A POESIA DE MARIA JANIA TEIXEIRA

 

A LUA NOS MEUS BRAÇOS
FILHA DA NOITE
NEM ME LEMBRO MAIS
MINHA POESIA
CERNE
RETRATO
ONDA INQUIETA
EU PODERIA
POETA
OFERENDA
ÍCARO
MINHA CULPA
LUAS
HORA DO POETA
PORTAL
DIA BRANCO
SÓS

A LUA NOS MEUS BRAÇOS

Tenho a alma repleta
De ternura sem dono.
Dá-me tua presença azul
E vem comigo sem medo
Percorrer a estrada do amor.
Vem embalar a lua
Nos meus braços nus,
Espiar a face das estrelas
Nos lagos noturnos
Formados nos meus olhos.

Tenho o coração transbordando
De ternura vadia.
Dá-me tua mão,
Caminhemos lado a lado,
Para que nossos passos
Risquem trilhas paralelas.
Vem comigo
Colher as rosas vermelhas
Que perfumam as estradas.

Amor, fecha-me os olhos
Em teus doces lábios.
Não me deixes pensar
Que além se oculta
A encruzilhada do nunca mais.

FILHA DA NOITE

Eu era filha da noite
E as trevas moravam em meus olhos.
Mas tu, meu amor, com tua luz,
Rasgaste a cortina que escurecia minha vida
E me mostraste o nascer de um novo dia.
Eu era uma nave sem bússola,
Tinha os braços cansados
De girar o mesmo leme
Nos mares sempre iguais.
Mas tu, ó meu amor,
Desenhaste uma estrada de luz
E eu vi ao longe o porto seguro.
Eu tinha os olhos tão vazios
De outros olhos,
Todas as solidões moravam
Dentro do meu peito.
Mas tu, com tua chama,
Acendeu uma alma
Em meu rosto feito de ausências.

Hoje existo porque me vejo
Dentro da luz dos teus olhos,
E esta que sou, só sou,
Inteira, límpida e nua,
Porque tu a fizeste.
E o caminho que sigo agora
É a trilha dos passos
Que deixaste lá fora.


NEM ME LEMBRO MAIS

Tenho as mãos repletas de ternura
Tão ansiosas pra te amar
Tenho os braços vazios
Tão sedentos pra te abraçar

Você não saberá jamais
O quanto tenho esperado por ti
O quanto tenho sonhado em ti
Por um segundo ou uma vida inteira
Nem me lembro mais

Tenho a alma repleta de ternura
Tão louca pra te encontrar
Tenho a boca assim sedenta
Tão ansiosa pra te beijar

Você não saberá jamais
O valor do bem que eu te tive
Todo um século, todo um momento
Um tempo maior do que uma rosa vive
Nem me lembro mais

 

MINHA POESIA

A minha poesia
não é senão um lamento,
saído do fundo de minha alma
e espalhado em fragmentos,
entre letras e pensamentos.

A minha poesia
não é senão um profundo
mergulho dentro do meu âmago,
um pêndulo entre a fantasia e a realidade.
um grito rouco, solto entre linhas
rabiscos em sintonia.

A minha poesia
não é senão nus sentimentos,
recônditas emoções,
todos saídos do meu coração.
Não é senão eu mesma,
levada ao teu conhecimento,
esperando teu reconhecimento.

CERNE

Cava bem fundo
meu coração,
Se buscas conhecer-me.
A face que tu vês
Tão risonha diante da vida
Não diz muito,
Não diz tudo...
Tu o sabes!
Mas se ainda assim
Tu não me descobres,
Arranca-me o coração,
Deixa-me o nome,
Devora-o
E vive-me!

RETRATO

Trago alguns espinhos nas mãos
E ciprestes em meu coração.
Existe ânsia de viver em meus olhos,
Redemoinho, trovoada e paixão.

