DOROTHY PARKER

Tradução: Angela Carneiro

A Alma Buscada

    Quando peso os prós e os contras
das coisas que meu amor encontra
uma boca curva, um punho de fogo
um cenho interrogativo, um belo jogo
de palavras tão batido quanto o pecado
uma orelha pontuda, um queixo rachado
membros longos, agudos e olhos oblíquos
nem frios, nem meigos, nem escurecidos
Quando então pondero usando a razão
nas superficialidades que satisfazem meu coração
sou surpreendida com tal banalidade
me maravilho com a minha normalidade.

*

Cumprimento

    Para tal minha mãe me aqueceu
e me chamava para casa antes do breu
e induzia a noite da infância a ficar quieta
e me dava fortes cereais na minha dieta
e às oito em ponto me fazia deitar
e prendia meus cabelos, sem me permitir engordar
e vigiava meu sentar, minha postura
para eu me tornar uma mulher madura
e ouvir um assobio e perder a razão
e fazer caquinhos do meu coração.

*

Ser Mulher

    Por que será que quando estou em Roma
daria tudo para estar em casa na redoma
mas se estou na minha terra americana
minha alma deseja a cidade italiana?

E quando com você, meu amor, meu remédio,
fico espetacularmente cheia de tédio
Mas se você se levantar e me deixar
Grito para você voltar?


*

Tarde

    Quando estiver velha, mente plana
e sem este desejo louco
com as Memérias dividindo minha cama
e a Paz dividindo meu fogo

Pentearei meus cabelos em dois coques
sob minha touca limpa arrumada
e olharei minhas mãos cansadas sem choques
no meu colo espalmadas

E terei robes de floridos panos
com rendas minha garganta beijando
mas oh, espero que esses abençoados anos
não estivessem se aproximando!


*

Frustração

    Se eu tivesse uma arma neste momento
Teria um mundo de divertimento
espalhando balas nos cérebros, sem pudor,
dos caras que me causaram dor.

Ou tivesse eu algum gás venenoso
teria um passa-tempo gostoso
acabando com um número indigesto
de pessoas que detesto

Mas não tennho nenhuma arma mortal
Assim, a Fatalidade não me dá prazer tal.
Então eles ainda estão lépidos e fagueiros
aqueles que mereceriam o inferno por inteiro.


*

Curada

    Ah, quando livrei meu coração
o ano passa, cai sem saltos
vi meu querido um dia, então,
ao lado do muro florido, incauto,
e tudo o que eu tinha a dizer: paixão...
pensava que você fosse mais alto.

O Perigo de Escrever Versos Desafiantes

E agora tenho outro rapaz!
Nem precisa mais dizer
que minhas noites são lentas e sem paz
por tanto amar você.

O jeito dele não é como o seu, que é mau.
Ele não é do seu tipo matreiro
ele se prepara para o juízo final
um homem sóbrio e verdadeiro.

Nunca o vêem por aí pela cidade
com outra no colo a lamber
Ele acabaria com sua herdade
se isso me desse prazer.

Daria seu sangue para meus lábios pintar
Se eu os quisesse vermelho e não rosa
Ele implora as pontas de meus dedos tocar
ou afagar minha cabeça orgulhosa.

Nunca há um pingo de mentira em seu falar
e nem se gaba dos corações que é dono
Já até me esqueci o que é chorar
e recordei o que é uma noite de sono.

Nao é quem consola meus pensamentos
é mais devagar, anda a pé.
O Deus, lendo isso descubro neste momento
o bocado tolo que ele é!


*

Consolo

    Havia uma rosa que morreu em botão
Eu vi sua beleza partida então
Numa encosta
ouvi-os dizer: O que importa esta morte
com tantas rosas por aí de tantas sortes
Não lhes dei resposta.

Havia um pássaro que morreu
disseram: montes deles voarão pelo céu
qual a razão de se ficar triste agora?
Havia uma moça cujo amor foi embora
Não esperei então a hora
que diriam: há muitos homens lá fora.


*

O Homem Muito Rico

    Ele tinha tido do melhor, e não se contentava em ser o
rei.
Nada era barreira, tudo em seus termos de trocas
Ele descansa baixo, corretamente em madeira de lei
e entretém as mais exclusivas minhocas.

Mulheres na Literatura
Livraria Luar de Outono - Carlos Drummond De Andrade
em parceria com: