ciclones no meu coração.
Existem sorrisos lassos em meu rosto,
Silêncios imensos ali postos.

Quando refletida no espelho da vida,
Há temporais que me açoitaram o rosto,
Há rugas de atalhos e estradas não seguidas:
Sou um fiel retrato das dores por mim vividas.

 

 

 

ONDA INQUIETA

Meu olhar acompanha
O vôo de uma onda.
Vejo sua asa aberta
Se espatifar inteira
Contra um rochedo.

Nesse momento,
Minha alma soluça
Como se fosse uma sereia
Com saudades de casa.

Tenho anseios de pescador.
Quero ir para o mar
Na jangada que teço
De brumas e sonhos.

Serei eu uma onda inquieta
Saída do mar sem aviso?

 

 

 

EU PODERIA

Eu poderia ser feliz se quisesse,
a minha felicidade depende de mim.
Eu poderia entranhar-me pelos bosques
e descobrir velhos segredos,
guardados ali pelos ventos.
Eu poderia subir na mais alta montanha
e sentir-me única, dona do mundo.
Eu poderia correr pelos campos
como uma criança, de braços abertos,
sorrindo, como gente grande.
Eu poderia ir reverenciar o mar,
ficar longas horas a olhá-lo,
e adormecer acariciando suas águas.
Eu poderia deitar-me na grama fresca
ao sabor do vento no rosto,
e contar cada nuvem, cada pássaro.
Eu poderia, numa tarde morna,
ao som das flores líricas,
recostar minha cabeça cansada,
no tronco de uma velha árvore
e beber a água da fonte da vida.
Eu poderia... poderia!...
Mas se eu dissesse que fiz tais coisas,
quem em mim acreditaria?

 

 

 

POETA

Disseste-me um dia:
Não és um poeta,
Não é possível que sejas...
Um poeta não tem no peito
furacões.
Não traz no olhar o arco
do perigo.
Não tem as mãos apedrejadas.
Não tem pensamentos
de abissais.
Não traz no coração
um grito
rouco
não solto.
Não tem a vida
sem noite e sem dia.
Não anda lesto
atrás da morte.
Hoje te digo:
Ainda não sei se sou um poeta,
No entanto, é assim
que me chamam!

 

 

 

OFERENDA

Não deves oferecer-me coisas etéreas,
Eu não saberia o que fazer com elas.
Minhas mãos profanas nem poderiam tocá-las.
Dá-me antes, um terno sorriso,
Um arquejo de amor,
Um bafejo de mar.
Tão contente ficaria!

Não queiras pressagiar-me o futuro,
Uma flor ainda botão a se abrir e uma poesia,
Muito mais me comoveriam.
Ao invés de olhares silenciosos,
E palavras não ditas,
Dá-me um beijo
À minha chegada,
Ou pede-me que volte,
Quando partir.

E se por um desses acasos,
A mim ficares preso eternamente,
Não me chames de demônio,
Diga simplesmente que me adoras,
Ou que jamais me abandonarás!

 

 

 

ÍCARO

Tens dentro de ti
Um Ícaro, escondido,
Feito prisioneiro,
Forjando asas de cera,
Sonhando voar.

Olha, o carcereiro dorme...
Foge agora,
Solve-te,
Paralisa-te no ar,
Voa sobre as nuvens,
rufla tuas asas até cansar.
Desgasta todos os teus sonhos
No momento que se segue.
Descarta-te deste ímpeto
Que te persegue.

Depois, volta, se quiseres,
Entra na mesma prisão.
Quando o carcereiro acordar,
Poderá adivinhar?

 

 

 

MINHA CULPA

Não te culpo por minha tristeza,
Desta tristeza que me esvazia a alma,
Somente eu sou a culpada.
A brisa que me acaricia o rosto
É a mesma que eu amava.
Por trás das cortinas baças
O sol ainda brilha e me abraça.

A grama continua com marcas
de caminhada,
Desde os tempos que, descalça,
Eu corria por ela, como se fosse alada.
Sei que as mesmas estrelas
Continuam me espiando pela janela,
E, no entanto, não me animo para vê-las.

Não te culpes,
Eu somente sou a culpada.
Se sou triste
E esta melancolia arrasta os meus dias,
É tempo de colher um dia diferente!


 

 

 

LUAS

As luas que passam em nossas vidas
Podem ser luas transparentes e diáfanas
Vistas através de névoas brancas
Caminhando por estradas de nuvens.
Podem apenas passar por nossas vidas
Carregando a aurora em seus braços,
Não deixando marcas, nem saudades
E se perderem nas asas do nada...

Mas as luas que passam por minha vida
Acendem brasas em meus olhos
E atiçam o anseio que arde em mim
De viver sempre novas primaveras.
São luas que ainda podem ser vistas
Na sombra opaca das estrelas
No ventre grávido das dunas
E no cerne do meu peito!

 

 

 

HORA DO POETA

Quando a casa fica silenciosa,
Quando só há vazio e sombras,
Quando o vento é apenas um
Sussurro lá fora,
E os fantasmas fazem a ronda,
É então que a saudade se acomoda
E a tristeza fica espiando, à penumbra.

Quando a casa fica melancólica,
Quando só há vazio e sombras,
Murmúrios lá fora...
Quando as horas meditam, à penumbra,
O poeta é uma figura bucólica,
Espiando através da janela da vida,
Procurando rimas para viver.

 

 

 

PORTAL

Não será a solidão
Que afastará as distâncias,
Os caminhos, as estâncias...
As folhas de outono
Caem suavemente no chão
E encontram eco no meu coração.
Eu sei que aquele portal
Tem um imenso vão,
E eu sei que posso atravessá-lo,
Mas meus pés não se movem.
Estou como que feito uma estátua,
Delineada à sombra da janela,
Observando estrelas frias
Que nunca se comovem.
As folhas de outono
Continuam caindo lentamente,
Encontrando eco no meu coração.
Mas meus pés não se movem,
Não consigo alcançar o portal
E escapar desta solidão.


 

 

 

DIA BRANCO

Hoje
Um dia branco
Sem brilho
Um dia pranto
Sal nos cílios
Um dia vazio
Alma com frio
Hoje
Um dia branco
Tão incolor quanto a dor
Tão marasmo quanto o amor
Um dia solidão
Sonhos no chão
Hoje
Um dia sem matizes
Mergulho mil vezes
No amanhã
Vontade vã
O dia não passa
Se disfarça
Continua
Hoje

 

 

 

 

SÓS

Por que estamos tão sós, meu amor?
A madrugada traz frio para o meu coração.
Meus olhos estão vazios de outros olhos,
Buscando os teus na escuridão...
Tenho te buscado tanto, meu amor!
Tenho te buscado por tanto tempo,
Em tantas vidas, em tantos séculos...
Mas tudo que encontro é esta solidão!

Por que continuamos tão sós, meu amor?
Quando a luz prateada da lua ilumina minha face,
Eu vejo claramente o caminho dos teus passos.
Sei como encontrar teus olhos rasgados em luz
E sei exatamente qual direção devo seguir,
Pois tenho uma bússola para me guiar...
Mas tudo que encontro é esta solidão!

Amor, se neste exato momento,
Você chegasse carregada nos braços da aurora,
Eu sei levaria embora
A angústia que dilacera meu coração!
Amor, se neste exato instante,
Ou mesmo na próxima hora,
Você chegasse pelas mãos da madrugada,
Feito uma nave de astros e dunas -
Muito branca, toda minha, toda nua...
Eu sei romperia esta bruma
Que nos separa agora!

 

 

 

 

A VOLTA

Voltei,...
alforje vazio,
boca sedenta,
pés cansados e sangrentos,
e no olhar o brilho da saudade.
Voltei, amor...
Abraça-me!


 

 

 

BALADA DE UM AMOR

De repente
Já não sou dona de mim mesma
Como se fosse um pássaro
Meu coração subiu os céus
Acompanhou os quatro ventos
Perdeu-se nas distâncias dos tempos
E encontrou-se nos braços teus.

De repente
Já não sou dona de mim mesma
Como se fosse um barco
Meu coração navegou os sete mares
Enfrentou a fúria das ondas
Naufragou em praias distantes
E ancorou nos braços teus


Quero pousar este coração sem dono
No sossego do teu enlaço!
Quero ancorar tanto amor
No aconchego do teu braço!
Quero morrer assim
Buscando em ti
Pedaços perdidos de mim!


 

 

 

AMOR ENTRE AS DUNAS

Estaremos perdidos entre as dunas,
Quando vierem nos chamar;
Deuses imortais deitados à sombra,
Sentindo a maresia nas peles tórridas,
Cantando toadas antigas ao mar,
Bêbedos de tanto, tanto se amar!