Trago algumas centelhas nas mãos
E anêmonas em meu coração.
Existem brilhos de estrelas em meus olhos,
Medos e presságios de solidão.

Não são flores que trago nas mãos,
Só há ciclones no meu coração.
Existem sorrisos lassos em meu rosto,
Silêncios imensos ali postos.

Quando refletida no espelho da vida,
Há temporais que me açoitaram o rosto,
Há rugas de atalhos e estradas não seguidas:
Sou um fiel retrato das dores por mim vividas.

ONDA INQUIETA

Meu olhar acompanha
O vôo de uma onda.
Vejo sua asa aberta
Se espatifar inteira
Contra um rochedo.

Nesse momento,
Minha alma soluça
Como se fosse uma sereia
Com saudades de casa.

Tenho anseios de pescador.
Quero ir para o mar
Na jangada que teço
De brumas e sonhos.

Serei eu uma onda inquieta
Saída do mar sem aviso?

EU PODERIA

Eu poderia ser feliz se quisesse,
a minha felicidade depende de mim.
Eu poderia entranhar-me pelos bosques
e descobrir velhos segredos,
guardados ali pelos ventos.
Eu poderia subir na mais alta montanha
e sentir-me única, dona do mundo.
Eu poderia correr pelos campos
como uma criança, de braços abertos,
sorrindo, como gente grande.
Eu poderia ir reverenciar o mar,
ficar longas horas a olhá-lo,
e adormecer acariciando suas águas.
Eu poderia deitar-me na grama fresca
ao sabor do vento no rosto,
e contar cada nuvem, cada pássaro.
Eu poderia, numa tarde morna,
ao som das flores líricas,
recostar minha cabeça cansada,
no tronco de uma velha árvore
e beber a água da fonte da vida.
Eu poderia... poderia!...
Mas se eu dissesse que fiz tais coisas,
quem em mim acreditaria?

POETA

Disseste-me um dia:
Não és um poeta,
Não é possível que sejas...
Um poeta não tem no peito
furacões.
Não traz no olhar o arco
do perigo.
Não tem as mãos apedrejadas.
Não tem pensamentos
de abissais.
Não traz no coração
um grito
rouco
não solto.
Não tem a vida
sem noite e sem dia.
Não anda lesto
atrás da morte.
Hoje te digo:
Ainda não sei se sou um poeta,
No entanto, é assim
que me chamam!

OFERENDA

Não deves oferecer-me coisas etéreas,
Eu não saberia o que fazer com elas.
Minhas mãos profanas nem poderiam tocá-las.
Dá-me antes, um terno sorriso,
Um arquejo de amor,
Um bafejo de mar.
Tão contente ficaria!

Não queiras pressagiar-me o futuro,
Uma flor ainda botão a se abrir e uma poesia,
Muito mais me comoveriam.
Ao invés de olhares silenciosos,
E palavras não ditas,
Dá-me um beijo
À minha chegada,
Ou pede-me que volte,
Quando partir.

E se por um desses acasos,
A mim ficares preso eternamente,
Não me chames de demônio,
Diga simplesmente que me adoras,
Ou que jamais me abandonarás!

ÍCARO

Tens dentro de ti
Um Ícaro, escondido,
Feito prisioneiro,
Forjando asas de cera,
Sonhando voar.

Olha, o carcereiro dorme...
Foge agora,
Solve-te,
Paralisa-te no ar,
Voa sobre as nuvens,
rufla tuas asas até cansar.
Desgasta todos os teus sonhos
No momento que se segue.
Descarta-te deste ímpeto
Que te persegue.

Depois, volta, se quiseres,
Entra na mesma prisão.
Quando o carcereiro acordar,
Poderá adivinhar?

MINHA CULPA

Não te culpo por minha tristeza,
Desta tristeza que me esvazia a alma,
Somente eu sou a culpada.
A brisa que me acaricia o rosto
É a mesma que eu amava.
Por trás das cortinas baças
O sol ainda brilha e me abraça.