Estaremos rolando entre as dunas,
Quando vierem nos chamar;
Amantes sonolentos zombando das sombras,
Sentindo queimar as tezes nuas,
Recitando poemas loucos de amor,
Bêbedos de tanto, tanto se amar!


 

 

 

CATADOR DE CONCHAS E SONHOS

Vou catar conchas pra você
Pequenas e grandes
Coloridas e translúcidas
Onde possas escutar a voz do mar
Conchas que reflitam o teu olhar
De brilho raro e encantador
Olhar meio sonhador

Vou catar sonhos pra você
Descortinados e dourados
De braços abertos à vida
Enquanto me banha a luz da lua
Algas roçando meus pés descalços
Seguindo sozinha na noite nua
A trilha dos teus passos.

 

 

 

LUA MINGUANTE

Esta lua minguante
Assim pela metade
Tão fora de hora
Traz tanta saudade!

Esta lua só pela metade
Traz tantas lembranças
O teu corpo prateado
Em mim se faz imagem

E tudo que mais desejo
É a rosa do teu beijo
É outra vez nossos corpos
Nesse louco encaixe

 

 

 

ESTRELA ÚNICA

Amor, você me ensinou outra vez
A apertar a vida nos braços
E sentir no teu doce beijo
A euforia de corpos em abraços

Você, meu pedaço de sol
Afastou de mim a angústia das trevas
Fez-me ver a estrela única
Que agora acompanha meus passos

Amor, não solte mais minha mão
Fecha-me os olhos em teus lábios
Vem embalar a lua nos meus braços
E deixa que nossas vidas se entrelacem

 

 

 

RECONHECIMENTO

Lá vem tu caminhando pela rua
Toda iluminada com tua luz própria
E meus olhos não conseguem deixar de te ver
E meus passos insistem em te seguir
E meu coração não pára de bater
E minha alma parece te reconhecer

Lá vem tu caminhando como se fosse alada
Passos leves pela rua chamando a atenção
Teu perfume me deixando estonteada
E minhas mãos querem te tocar
E meus lábios querem te beijar
E minha alma parece te reconhecer

De onde meus olhos lembram de ti?
De onde meu coração te reconheceu?
Se é sonho, não quero acordar
Da terra surgiste, minha pessoa amada
Vamos agora atravessar juntas a bruma
Vamos esquecer no caminho
As horas perdidas
Os dias dispersos no nada!

 

 

 

TU E EU

A luz de uma estrela única
Brilha na noite alegre,
Na centelha do teu olhar,
E se reflete dentro de mim.
Ai, ardente paixão!
Amanhã será um dia novo,
Sem saudade do ontem.
Apenas desejando o depois.
Sonho em ti, amor.
Tuas mãos feitas de procura
Tocam-me o corpo com ternura.
Vejo-te através da névoa,
Vieste, amor,
Enfim vieste até mim.
Cruzaste o portal de ti mesma
E seguiste esta vereda
Que te trouxe até mim.
Agora não estamos mais sós
Dentro de muros frios.
Somos tu e eu...
Tão perto o nós!

 

 

 

ALÉM DE NÓS


Talvez pensemos que seja só isso...
Que viver é só caminhar ereto
Sentir o coração pulsando sempre
E olhar firme para frente
Mas será que é só isso mesmo?
Assim tão fácil
Tão simples
E tão factual?

A vida é mais que isso, então?
Uma busca de nós mesmos
Um horizonte a ser descortinado sempre?
Uma procura constante
Uma estrada sem fim?
Ah, a vida é mais que isso sim
Além de você
Além de mim!

 

 

 

AMIGAS AMIGAS


Amigas
Que refletem meu rosto
Ou colhem meu pranto
Ou riem em meu lugar
Amigas
Cujas vidas quando se cruzam
São irmãs que se reencontram
E não há mais nada
Tempo ou distância
Que consiga separar
Grandes amigas
São como a vida
Ou como o amor
Únicas
Indispensáveis
Eternas!

 

 

 

A VIAGEM


Procura a si mesmo
E não se encontra...
Tenta chorar
Mas não consegue...
É como se todas suas lágrimas
tivessem sido choradas.

Tenta o esboço
De um sorriso
Mas nem isso acalenta
sua alma atormentada...
Busca vida dentro de si mesmo
Alguma luz talvez
Mas só encontra o vazio...

Seu chão está frio,
Sente que tudo em si
Está pronto para a partida
Longa e sem rumo,
Uma viagem ao incerto...

O que lhe resta dizer?
Adeus... já me vou.
Até um dia.
Até talvez.
Até nunca mais!

 

 

 

 

VIDENTE DA DOR

Não serei eu a te falar
Em espaço sideral,
Lua cheia e bola de cristal.
Não conheço as linhas das mãos,
Não faço premonições,
Não acredito em milagres,
Nem também em superstições.

Não serei eu a te falar
Em coisas transcendentais,
Mistérios e segredos orientais.
Nada entendo de baralhos,
Magias, búzios e sonhos celestiais.

Mas eu te falarei sobre essas marcas
Que trago no meu rosto esquálido,
Tão vívidas, profundas e reais!
Marcas de sofrimento e dor.
Marcas que expressam em vida
O quadro de quem muito amou...

 

 

 

 

ENVOLVIMENTO

Você me envolve com muito calor,
Numa tentativa de proteção.
Envolvo-me também,
E sem querer já sou toda amor.

Somos envolvidos os dois,
Tal a ternura,
Tal a candura.

E neste envolvimento
sem prisões,
Você faz parte de mim
e eu de você...

Se é loucura assim
nos envolvermos,
Somos, então,
Dois loucos em evolução?

 

 

 

 

ESSÊNCIA

Dizes
que o belo te seduz.
Queres o belo
E o resto pouco te importa.
Mas tu não sabes
que o belo
sem nenhuma essência
é vida sem vida?

Tu não percebes,
mas o belo
sem essência
não tem sentido.
E o feio
tem sentido
na medida
que se vê
sua essência.

 

 

 

 

RENASCER

Quando tudo for escuridão
E nem uma réstia de luz puder ser vista
Quando tudo for silêncio profundo
E não se puder ouvir o ciciar das folhas
Quando mais nada tiver
Para ser dito e explicado
Quando todos os olhos fecharem
Todas as bocas calarem
Quando a esperança for sepultada
E além do horizonte
Nenhum arco-íris for reconhecido
Quando tudo morrer...
Então será preciso recomeçar
Dar-se ao infinito
E renascer...

 

 

 

 

QUARTO DE UM POETA

É apenas o quarto de um poeta.
Quatro paredes nuas e amareladas,
Sem quadros, nem ornamentos.
Muitos livros espalhados, empoeirados.
Muitos sonhos no chão jogados.

Uma janela aberta, dando para a rua,
Onde, à noite, entra a luz da lua.
É sim, apenas o quarto de um poeta,
E, numa folha, à um canto abandonada,
Jaz ainda, uma poesia inacabada...

É apenas o quarto de um poeta
À tua espera... e tu não vens... não vens...
A poesia vai continuar inacabada
A luz da lua continua brilhante
Mas dentro de mim só há tristeza
Tu não vens... não vens nunca!

 

 

 

ASSIM SOU EU

Que nem lobo uivante
Nas noites de luas cheias,
Namorando o luar.
Que nem as vagas num levante
Triste e murmurado,
Vindo lamber a areia
Prateada da praia.
Que nem o canto diáfano
E misterioso de uma sereia,
Buscando trazer do mar
Alguém a quem possa amar.
Que nem um pássaro cativo,
Sonhando com asas e espaço aberto.
Que nem o ciciar do vento na mata,
Gemente, como um condenado.
Que nem a saudade,
Doendo fremente num peito.
Que nem a despedida,
Sem certeza de regresso.
Qual peito aberto sangrento,
Assim sou eu
Nas longas noites do tempo.

 

 

 

OUTRA FACE

Faz-te terno,
meigo
e amigo.
Espalha teus sorrisos
mil vezes ocultos,
faz-lhes rir,
com chistes.
Mesmo que muito te custe,
que soluçe
ou derrame lágrimas.


Expõe teu coração,
Não o escondas,
Não o deixes tão palpitante
por vida.
Rasga esta ferida,
Que em teu peito sangra.


Esmaga tua dor,
Se ainda a sente,
E inventa fantasias.
Recita poesias.
Suporta mil caminhadas
mesmo que teus pés
doloridos sangrem.
Aconchega com força
o amor ao teu peito,
Pois ele tudo salva
e transforma em vida.