A grama continua com marcas
de caminhada,
Desde os tempos que, descalça,
Eu corria por ela, como se fosse alada.
Sei que as mesmas estrelas
Continuam me espiando pela janela,
E, no entanto, não me animo para vê-las.

Não te culpes,
Eu somente sou a culpada.
Se sou triste
E esta melancolia arrasta os meus dias,
É tempo de colher um dia diferente!


LUAS

As luas que passam em nossas vidas
Podem ser luas transparentes e diáfanas
Vistas através de névoas brancas
Caminhando por estradas de nuvens.
Podem apenas passar por nossas vidas
Carregando a aurora em seus braços,
Não deixando marcas, nem saudades
E se perderem nas asas do nada...

Mas as luas que passam por minha vida
Acendem brasas em meus olhos
E atiçam o anseio que arde em mim
De viver sempre novas primaveras.
São luas que ainda podem ser vistas
Na sombra opaca das estrelas
No ventre grávido das dunas
E no cerne do meu peito!

HORA DO POETA

Quando a casa fica silenciosa,
Quando só há vazio e sombras,
Quando o vento é apenas um
Sussurro lá fora,
E os fantasmas fazem a ronda,
É então que a saudade se acomoda
E a tristeza fica espiando, à penumbra.

Quando a casa fica melancólica,
Quando só há vazio e sombras,
Murmúrios lá fora...
Quando as horas meditam, à penumbra,
O poeta é uma figura bucólica,
Espiando através da janela da vida,
Procurando rimas para viver.

PORTAL

Não será a solidão
Que afastará as distâncias,
Os caminhos, as estâncias...
As folhas de outono
Caem suavemente no chão
E encontram eco no meu coração.
Eu sei que aquele portal
Tem um imenso vão,
E eu sei que posso atravessá-lo,
Mas meus pés não se movem.
Estou como que feito uma estátua,
Delineada à sombra da janela,
Observando estrelas frias
Que nunca se comovem.
As folhas de outono
Continuam caindo lentamente,
Encontrando eco no meu coração.
Mas meus pés não se movem,
Não consigo alcançar o portal
E escapar desta solidão.


DIA BRANCO

Hoje
Um dia branco
Sem brilho
Um dia pranto
Sal nos cílios
Um dia vazio
Alma com frio
Hoje
Um dia branco
Tão incolor quanto a dor
Tão marasmo quanto o amor
Um dia solidão
Sonhos no chão
Hoje
Um dia sem matizes
Mergulho mil vezes
No amanhã
Vontade vã
O dia não passa
Se disfarça
Continua
Hoje

 

SÓS

Por que estamos tão sós, meu amor?
A madrugada traz frio para o meu coração.
Meus olhos estão vazios de outros olhos,
Buscando os teus na escuridão...
Tenho te buscado tanto, meu amor!
Tenho te buscado por tanto tempo,
Em tantas vidas, em tantos séculos...
Mas tudo que encontro é esta solidão!

Por que continuamos tão sós, meu amor?
Quando a luz prateada da lua ilumina minha face,
Eu vejo claramente o caminho dos teus passos.
Sei como encontrar teus olhos rasgados em luz
E sei exatamente qual direção devo seguir,
Pois tenho uma bússola para me guiar...
Mas tudo que encontro é esta solidão!

Amor, se neste exato momento,
Você chegasse carregada nos braços da aurora,
Eu sei levaria embora
A angústia que dilacera meu coração!
Amor, se neste exato instante,
Ou mesmo na próxima hora,
Você chegasse pelas mãos da madrugada,
Feito uma nave de astros e dunas -
Muito branca, toda minha, toda nua...
Eu sei romperia esta bruma
Que nos separa agora!

Todas essas poesias pertencem a
Maria Jania Teixeira
e estão protegidas pela lei 9.610/98

Para entrar em contato com a poeta:
eup601@terra.com.br

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