 

 

 

PUNHAL DE AÇO

Este punhal que te fere,
Não fala e não sente:
É de aço, sangra e destila
Gota após gota de tua vida.
Penetrando vai mais fundo
a cada dia,
Matando-te em penosa agonia.

Este punhal que te fere,
Não fala e não sente:
É de aço, machuca e rasga,
Transforma vida em pedra,
Penetrando meio vesga,
Matando tudo que em ti medra.

Arranca este punhal do teu peito,
Estanca o sangue que dele derrama
E, enquanto ainda te resta vida,
Põe ataduras sobre a ferida,
Levanta-te deste mórbido leito
E sai, alça vôo, caminha,
Pois lá fora um novo amor te chama!

 

 

 

OFERENDA II

Pediste-me uma oferta,
uma dádiva...
Dei-te flores silvestres,
perfumadas
e delicadas.
Dei-te sonhos de castelos
encantados,
com vassalos e rainha.
Dei-te sorrisos e atavios
os mais belos
e meigos que tinha.
E não quisestes.

Doei-me inteira, então,
Feita só de coração;
Mesmo assim, ainda dizes
que não é suficiente.
O que mais posso oferecer?
Um poeta só tem sonhos,
O que mais podes querer?

 

 

 

SOLIDÃO

Quando o luar ilumina
As marcas dos meus passos
Sigo tacitamente o caminho
Que leva à solidão

Mesmo a presença da poesia
Voejando em meu coração
Não espanta tamanha solidão
Nasci para ser só?

 

 

 

REENCONTRO


Quando nos encontrarmos
Outra vez
Não sei o que te direi
Nem o que sentirei...

Não sei como me receberás.
Talvez não falemos nada,
Seremos só olhos e coração.

E o que tivermos para dizer
Ficará palpitando no peito,
Feito um furacão.

 

 

 

PASSOS E COMPASSOS

Não são somente as horas que passam,
Sei que junto com elas
Minha vida também vai passando.
E num compasso de passos,
De horas que logo se esvaem,
Separando-se dentro desse espaço,
Vejo que existem outras pessoas,
Que se passam, se ultrapassam,
Com ou sem compassos...
Entre essas tantas pessoas
Há espaços imensos, insondáveis,
E no meio de tantos passos,
Que continuam sendo só passos,
Se eles desconhecem quem por eles passa,
Eu sou mais uma sem compasso
E sem saber quem por mim passa.

 

 

 

NEM ME LEMBRO MAIS

Tinha as mãos repletas de ternura
Tão ansiosas pra te amar
Tinha os braços vazios
Tão sedentos pra te abraçar

Você não saberá jamais
O quanto tinha esperado por ti
O quanto tinha sonhado em ti
Por um segundo ou uma vida inteira
Nem me lembro mais

Tinha a alma repleta de ternura
Tão louca pra te encontrar
Tinha a boca assim sedenta
Tão ansiosa pra te beijar

Você não saberá jamais
O valor do bem que eu te tive
Todo um século, todo um momento!
Um tempo maior do que uma rosa vive
Nem me lembro mais!

 

 

 

OUTONO

Parece-me sem nenhum encanto
Este riso outrora tão cheio de graça.
Teus olhos... somente agora reparo,
Não falam mais de ternura.
Nem sentido tem mais
O nosso toque de mãos.

Não estás mais em mim,
Nem eu estou mais em ti...
Somos estranhos
Que precisam ser apresentados
Um ao outro outra vez.
Estamos no outono,
As lágrimas caíram todas,
E agora ansiamos pela primavera.

Então, colherei uma flor em tua memória
E tu, plantarás roseiras sem mim!

 

 

 

CONCHAS E SONHOS

Não vou mais catar conchas pra você
Outra pessoa o fará no meu lugar:
Conchas pequenas e grandes
Coloridas e translúcidas,
Onde você poderia escutar o som do mar.

Não vou mais catar sonhos pra você
Outra pessoa o fará no meu lugar:
Sonhos coloridos e dourados,
Tão cheios de caminhos e encantos.

Agora, quando a luz da lua minguante,
Banhar-me a alma extenuada,
E as algas roçarem meus pés descalços;
Eu saberei que é melhor
Seguir sozinha na noite nua e estagnada
Do que acompanhar enganada
A trilha dos teus passos...

 

Todas essas poesias pertencem a
Maria Jania Teixeira
e estão protegidas pela lei 9.610/98

Para entrar em contato com a poeta:
eup601@terra.com.br

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